Jacqueline Juliette Laurence nasceu na cidade de Marselha, na França, e veio para o Brasil na adolescência para acompanhar o pai jornalista. Entre 1955 e 1957 integrou a Fundação Brasileira de Teatro, ingressando posteriormente no Tablado. Ela estreou na televisão na Rede Globo com Uma Rosa com Amor (1972), depois participou de clássicos da teledramaturgia como Dancin' Days (1978), Água Viva (1980), Guerra dos Sexos (1983) e Top Model (1989). Embora tenha feito a maior parte de seus trabalhos na Globo, a atriz também participou de produções na extinta Rede Manchete (Dona Beija/1986), TV Cultura (Confissões de Adolescente/1994) e Record (Ribeirão do Tempo/2010). Seu último trabalho na televisão foi na novela Salve-se Quem Puder (2020). A atriz também apareceu em mais de uma dezena de produções cinematográficas, entre elas Menino do Rio (1982) de Antônio Calmon, Veja Esta Canção (1994) de Cacá Dieques e Polaróides Urbanas (2008) de Miguel Fallabella. Jacqueline Laurence também era famosa por seus trabalhos de atuação e direção no teatro, pelo qual recebeu os prêmios Moliére e Mambembe em diversas ocasiões. A atriz faleceu em decorrência de uma parada cardíaca.
segunda-feira, 17 de junho de 2024
4EVER: Jacqueline Laurence
quinta-feira, 13 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: Paris is Burning
Para finalizar o Ciclo DiversidadeSXL desse ano, escolhi um filme que é um verdadeiro marco temporal. Assistir ao documentário Paris is Burning tem o efeito de uma viagem no tempo diferente, uma que te leva para um lugar que existia mas que era desconhecido da maioria das pessoas. O filme de estreia de Jeanne Livingston retrata o universo vibrante dos Ballrooms da Nova York oitentista. Frequentados sobretudo por drag queens, mulheres trans, gays afro-americanos e latinos. Os eventos eram competições acirradas de estilo, desfiles, batalhas de vogue e disputas em categorias diversas como Town and Country ou Butch Queen. O registro ressalta a importância dos Ballrooms para a construção da identidade de uma comunidade cansada de lidar com a exclusão e o preconceito. Naquele universo eles poderiam ser o que quisessem sem as limitações dos anos 1980, beldades trans poderiam ser divas das revistas de moda ou do cinema, jovens latinos poderiam ser executivos de terno indo trabalhar em Wall Street (e os figurinos do clipe Vogue da Madonna fizeram um novo sentido após perceber isso com o filme), a dura realidade de privações eram esquecidas naqueles momentos. É verdade que existiam discussões terríveis durante as competições e o filme mergulha em interpretações sobre essa necessidade de autoafirmação junto com expressões que são usadas até hoje dentro do universo LGBTQIAPN+. O documentário nos apresenta figuras icônicas destes locais e explica o que era ser membro de casas famosas como Labeija, Pendavis e Extravaganza que se tornavam sobrenomes para quem fosse vencedor nas competições (uma ostentação talvez ainda maior do que os troféus recebidos). No entanto, o trabalho de Jeanne Livingston não deixa de abordar o lado menos festivo da realidade de pessoas rejeitadas por suas famílias e a necessidade de estabelecer novos laços entre seus pares. Aparecem sonhos de luxo e estrelato em oposição à uma realidade marcada por discriminação, poucas oportunidades e violência. Embora a cultura dos Ballrooms hoje seja mais conhecida, afinal serviu de inspiração para série Pose, para RuPaul's Drag Race e até Madonna resgatou essa origem na apresentação da música Vogue durante sua Celebration Tour (aquele momento que contou com participação da Anitta em Copacabana), o filme demonstra como a descoberta do que era uma cultura underground de Nova York rendeu curiosidade da mídia. Falando em Vogue, a percepção que tenho das coreografias mudou completamente depois de ver o filme explica-las como se estivéssemos diante de uma verdadeira luta de ninjas. Disponível na MUBI, Paris is Burning ainda pode ser visto como uma verdadeira celebração, mas também como um registro histórico de um grupo de pessoas dispostas a construir uma realidade paralela em que se tornavam verdadeiras estrelas orgulhosas de não ter vergonha do que se é.
