quarta-feira, 22 de julho de 2020

KLÁSSIQO: Rebecca - A Mulher Inesquecível

Anne, Laurence e Judith: um incômodo fantasma por perto. 

É mais do que curioso que com tantos filmes famosos e frequentemente lembrados, somente um longa de Alfred Hitchcock tenha recebido o Oscar de Melhor Filme, no caso Rebecca, um filme que fica até esquecido diante dos seus irmãos famosos como Um Corpo Que Cai (1958), Janela andiscreta (1954) e até Psicose (1960). Lançado em 1940 o filme foi indicado a onze prêmios da Academia, Hitch e todo o elenco foi lembrado, assim como várias categorias técnicas (o filme recebeu também o prêmio de Melhor Fotografia em Preto e Branco). O filme marcou a chegada do diretor em Hollywood pelas mãos do produtor David Selznick que estava ansioso para levar o nome mais badalado do cinema inglês para os Estados Unidos. Ele considerou que o texto baseado na obra de Daphne Du Maurier (que tem momentos que lembram muito o clássico Jane Eyre de Charlotte Brontë) seria um sucesso nas mãos de Hitch. No entanto, o diretor foi perdendo cada vez mais o interesse pelo projeto, especialmente quando teve problemas para escalar a protagonista. O filme conta a história de uma mulher modesta e insegura (Joan Fontaine, irmã da já famosa Olivia de Havilland) que trabalha como dama de companhia para uma senhora rica e um tanto grosseira. Quando o filme começa as duas estão em uma viagem pela Europa e encontram o charmoso viúvo, Sr. De Winter (Laurence Olivier). Ele se tornou viúvo a pouco tempo e demonstra cada vez mais interesse pela jovem que cruza o seu caminho. Os dois acabam se casando e o que poderia ser um conto de fadas se torna um verdadeiro tormento. Na mansão onde a nova Senhora De Winter irá viver, tudo transpira a presença da falecida Rebecca, assim como todos idolatram a mulher que não mora mais ali. Rebecca foi convertida em uma espécie de entidade acima do bem e do mal - e paira sobre aquela casa feito um fantasma (para desespero da nova senhora que torna-se cada vez mais insegura e deslocada). Esta tensão prejudica o relacionamento com o esposo, que se torna mais arredio e parece estar escondendo algo. O roteiro tem o grande atrativo de subverter o que a plateia espera, existem guinadas que sempre caminham para o lado oposto do que se imagina, ao ponto da protagonista perder o destaque na parte final, deixando o esposo no centro da narrativa. Fontaine e Olivier estão muito bem em cena, mas reza a lenda que Fontaine era insegura de verdade, fazendo com que Hitchcock construísse um ambiente bastante hostil para ela nos bastidores para que sua atuação ficasse ainda mais autêntica. Apesar dela não ser a escolha do diretor para o papel (foi Selznick que decidiu por ela) não houve ressentimentos entre a estrela e o diretor, especialmente depois que Anne foi indicada ao Oscar por seu trabalho e repetiu a parceria com o cineasta em seu filme seguinte (Suspeita/1941 que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz). Outra interpretação feminina que merece atenção em Rebecca é da australiana Judith Anderson que encarna a estranha governanta Srª Danvers que tem uma das cenas mais arrepiantes no desfecho. Com cenários imponentes e a elegância de sempre, Hitchcock faz um trabalho que impressiona pela fluidez, embora seja diferente do  que está acostumado a fazer. A montagem é precisa, a fotografia impressiona e a trama que mistura romance, suspense, tribunal e um senso de humor maldoso não soa datada e pode até conquistar um lugar entre seus filmes favoritos do cineasta. 

Rebecca - A Mulher Inesquecível (Rebecca / EUA - 1940) de Alfred Hitchcock com Anne Fontaine, Laurence Olivier, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce e Florence Bates. ☻☻☻☻

terça-feira, 21 de julho de 2020

PL►Y: Como Terminei Este Verão

Grigoriy e Sergey: dois homens em uma ilha deserta de gelo. 

