domingo, 10 de maio de 2020

10+: Filmes para Minha Mãe

Como muitas pessoas, passarei este Dia das Mães longe da minha matriarca. Estamos duzentos quilômetros distantes um do outro. Já que não estaremos juntos neste dia, resolvi fazer esta lista sobre dez filmes que assistimos juntos e que ela gostou bastante. Vale ressaltar que minha mãe é imprevisível quando assiste  a um filme. Geralmente o que você acha que ela gostará, ela detesta e do nada ela gosta de um que você nunca imaginaria que ela fosse chegar perto na vida. Esta lista destaca dez (em ordem alfabética) que ela iria gostar de rever hoje com os três herdeiros sentados ao lado dela e, ao final, vê-la sorrir  dizendo: "Gosto tanto deste filme"! 

Minha mãe sempre diz que não tem paciência (e coluna) para ficar sentada vendo um filme. Pois este aqui tem três horas e talvez seja  o que ela mais gosta. A trama sobre um homem com poderes miraculosos condenado à cadeira elétrica é daqueles que emociona sempre que é revisto - e ajuda muito a atuação do finado Michael Clarke Duncan num daqueles trabalhos que entram para a história do cinema. Para quem não sabe este drama emocionante é baseado num livro de Stephen King. 

Impossível não se apaixonar por Jamie Bell na pele do pequeno bailarino deste filme de Stephen Daldry. Minha mãe até hoje quando vê o ator crescido, o identifica como Billy Elliot. A história do menino filho de carvoeiro que luta, ou melhor, dança contra os preconceitos com a ajuda de sua severa professora (a atuação da vida de Julie Walters) é realmente um filme para guardar no coração. 

O casal Denise Fraga e Luiz Villaça sempre fazem filmes simpáticos, mesmo que de vez em quando errem na dose de açúcar. Este aqui talvez seja o melhor deles, além de ter uma história bacana (um casal que mesmo divorciado permanece com proximidade e o laço afetivo), visualmente ele é bastante moderno em sua ambientação urbana com seus ângulos, cortes e cenários. Gostoso de assistir, foi o último que vi com a minha mãe - e ela fala sobre ele até hoje. 

#04 Escola de Rock de Richard Linklater (2003)
Este vai para a lista daqueles que nunca imaginei que minha mãe gostaria. Para começar ela não gosta de comédias e detesta atores careteiros (o que, teoricamente, compromete o gosto por Jack Black), mas quando ela sentou para ver este filme comigo, uma verdadeira mágica aconteceu e ela adorou  -não só o filme como a atuação de Jack Black como o professor impostor que monta uma banda de crianças. Ela recomendou para várias amigas que nunca passaram perto do filme...

#05 "Gaiola das Loucas" de Mike Nichols (1996)
Apesar deste filme ser uma refilmagem, minha mãe nunca assistiu ao original. Ainda lembro quando ela assistiu este e riu sem parar. O filme sobre um casal gay (vivido aqui por Robin Williams e Nathan Lane, ambos perfeitos!) que precisa fingir ser um casal hétero no jantar de noivado do filho prestes a casar com a filha de um político conservador. Diverte e faz pensar sobre os preconceitos que se tornaram ainda mais evidentes nos dias atuais. Mamãe adora!

Este aqui talvez seja a maior surpresa da lista. Filme melancólico e até sombrio sobre um jovem professor viciado em crack (que rendeu a primeira indicação ao Oscar para Ryan Gosling numa época em que ele não tentava ser inexpressivo). É o tipo de filme indie que eu assisto naturalmente, mas está bem longe de ser o tipo de filme que minha mãe gosta. Seu realismo desconcertante a agradou de forma surpreendente. 

Outro filme enorme da lista! É o único filme de David Fincher que minha mãe aprecia. Baseado num conto de F. Scott Fitzgerald, o filme foi indicado a treze Oscars e levou três para casa (direção de arte, maquiagem e efeitos especiais) e poderia ter levado mais. É o filme que sempre a faz lembrar de Brad Pitt e chorar quando lembra da trajetória do personagem que nasce envelhecido e rejuvenesce até a morte. Um filme fantástico que é sempre bom rever. 