Paris is Burning (EUA - Reino Unido / 1990) de Jennie Livingston com Brooke Xtravaganza, André Christian, Dorian Corey, Paris Duprée, Pepper LaBeija, Willi Ninja, Octavia St. Laurent, Sol Pendavis e Freddie Pendavis. ☻☻☻☻☻
quarta-feira, 12 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: Blue Jean
Jean (Rosy McEwen) é uma professora de Educação Física de uma escola inglesa para adolescentes. Sua vida profissional é aparentemente sem problemas, mas a vida pessoal passou por atribulações com um divórcio recente e um relacionamento cada vez mais distante com a família. O único lugar em que Jean pode ser ela mesma é no bar que costuma frequentar com a namorada, Viv (Kerrie Hayes) e algumas amigas. Jean é lésbica e ainda precisa lidar com o desconforto que as pessoas demonstram ao descobrir sua homossexualidade. Vale lembrar que o filme é ambientado no cenário bastante conservador de 1988, em que direitos dos homossexuais estava em pauta na mídia britânica e rendia discussões acaloradas que se refletiam em toda sociedade, incluindo nas escolas. Diante da postura de alguns colegas de trabalho, Jean fica ainda mais preocupada com a ideia de um dia descobrirem que se relaciona com outras mulheres, ao ponto de temer nunca mais conseguir trabalhar na região. A forma discreta com que Jean consegue lidar com sua sexualidade e separá-la da vida profissional irá passar por um teste árduo com a chegada de uma nova aluna, Lois (Luccy Halliday), que passa a integrar o time que ela treina para a escola. Lois é sempre perseguida pelas outras colegas, por vezes gerando atos de violência. No dia em que Lois passa a frequentar o mesmo bar que Jean e suas amigas, a professora entra em crise ao imaginar o que pode acontecer depois, logo em seguida se vê diante um dilema que acarretará consequências para ambas. Blue Jean é o filme de estreia da britânica Georgia Oakley que foi indicada ao BAFTA de revelação britânica pelo trabalho e, de fato, realiza algo notável na forma como seu filme se torna cada vez mais complexo perante a postura da professora e do mundo perante sua sexualidade. O roteiro junto ao bom trabalho da atriz Rosy McEwen tem como maior objetivo tornar difícil julgar a postura da personagem, uma vez que suas atitudes são sempre pautadas pelas implicações que podem ser geradas, mas por outro lado, geram ações bastante questionáveis. Desde que Lois atravessa a divisória da realidade traçada por Jean, o filme só cresce em tensão e passa a pontuar questões que talvez a professora negasse pensar durante muito tempo. Um dos pontos mais importantes é ressaltado por Viv em uma das conversas mais tristes que já vi em um filme, mas que é realizado com bastante sutileza pela diretora. O mesmo pode se dizer sobre as cenas de Jean na casa da irmã, local que parece um mundo tão orquestrado que beira o incômodo, mas que também serve de cenário para o momento mais libertador da personagem. Blue Jean é um filme que faz pensar sobre as implicações do preconceito introjetadas na personalidade dos sujeitos que precisam fingir ser outras pessoas como um verdadeiro mecanismo de defesa e sobrevivência. Ao término do filme eu apenas imaginei como a protagonista estaria vivendo hoje.
Blue Jean (Reino Unido - 2022) de Georgia Oakley, com Rosy McEwen, Kerrie Hayes, Lucy Halliday, Lydia Page, Becky Lindsay, Laynei Shaw e Amy Booth-Steel. ☻☻☻☻
terça-feira, 11 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: O Outro Lado da Cidade Proibida
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| Si Han: perseguição ao desejo proibido. |
segunda-feira, 10 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: Orlando, A Mulher Imortal
domingo, 9 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: A Vida sem Você
sábado, 8 de junho de 2024
CICLO DIVERSIDADESXL: Querelle
Ver filmes apontados como referências de determinado gênero é sempre uma experiência complicada. Afinal, você precisa lidar com as expectativas de tudo que ouviu falar sobre ele através de vários anos, talvez décadas. Disponibilizado recentemente na MUBI, Querelle é um daqueles filmes sempre apontados como um marco referencial de uma estética cinematográfica queer. Obviamente que existe aqui um diferencial de peso, afinal, não se trata de uma obra feita por um diretor novato que ainda buscava encontrar seu público, mas um diretor consagrado. O alemão Rainer Werner Fassbinder se tornou um dos grandes nomes do cinema alemão e acabava de concluir sua trilogia sobre o período mais sombrio da história da Alemanha quando se aventurou pelo universo de Jean Genet (1910-1986). O livro Querelle de Brest foi publicado em 1947 e trazia a marca da homossexualidade das obras do escritor. Fassbinder já era famoso por se envolver com seus atores e atrizes, tendo começado a construir uma estética queer com As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant /1972 (que recentemente recebeu uma versão chamada Peter Von Kant/2022 de François Ozon, outro diretor de marca queer bastante evidente). Dez anos após voltar sua lente pessimista sobre a atração entre duas mulheres, o diretor volta-se agora para homens atraídos por outros homens. Querelle (Brad Davis) é um marinheiro francês que é cercado de homens que o desejam. Ele chega no porto de Brest e reencontra o irmão (Hanno Pöschl), que agora vive em um bordel com sua amante cafetina, Lysiane (Jeane Moreau). Não espere uma trama de romances, o filme utiliza o que tem em mãos para contar uma série de relações de poder, violência e abuso entre os personagens que gravitam em torno do protagonista. Existe uma sensação de desejos e amores sufocados prestes a explodir em sua relação com as ações dos personagens e os diálogos crus e agressivos. Basta ver a cena do reencontro entre os dois irmãos, em que o abraço se intercala com socos abaixo da costela. Não espere sutilezas. As frases estão lá para serem cortantes e, vistas hoje, podem provocar risos, mas na época geraram bastante polêmica pela naturalidade como abordava sua temática sexual. A estética de Querelle é por sua vez bastante onírica, marcada por um tempo indefinido, anacrônico, com o por do sol permanente em oposição aos momentos noturnos. Existe uma atmosfera de sonho e fantasia com muita inspiração nos cenários e movimentações teatrais sobre um palco. Ali se misturam vários elementos que podemos identificar hoje como fetiches, os corpos suados, couro, policiais, marinheiros, homens brutos que mais parecem disfarces para os desejos que devem sempre ser contidos ou vivenciados em tom de indiferença. Esse processo de construção da narrativa me soa bem mais interessante do que a trama em si, que em determinado momento cede espaço para uma investigação policial. Acho que a intenção de Fassbinder era essa mesmo. Querelle se tornou o último filme do diretor - e também foi o mais controverso de sua carreira, muito por conta do conteúdo sexual sem disfarces. Há quem aponte que seria um marco da nova fase da carreira do cineasta, sua carreira pontuada por filmes tão alegóricos quanto secos chegou ao fim por conta de uma overdose em junho de 1982, três meses antes do lançamento de Querelle.