Dois homens com grande diferença de idade estão isolados em uma ilha deserta. Os dois devem trabalhar juntos e começam a ter problemas sérios de relacionamento. Aos poucos medo, mentiras e desconfianças começam a ganhar forma e a tensão cresce até o final. Esta ideia pode até ser confundida com a de O Farol (2019) mas trata-se do russo Como Terminei Este Verão, filme de 2010 dirigido por Aleksey Popogrebskiy, filme que rendeu aos seus atores o prêmio de melhor atuação masculina daquele ano no Festival de Berlim, que ainda deu ao filme o Urso de Prata do Festival (espécie de segundo lugar da Mostra Competitiva). Embora o ponto de partida seja bastante semelhante com o recente filme de Robert Eggers a estética da trama não poderia ser mais diferente.  A começar pelo título irônico que quebra a ideia de um filme de verão com sol, praia, romances... ambientado em uma ilha do Oceano Ártico (o que dá ao filme uma identidade por si só interessante, valorizada pela belíssima fotografia), o filme nos apresenta Sergei (Sergey Puskepalis), um meteorologista experiente com plena consciência da história da região e funcionamento das pesquisas que acontecem naquele local. Ele trabalha com o jovem Pavel (Grigoriy Dobrygin), graduado recentemente na faculdade, inexperiente e que percebe aquela oportunidade como um bom diferencial para o seu currículo. No entanto, a seriedade de Sergei contrasta com o tantinho de irresponsabilidade de Pavel, e isso torna o relacionamento deles bastante tenso sem testemunhas por perto. Se Pavel tenta driblar a monotonia do local com música e brincadeiras, Sergei aprecia aquele lugar frio, silencioso e solitário para realizar as tarefas (embora ele tenha uma família longe dali). A guinada da história está no dia em que Pavel recebe uma mensagens por rádio que mudará para sempre a dinâmica entre os dois. Embora esta mensagem renda desdobramentos mais radicais na trama, o melhor do filme é perceber o relacionamento dos personagens. Por vezes parecem patrão e empregado, mestre e aluno, pai e filho, e, em uma cena, até submisso e dominador. Existe entre os dois uma relação de saber e poder nas entrelinhas que torna o filme muito interessante, especialmente quando a tal mensagem troca o detentor de uma informação "valiosa" nesta estrutura. O diretor Aleksey Popogrebskiy realiza um belo trabalho na construção de um suspense econômico e que tem a geografia de sua ambientação um verdadeiro trunfo. Vale lembrar que se trata de um filme russo, bem distante do ritmo Made in Hollywood. Silencioso e contemplativo, combina com a melancolia solitária que explica perfeitamente o desfecho da pendenga que se instaura entre os dois. Pavel e Sergei são verdadeiros cúmplices e no final você se dá conta que um homem pode não ser uma ilha, mas alguns até gostariam de ser. 

Como Terminei o Verão (Kak ya provyol etim letom / Rússia - 2010) de Aleksey Popogrebskiy com Sergey Puskepalis, Grigoriy Dobrygin e Igor Chernevich. ☻☻☻☻

PL►Y: Cadê Você, Bernadette?

Blanchett: mulher de sucesso em crise existencial. 