#08 "Olga" de Jaime Monjardim (2004)
Este foi o primeiro filme que assistimos quando minha mãe comprou o nosso DVD. Eu já tinha visto no cinema (com a minha tia) e minha mãe tinha a maior curiosidade. A história de Olga Benário Prestes rende um filme ancorado na forte interpretação de Camila Morgado que está ótima em cena. Fora isso, a produção capricha na ambientação da história - ainda ouço minha mãe dizendo "eles fizeram nevar em Bangu". Incrível...


Se perguntarem para minha mãe qual foi o melhor filme de 2012 ela dirá que foi este drama baseado em uma inacreditável história real. Judy Dench está magnífica como a mulher separada do filho quando nova e que, sem rancores, segue a vida ao ponto de transformar sua dor em uma causa para a vida. Dirigido na medida certa pelo renomado Stephen Frears, o filme tem um roteiro muito bem construído pelo humorista Steve Coogan (que atua contido ao lado de Dench). Filmão. 

Outra surpresa da lista, eu nem gostei tanto desta fantasia um tanto desconexa do Ozon, mas minha mãe adorou a história da família que precisa lidar com um bebê que nasce com asas. O filme tem lá suas simbologias com a ideia de um bebê ser angelical (e ao mesmo tempo ter contratempos por isso) e minha mãe curtiu todas. A interpretação "espiritual" que ela fez do filme fez toda a diferença. Eu te amo, mãe!

sábado, 9 de maio de 2020

PL►Y: Depois da Tempestade

Hiroshi Abe e Tayio: histórias do cotidiano. 

Depois da Tempestade é um daqueles filmes que faz sucesso junto a um público restrito. É lançado em poucos cinemas e acaba sendo conhecido mais por indicação de um amigo do que por campanhas de marketing. Dirigido por Hirozaku Koreeda (do premiadíssimo Assunto de Família/2018 que em breve comentarei por aqui) o filme é um daqueles exercícios em que o cinema tenta criar um recorte realista da vida de seus personagens comuns. Este recorte tem como marco a chegada de mais um tufão no Japão enquanto somos apresentados à uma família simples. Uma mãe (Kirin Kiki), mora sozinha com o filho, Shinoda (Hiroshi Abe) após a morte do marido. Ela também tem uma filha que aparece de vez em quando (e ajuda a construir o tom leve do filme nos minutos iniciais) e juntas sempre comentam que o rapaz não passa por uma boa fase na vida. Ele tentou ser escritor, mas seu primeiro livro não fez o sucesso esperado e agora ganha a vida como detetive particular. Ele também tenta ter mais contato com o filho, além de reconquistar a ex-esposa (especialmente quando observa que ela está iniciando um novo relacionamento). Aos poucos o filme desenvolve esta história simples, com diálogos espirituosos que nunca o deixam ficar pesado ou cair no melodrama. Existe uma leveza e um carinho na forma como o diretor conta a história destes personagens e revela aos poucos o passado que carregam. O relacionamento da matriarca com o falecido, os motivos do casamento de Shinoda ter terminado, os ressentimentos entre os personagens.... o filme de desenvolve tornando aqueles personagens pessoas palpáveis de carne e osso, com seus dramas pessoais e insatisfações com uma bem dosada poesia presente em diálogos e imagens. Basta olhar a quantidade de objetos presentes naquela casa para notar as várias histórias que ela tem para contar! O filme erra somente quando exibe demais o protagonista em seu local de trabalho, que não acrescenta muita coisa ao filme, mas tudo é compensado quando o tufão chega e os personagens tem a chance de ter aquelas conversas sérias que pareciam ser constantemente adiadas. Sem grandes saltos narrativos ou trama mirabolante, Depois da Tempestade poderia ser uma obra sobre nossos vizinhos, nossos parentes ou aquele amigo que perdemos contato com o tempo. Este tom universal de sua história é o que faz a diferença e o torna comovente em sua simplicidade (ao ponto de se dar ao luxo de usar somente assobios como trilha sonora na maior parte do tempo). 

Depois da Tempestade (Umi yori mo mada fukaku / Japão - 2016) de Hirozaku Koreeda  com Hiroshi Abe, Kirin Kiki, Taiyô Yoshizawa, Yoko Maki, Satomi Kobayahi e Lyly Franky. ☻☻☻☻

PL►Y: Casal Improvável

Charlize e Seth: química surpreendente. 