Querelle (Alemanha Ocidental / França - 1982) de Rainer Werner Fassbinder com Brad Davis, Franco Nero, Janne Moureau, Laurent Male, Günther Kauffman, Roger Fritz, Burkhard Driest e Dieter Schidor. ☻☻☻
quarta-feira, 5 de junho de 2024
NªTV: Eric.
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| Eric e Benedict: projetando os demônios interiores. |
PL►Y: Godzilla Minus One
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| Gojira: monstrão de respeito. |
Pode parecer coincidência ou ironia, ou talvez seja proposital que em tempos em que se reclama muito sobre os efeitos especiais dos filmes americanos, o ganhador do Oscar de melhores efeitos especiais seja uma produção japonesa. Na concorrência estava o aguardado Napoleão de Ridley Scott, o último filme da franquia Missão Impossível, o sucesso Guardiões da Galáxia3 e a surpresa Resistência. Quem levou foi Godzilla Minus One, o primeiro filme do monstrão com mais de setenta anos a levar um Oscar para casa e, também, o primeiro de língua não inglesa a levar a estatueta para casa. Foram necessários mais de quarenta filmes para que esta aclamação acontecesse e muito se deve ao diretor Takashi Hiamazaki, um verdadeiro craque dos efeitos. O trabalho da equipe é realmente notável devido ao realismo impresso nas cenas, não apenas em que o monstrengo aparece, mas também na completa devastação promovida por ele. No entanto, o que chama bastante atenção no filme é a forma como leva a a sério a história que tem para contar em torno do seu protagonista. O filme começa ao final da Segunda Guerra Mundial, quando somos apresentados ao piloto kamikaze Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), que estava ao lado de engenheiros da aviação japonesa na Ilha Odo quando o gigantesco monstro aparece para dizimar quem estiver pela frente. Kōichi acaba sobrevivendo ao ataque e voltando para uma Tóquio devastada pela guerra. Lá encontra alguns sobreviventes, com quem acaba formando uma família com integrantes que perderam seus parentes durante a guerra. Quando a vida parece entrar nos eixos por lá, o Godzilla aparece maior e mais forte e disposto a eliminar quem perturbou seu sono nas profundezas do oceano. Assim, Kōichi precisa enfrentar os medos que sempre o fizeram permanecer em guerra consigo mesmo e impossibilitado de seguir em frente. Com este ponto de partida, o filme retoma a origem do monstro, sem perder de vista o terror e o fascínio que provoca com base na história do próprio Japão, que precisou se reerguer das cinzas após ser destroçado pela Guerra. Mais do que a devastação provocada pelo monstro (em cenas impressionantes) o filme se mantém de pé por conta da jornada do seu protagonista para se tornar um verdadeiro herói. Godzilla Minus One é um filme com maior jeito de matinê, não cai na armadilha de se complicar e acerta ao fazer o que os fãs de um dos maiores monstros do cinema querem assistir no cinema. A vantagem aqui é que o monstro aparece dentro de seu contexto de forma avassaladora (bem diferente do que vemos nas produções de Hollywood em torno dele), reflete temores históricos e promove uma catarse de forma contundente. Embora o filme tenha surpreendido nas bilheterias mundiais (só nos Estados Unidos foi o filme estrangeiro mais visto na história), basta assisti-lo para entender o que motivou tanto sucesso. Enquanto Hollywood torra o que este fez de bilheteria em filmes que flopam perante o público, Godzilla Minus One custou dez milhões de dólares e rendeu mais de dez vezes isso só nos EUA. O Oscar de melhores efeitos especiais soa como um sinal para rever conceitos. O filme entrou recentemente no catálogo da Netflix.
Godzilla Minus One (Gojira -1 / Japão - 2023) de Takashi Hiamazaki com Ryunosuke Kamiki, Minami Hamabe, Sakura Andô, Kuranosuke Sasaki e Munetaka Aoki. ☻☻☻