De temperamento difícil e com tendência para a reclusão, Bernadette Fox não é uma pessoa fácil de se conviver. Se você a conhecer pessoalmente, provavelmente irá considerar que ela é apenas uma mulher antipática que tem problemas com a vizinha ou que apenas é uma mulher insatisfeita com alguma coisa (que nem ela sabe direito o que é). No entanto, ao ser interpretada pela sempre interessante Cate Blanchett e dirigida por Richard Linklater, a personagem recebe novas camadas numa história que oscila entre o drama e a comédia com um raro equilíbrio (pelo menos até sua última parte - quando a história interessante se resume a uma reconciliação familiar). Enquanto parece tentar nos fazer rejeitar aquela personagem (e Cate tenta fazer isso com o maior gosto e um bocado de charme) as partes seguintes nos faz entender um pouco mais a história daquela mulher que vive em uma casa ainda em construção com o marido (Billy Crudup) e a filha (Emma Nelson). Descobrimos que Bernadette Fox era um dos nomes mais celebrados da arquitetura e os depoimentos sobre sua genialidade, em formato de documentário no decorrer do filme, é um dos destaques da sessão (e que lembra o que o diretor já vez no subestimado Bernie/2011). Aos poucos a protagonista se torna mais complexa e à beira de um ataque de nervos. O marido parece não se dar conta do que está acontecendo, mas uma pendenga com uma vizinha (Kristen Wiig) irá deixar mais evidente que algo não está bem com Bernadette, ao ponto dela correr o risco de cair num verdadeiro golpe do mundo moderno. Com grande dificuldade de construir vínculos afetivos, sua postura é vista por muita gente como excêntrica, mas na verdade esconde uma crise emocional prestes a explodir. Quando ela se depara com sua própria situação é interessante como o roteiro (baseado no livro de Maria Semple) opta por um caminho diferente do que vemos neste tipo de história. Bernadette parte rumo a descobrir novos sentidos, outras motivações e segue por caminhos inusitados. Neste ponto, Cate Blanchett tira de letra uma personagem que deve processar seus sentimentos e seguir em frente, mas o filme tropeça justamente quando o marido e a filha partem em busca dela e o filme perde ritmo (me parece que um reencontro no final já estaria bom). Talvez o problema seja o brilhantismo da atriz que torna seu trabalho o maior atrativo de filme, afinal, embora  filme tenha um bom  roteiro, trata-se do tipo de texto complicado que pode facilmente gerar rejeição da plateia pela postura de sua protagonista. Com Cate à frente, Cadê Você, Bernadette? vai além da esposa que "desapareceu no estreito de Galarche", e se torna a história de uma mulher em busca de si mesma (o que é muito mais interessante). 

 Cadê Você, Bernadette? (Where'd you go, Bernadette? EUA - 2019) de Richard Linklater com Cate Blanchett, Billy Crudup, Emma Nelson, Kristen Wiig, Steve Zahn e Laurende Fishburne. ☻☻☻☻

terça-feira, 14 de julho de 2020

PL►Y: Boy George - A Vida É Meu Palco

Douglas Booth: um Boy George de respeito. 

Com o sucesso das cinebiografias de Freddie Mercury (Bohemian Rhapsody/2018) e Elton John (Rocketman/2019), foram anunciados outros projetos sobre astros da música que se tornaram icônicos no século XX. Assim, já comentaram sobre o preparo de um filme sobre a vida de David Bowie e Boy George. Na verdade, fiquei surpreso quando descobri nesta semana que em 2010 já foi realizado um filme sobre o vocalista do Culture Club estrelado por Douglas Booth (que viveu recentemente Nikki Sixx no filme sobre o Mötley Crüe). Feito para a televisão, a produção é bastante eficiente ao apresentar um pouco mais sobre o cantor que marcou a década de 1980 com sua androginia de maquiagem pesada e roupas exóticas cantando hits como Do You Really Want to Hurt Me e Karma Chameleon. O filme começa com o jovem George O'Dowd (Booth) tendo problemas na escola e com a família, especialmente pelo seu estilo diferente. Quando o conselheiro escolar lhe pergunta o que o diferencia, o que ele mais gosta de fazer ele é categórico: "Maquiagem". Inteligente, com língua afiada e um senso de humor agressivo, George não demora a sair de casa e tentar a vida em outros cantos. Ele acaba indo morar em prédios abandonados com outros jovens que compartilhavam o mesmo gosto por roupas e maquiagens (para desgosto de suas famílias), além de curtirem passar o tempo no Blitz, um point comandado com rabugice e vaidade por Steve Strange (Marc Warren). O lugar se tornaria a nascente das bandas de New Romantic que influenciava não só a música mas as revistas de moda dos anos 1980. O filme não desperdiça a chance de apresentar quem frequentava aquele espaço, de Billy Idol a Spandau Ballet, além de outras figuras que não se tornaram tão conhecidas. George é apresentado àquele espaço pela melhor amiga, a drag queen Marilyn (Freddie Fox) e acaba trabalhando por lá enquanto não percebe a música como um caminho. O rapaz se interessava mesmo era por moda e vivia carregando um manequim para onde fosse para ajudar na construção de seus próprios figurinos. O filme também ressalta dois romances de grande influência vida do protagonista, um deles é o cantor Kirk Brandon (Richard Madden), o outro é o baterista Jon Moss (Mathew Horn) que não só o ajuda na fundação do Culture Club com também na construção de sua identidade vocal e sonora junto à banda.  Dirigido por Julian Jarrold (que depois dirigiu o ótimo A Garota/2012 para a HBO) o filme consegue reproduzir aquele mundo de visual exuberante sem esquecer as inseguranças daqueles personagens quanto ao crescimento, a carreira e a sexualidade. Douglas Booth tem ótimos momentos na pele de Boy George, curiosamente se tornando mais seguro em cena conforme seu visual fica mais elaborado - em alguns momentos eu até esquecia que era um ator em cena. Boy George - A Vida é Meu Palco (nome manjado para o original Worried About the Boy) só tropeça ao mesclar cenas de duas fases distintas do cantor. O contraste entre a efervescência dos anos 1980 e a ressaca dos anos 1990 deixa a narrativa um pouco engasgada, mas nada que estrague o programa. O Culture Club nunca foi levado muito à sério e por brigas internas acabou terminando em 1986 retornando às atividades de 1998 até 2002 e para voltar em 2011 e continuar até hoje. O resultado é um bom programa para quem já curtiu a mistura de soul, reggae e pop com o vocal emocional de Boy George. 