Charlize Theron é uma estrela que dispensa comentários. Com um Oscar de melhor atriz na estante e outras duas indicações no currículo (a mais recente por este ano em O Escândalo/2019), ela soube como administrar a carreira e se tornar uma das atrizes mais influentes de Hollywood. Seu talento é inquestionável e ela é capaz de fazer de tudo, dramas, comédias, suspenses, filmes de ação e até filmes ruins dos quais sai ilesa (ou alguém é capaz de reclamar dela em Branca de Neve e o Caçador/2012). Charlize também tem um senso de humor peculiar, que a faz realizar comédias mais sofisticadas (Jovens Adultos/2011 e Tully/2018) e outras em que cai no mais puro besteirol, foi assim com o fracasso Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola (2014) e com este simpático Casal Improvável. Para justificar o título convidaram Seth Rogen para interpretar seu par no filme. Rogen até que tenta fazer filmes de diferentes gêneros, mas é neste tipo de filme em que fica mais confortável interpretando... Seth Rogen. No filme Charlize é Charlotte Fields, Chefe de Defesa dos Estados Unidos que está prestes a dar conta do seu tratado mais ambicioso e, embalada por isso, lançar sua candidatura à presidência. Considerada linda, bonita e inteligente, ela pode aumentar ainda mais sua popularidade se demonstrar mais humor em seus discursos, arranjar um relacionamento com um galã - feito o primeiro ministro do Canadá (Alexander Skarsgaard de peruca e com outro sorriso, quase irreconhecível) - e aprender a acenar sem balançar o cotovelo (?). É neste período crucial de sua vida que ela reencontra Fred Flarsky (Rogen), jornalista dado a ousadias, com pavio curto e recém desempregado. Os dois tem uma história no passado, já que muito antes de entrar no mundo da política, Charlotte foi babá de Fred. A diferença de idade deles é mínima (três anos, mas na vida real, Charlize tem sete anos a mais que Rogen... mas quem liga?) e as diferenças que aparecem num primeiro instante logo se dissipam quando ela o contrata para ajudar a dar uma repaginada em seus discursos. Este é o ponto de partida para que o casal apresente uma química que ninguém imaginava e viva momentos de emoções variadas enquanto tentam viver um romance que não chame muito a atenção. O roteiro tem um humor que evita cair muito na baixaria, mas tem lá seu equilíbrio e funciona quando investe mais no absurdo (especialmente na cena do bombardeio). Embora de vez em quando tropece em situações manjadas da comédia romântica, Casal Improvável é divertido, principalmente por apresentar uma protagonista moderna e forte, bem distante da ingênua presa na adolescência que espera pelo príncipe encantado. Na verdade o filme até subverte esta regra ao colocar a mulher num papel social de maior destaque que o seu parceiro, mas o faz com tanta naturalidade que só o deixa ainda mais interessante. 

Casal Improvável (Longshot / EUA -2019) de Jonathan Levine com Charlize Theron, Seth Rogen, June Diane Raphael, Andy Serkis e Bob Odenkirk. ☻☻☻

PL►Y: TRILOGIA JOHN WICK

John Wick e seu novo cão: violência de outro mundo. 