Boy George - A Vida é meu Palco (Worried about the Boy / Reino Unido - 2010) de Julian Jarrold com Douglas Booth, Richard Madden, Matthew Horn, Freddie Fox, Frances Magee e Daniel Wallace. ☻☻☻

segunda-feira, 13 de julho de 2020

PL►Y: Luce

Octavia, Kelvin e Naomi: um enigma chamado Luce. 

Exibido no Festival de Sundance no ano passado, Luce se tornou um dos filmes mais comentados do Festival - e pela ambígua forma como trata um tema tão delicado como os estereótipos, foi bastante merecido. Baseado na peça de JC Lee (roteirista de séries famosas como Looking, How to Get Away with Murder e The Morning Show) a trama conta a história de Luce (Kelvin Harrison Jr.), adolescente que quando criança foi resgatado na zona de guerra de Eritreia e adotado por um casal americano. Devido a todas as situações que vivenciou, o menino cresceu sendo acompanhado por psicólogos e assistentes sociais, digerindo suas tragédias e se tornando um verdadeiro exemplo de superação - ou pelo menos é isso que se espera dele. Destaque na equipe de atletismo, no grupo de debates, ele se tornou uma espécie de parâmetro comparativo junto aos demais alunos. No entanto, a experiente professora Harriet Wilson (Octavia Spencer) percebe uma rachadura na imagem perfeita do rapaz e, preocupada por conta de uma redação feita por ele, conversa com a mãe (Naomi Watts) de Luce para que ela fique atenta ao comportamento do filho. Este é o ponto de partida para uma trama onde o estudante e a professora irão disputar quem é digno de maior credibilidade. Se por um lado a mãe evita pensar no pior sobre o rapaz, o pai (Tim Roth) desconfia que o menino possa não estar contando toda a verdade sobre os acontecimentos que começam a surgir. Não demora muito para que eles invertam os papéis e mais tarde não façam mais a mínima ideia do que pensar. O estreante Kelvin Harrison Jr. se sai muito bem como um garoto que pode ser tão inteligente quanto manipulador, que sabe exatamente o que fazer para desacreditar quem duvida de sua integridade e, neste caso, ele será capaz de fazer todos repensarem se no fundo o que acontece não é pura implicância da professora (some isso a um problema familiar de Harriet e a cosia só piora). A direção de Julius Onah (que antes dirigiu Uma Garota em Apuros/2015 e O Paradoxo Cloverfield/2018) faz um bom trabalho deixando seus personagens transitando no campo da sugestão, assim, deixa muitas das ações e intenções de Luce escondidas, deixando dúvidas sobre sua índole. Por conta disso, o elenco ao redor do protagonista também se destaca, Naomi Watts está excelente como a mãe que é incapaz de acreditar que seu filho possa ser diferente da imagem que sempre idealizou, assim como Tim Roth convence como o pai que está sempre em cima do muro e não sabe muito bem o que dizer. Também não podemos esquecer de Octavia Spencer, se afastando do tipo de papel que costumam oferecer para ela. Mais sisuda e um tanto amarga (e humanamente imperfeita), no final ela parece ser a voz da consciência de um rapaz que começa a não suportar as pressões que existem sobre ele. Luce (que nem é o nome de batismo do rapaz) consegue simular sorrisos, surpresa, ingenuidade e, por vezes, soa até afetado em seus trejeitos, por viver neste labirinto identitário, ele termina o filme sem que o espectador tenha certeza dos rumos que escolherá. Por se distanciar do óbvio em seu tema complicado, o filme é um grande acerto.  

Luce (EUA/2019) de Julius Onah com Kelvin Harrison Jr., Octavia Spencer, Naomi Watts, Tim Roth e Andrea Bang ☻☻☻☻

PL►Y: O Bar da Luva Dourada

Tiesel e Jonas: bebendo com o inimigo. 

Fritz Honka (Jonas Dassler coberto de próteses) é um homem solitário que quando não está no trabalho está gastando seu dinheiro no bar do título (ou cometendo atrocidades). Entre os clientes do bar está um conjunto de pessoas tão solitárias quanto ele, prostitutas de faixa etária variada e alcoólatras. As conversas são ásperas e paira uma certa melancolia no ar, uma desesperança que é quase consensual. O que aqueles frequentadores não suspeitam é que o estranho Fritz é na verdade um serial killer, que leva mulheres para seu apartamento e em momentos de total descontrole as agride até a morte - para depois esconder os corpos e evitar maiores consequências. Esta é praticamente a rotina do filme O Bar da Luva Dourada, filme do diretor Fatih Akin - que demonstra mais uma vez ser um  cineasta imprevisível. Celebrado por filmes dramáticos sobre situação de personagens turcos na Alemanha como em Contra a Parede (Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2004), Do Outro Lado (eleito o melhor roteiro no Festival de Cannes 2007) e do recente Em Pedaços (ganhador do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 2017), mas Akin já demonstrou que sabe ser mais leve em Soul Kitchen (2009) mas aqui ele quer provar que pode exagerar da forma mais grotesca ao contar uma trama baseada em fatos reais. O filme abusa de cenas chocantes e costuma ser bastante explícito ao retratar a rotina de Fritz Honka - mas embora tenha cenas de sexo e nudez, não há nenhum sinal de erotismo destas cenas. Seus personagens vivem num recanto sombrio da Alemanha na década de 1970 e, em alguns momentos, contrastam com o mundo fora daquele universo. Há quem considere que o exagero tenha conferido à narrativa um tom cômico, mas não vejo desta forma, no máximo ele investe doses generosas de ironia (e em alguns momentos esta "ironia" é a salvação de vítimas em potencial do protagonista). O pouco conhecido Jonas Dassler demonstra talento (e bastante coragem) para viver o protagonista, afinal, além de ter seu corpo exposto sem qualquer glamour, sua pesada maquiagem não impede que possamos perceber o quanto ele é expressivo (e convincente de aos 26 anos viver um homem mais velho), reparem como os olhos dele refletem o que se passa na cabeça perturbada de Honka. Em alguns momentos me fez lembrar o que Lars Von Trier fez com A Casa que Jack Construiu (2018), só que Akin é mais conciso e só investe nas fantasias quando o personagem se rende aos delírios envolvendo açougue e carne crua. É um filme para poucos, mas que pode despertar interesse como uma história de horror urbana e realista, pena que em nome da transgressão o diretor deixou de lado camadas que poderiam enriquecer ainda mais o texto baseado no best seller de 2016 escrito por Heinz Strunk.

O Bar da Luva Dourada (Der Goldene Handschuh /  Alemanha - França / 2019) de Fatih Akin com Jonas Dassler, Adam Bousdoukos, Margarete Tiesel, Katja Studt, Marc Hosemann e Hark Bohm. ☻☻

domingo, 12 de julho de 2020

4EVER: Kelly Preston

13 de outubro de 1962 ✰ 12 de julho de 2020

Kelly Kamalelehua Preston nasceu em Honolulu no Havaí. Quando pequena, Kelly chegou a morar no Iraque e também na Austrália, além de estudar teatro na Universidade do Sul da California. Kelly também foi modelo antes de se dedicar mais à carreira de atriz após participar de um seriado em 1980. Logo recebeu destaque em comédias (Admiradora Secreta/1985 e A Primeira Transa de Jonatham/1985), ficando conhecida principalmente por seu trabalho em Irmãos Gêmeos (1988). Kelly também trabalhou em filmes independentes de sucesso como Um Drink no Inferno (1996) e Ruth em Questão (1996), além do indicado ao Oscar Jerry Maguire (1996), ao lado de Tom Cruise. Casada com o ator John Travolta desde 1991, ela atuou ao lado do marido em A Reconquista (2000) e Gotti (2018). Kelly faleceu em decorrência de um câncer de mama diagnosticado em 2018. 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

PL►Y: Downton Abbey - O Filme

Os Crawley e seus criados: visita ilustre em episódio gigante. 

Criada em 2010 a série Downton Abbey se tornou uma febre mundial remando contra o formato da maioria das séries de sucesso. Não havia crimes, espionagens, cenas de ação, terror ou piadas seguidas de risadas. Se tratava de uma história de época, com figurinos impecáveis, cenários imponentes e um climão dos filme ingleses dos anos 1990. O sucesso do programa mudou paradigmas (possivelmente não existiria The Crown na Netflix) e mostrou que ainda existia público para um tipo de produção que quase não tem mais espaço no cinema. Criado por Julian Fellowes, a série parecia uma releitura mais espirituosa do filme Gosford Park/2001, que rendeu para Julian o Oscar de melhor roteiro original (e apesar de ser dirigido por Robert Altman, carregava muito do cinema que James Ivory realizava na década anterior). A série seguia a rotina de uma família aristocrata na Inglaterra no início do século XX em meio a guerras, crises e transformações no mundo ao seu redor. O fio condutor da série sempre foi evitar a decadência dos Crawley, mas sem perder de vista os romances e dramas dos personagens, sejam eles os patrões ou os empregados que mantinham aquela mansão de pé com todo o conforto que a família ostentava. A série foi sucesso de público e crítica, recebeu vários prêmios (3 Globos de Ouro, 15 Emmys, 2 BAFTAS...) e realizou ousadias (como matar personagens queridos sem fazer cerimônia - lembro da minha irmã revoltada e até meu pai chorando quando uma personagem faleceu). Ao longo de seis temporadas muita coisa aconteceu, mas não escondeu possibilidades de outras histórias para aqueles personagens. Dirigido por Michael Engler (diretor de episódios da série e de um filme chamado The Chaperone/2018 estrelado por Elisabeth McGovern) o filme é um verdadeiro presente para os fãs do seriado. O longa retoma as histórias dos personagens a partir de um acontecimento: os Crawley receberão a visita da família real britânica! Assim, todos se envolvem com os preparativos e algumas situações que acontecem ao redor da visita. Todo o elenco principal está de volta, Hugh Boneville volta na pele do patriarca Robert Crawley, Elisabeth McGovern interpreta a matriarca Cora, Michelle Dockery e Laura Carmichael retornam como as filhas casadas Lady Mary e Lady Edith (e diante das várias subtramas que existem é Edith que recebe mais destaque). Com mais de uma dúzia de personagens importantes, era de se esperar que alguns ficassem em segundo plano, sem muito espaço nas duas horas de duração. Existem subtramas envolvendo o viúvo irlandês Tom Branson (Aleen Leech), uma questão de herança com a sempre mordaz Violet (Maggie Smith), mas boa parte da trama é sobre a insatisfação dos empregados de Downton ao cederem espaço para os empregados reais que se apoderam dos preparativos das refeições durante a visita. Se todos esperavam ter a honra de preparar banquetes para a realeza, agora eles precisam lidar com a arrogância da equipe do castelo na mansão. Neste ponto o mordomo Carson (Jim Carter) retorna, o que deixa o antes vilanesco Thomas Barrow (Robert James-Collier) enraivecido (mas com tempo para ter sua sexualidade explorada na história após ter ficado um tanto esquecida na série). O resultado deixa de lado o que a série tinha de mais dramático e investe mais no humor na criação de um reencontro com aqueles personagens. A estética da série volta a encher os olhos e embora o filme utilize ângulos e planos que valorizam a extensão da telona com cenários e paisagens, o sabor do filme é de uma colagem de novos episódios da série assinada pelo próprio Julian Fellowess. Vale destacar que todo o elenco continua impecável e parece disposto a revisitar os personagens de vez em quando em novos filmes. 

Downton Abbey - O filme (Downton Abbey - Reino Unido / EUA - 2019) de Michael Engler com Hugh Bonneville, Michelle Dockery, Elixabeth McGovern, Maggie Smith, Jim Carter, Robert James-Collier, Aleen Leech, Lesley Nicol, Imelda Staunton, Phyllis Logan e Matthew Goode. ☻☻☻

PL►Y: Talk Show - Reinventando a Comédia

Mindy e Emma: os opostos de complementam. 

É sempre bom lembrar que a inglesa Emma Thompson tem dois Oscars na estante, o primeiro foi recebido em 1993 por sua atuação no drama Retorno a Howards End (1992), da época em que ela começava a se consolidar no cinema (e se você procurar no Youtube verá como ela ficou surpresa quando foi premiada). Emma ainda colheria duas indicações ao prêmio em 1994 (atriz por Vestígios do Dia e atriz coadjuvante por Em Nome do Pai), mas ganharia outra estatueta somente em 1996 por Razão e Sensibilidade, que embora tenha lhe rendido mais uma indicação ao Oscar de atriz, lhe premiou pelo roteiro adaptado da obra de Jane Austen (de quebra ela levou o taiwanês Ang Lee para Hollywood, uma verdadeira ousadia para um filme pautado num clássico da literatura inglesa). No entanto, pouca gente sabe que diante de tanto reconhecimento por seus dotes dramáticos, Emma começou a carreira como coadjuvante em séries da TV britânica e, de vez em quando, a atriz se arrisca em uma comédia. Embora esteja longe do auge de sua carreira, Emma ainda é uma atriz interessante, versátil e que consegue transitar fácil da comédia para o drama em seus trabalhos. Por Talk Show: Reinventando a Comédia ela foi lembrada na categoria de melhor atriz de comédia no Globo de Ouro e não é difícil entender o motivo. Para gostar do filme, comece esquecendo o horroroso acréscimo no título nacional, não existe reinvenção nenhuma da comédia, e sim um processo de reinvenção de uma premiada apresentadora de televisão que vê sua audiência caindo cada vez mais. Ela é Katherine Newbury (Thompson), entrevistadora de prestígio que com o passar do tempo perdeu a sintonia com o público, se tornou sisuda, prepotente e até zomba de alguns entrevistados. Se de início percebemos que ela é uma megera, principalmente com sua equipe de roteiristas, não podemos deixar de perceber o quanto ela é inteligente, tem uma língua afiada, mas está muito desgostosa com o tipo de celebridades e entretenimento que surgem hoje. Ela se nega a mudar por motivos de princípios, mas com o risco de demissão iminente, ela se dá conta que talvez ela possa conduzir seu programa (e a vida) com mais leveza. Neste ponto, a presença de uma nova roteirista em sua equipe é fundamental. Molly Patel (Mindy Kaling) é não apenas a única mulher do grupo de escritores de seu programa, como também injeta um tanto de diversidade cultural no grupo. Com ascendência indiana, Molly conquista aos poucos seu espaço e a confiança da desconfiada Katherine. No entanto, o relacionamento de Molly com a chefe é sempre, digamos... delicado. Se Thompson acerta na armadura de sua personagem, Mindy faz o de sempre, é leve, despretensiosa e torna impossível não simpatizar e torcer por ela. O resultado é um filme que lança um olhar curioso sobre o entretenimento nos dias atuais e também, não chega a se aprofundar muito no tom de crítica, ao contrário, da metade em diante segue um ritmo bastante previsível com um escândalo na vida pessoal da apresentadora. As duas atrizes carregam o filme numa boa, tendo em volta um elenco coadjuvante majoritariamente masculino bastante eficiente. Talk Show não vai reinventar o gênero, mas diverte, faz pensar (ainda que um pouquinho) e serve para passar o tempo sem maiores complicações. 

Talk Show: Reinventando a Comédia (Late Night / EUA - 2019) de Nisha Ganatra com Emma Thompson, Mindy Kalling, John Lithgow, Hugh Dancy, Reid Scott, Denis O'Hare, Max Casella, Paul Walter Hauser, Megalyn Echikunwoke e Amy Ryan. ☻☻☻