Recentemente a cineasta Marry Harron (do cult Psicopata Americano/2000) mencionou que existe muito mais violência na trilogia John Wick do que em Coringa (2019) e mesmo assim, o filme estrelado por Joaquin Phoenix despertou muito mais polêmicas, críticas e policiamentos... o que Marry disse não é novidade alguma, mas causa estranhamento por tocar na forma como percebemos a violência hoje, inclusive como entretenimento. Esta discussão é longa, demorada, densa demais para se esgotar aqui, mas vamos criar um recorte: as mortes que emergem desta comparação. Se você procurar na internet verá que contaram quantas pessoas o personagem vivido por Keanu Reeves matou em seus três filmes. Foram 84 mortos em sua estreia, De Volta ao Jogo (2014). Animado com o sucesso, o roteirista se empolgou e foram mais 128 na sequência, John Wick 2 (2017). Na terceira parte a conta foi mais modesta, 94 assassinados. No total foram 306 corpos (a maioria sem nome ou história e isso ajuda o público a não notar a alta incidência de mortes na trilogia). Se levarmos em consideração que Wick é um assassino profissional de longa carreira e que o filme é só uma parte de sua história, a coisa pode ficar ainda mais assustadora. Em termos de comparação, os assassinos da franquia Sexta-Feira 13 e Halloween somam 297 vítimas, só que em 23 filmes que atravessaram décadas para serem lançados. Já Coringa não chega nem perto disso.  Talvez a maior diferença entre Wick e Coringa é que o primeiro apresenta a violência de forma estilizada, criativa, com movimentos de câmera espertos numa sucessão de acontecimentos tão rápidos que a preocupação do espectador é que Wick sobreviva, afinal ele é um cara que havia cansado desta vida de assassino, mas mataram o cachorro dele e foi tragado para esta rotina novamente quase sem querer. Já em Coringa a violência é mais psicológica, mais silenciosa e incômoda embora menos explícita e por isso mesmo, por seu tom contemplativo, preocupa por deixar o espectador elaborar sobre o que está acontecendo e, acrescente a isso, a surpresa de um filme sobre histórias em quadrinhos que é mais sério e denso do que a maioria que chega aos cinemas. Deixando toda esta discussão de lado, quando John Wick estreou ninguém dava nada por ele, tanto que não foi lançado nos cinemas daqui. Keanu Reeves estava num daqueles períodos em que não acertava um sucesso e  ninguém deu bola para seu fiapo de história sobre vinganças que se empilhavam. Mas De Volta ao Jogo fez tanto sucesso ao chegar on demand que logo perceberam que estavam diante de uma mina de ouro. A graça era justamente a criação de um mundo paralelo de assassinos profissionais, que respeitam regras próprias e que Wick tentava se livrar disso. Todo mundo sabe que Reeves tem aquela característica estranha, que consegue ser desleixado fora da dela e a elegância em pessoa em filmes de ação, o que foi crucial para a empatia que sentimos pelo personagem. Some isso ao pobre cãozinho morto por assassinos desalmados e torna-se mais fácil perceber para quem se torce nesta trilogia. No segundo filme ele ainda tenta se livrar deste mundo de assassinos e acaba desobedecendo o código de honra de seus pares, o que lhe rende mais cenas de ação espetaculares e mais perseguições desenfreadas. O terceiro filme, John Wick: Parabellum reflete mais ainda a popularidade do personagem agregando novos personagens à sua trajetória, contando até com duas atrizes oscarizadas (Anjelica Huston em pose de diva e Halle Berry, sempre linda e confortável em filmes do tipo) para dar um reforço na jornada contra vilões de cara feia. A história pouco importa nos três filmes, mas os produtores sempre entregam o que o público deseja: tiros, ação, lutas coreografadas e situações absurdas. Todo mundo sabe que aquelas situações não funcionariam no mundo real e, mesmo assim, a plateia vibra com aquelas peripécias contra as leis da realidade. É um elogio ao absurdo dos filmes de ação e por isso mesmo, agrada  quem curte o gênero. Neste ponto, difere de Coringa, que adiciona elementos do mundo complexo que vemos hoje sob o olhar de uma pessoa com problemas psiquiátricos que se alimenta justamente disso. Wick é o oposto, ele não vive nesta realidade, vive em outro planeta.

De Volta ao Jogo (John Wick/EUA-2014) de Chad Stahelski com Keanu Reeves, Willem Dafoe, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Adrianne Palicki, John Leguizamo, Ian McShane e Lance Reddick. ☻☻☻☻

John Wick 2 (John Wick Chapter 2 / EUA-2017) de Chad Stahelski com Keanu Reeves, Riccardo Scarmarcio, Ian McShane, Ruby Rose, Common, Laurence Fishburne e John Leguizamo . ☻☻☻. 

John Wick 3 Parabellum (EUA-2019) de Chad Stahelski com Keanu Reeves, Laurence Fishburne,  Halle Berry, Mark Dacascos, Lance Reddick e Anjelica Huston. ☻☻☻☻

segunda-feira, 4 de maio de 2020

PL►Y: Bem Vindo a Nova York

Depardieu e seus parceiros: reputação em risco.

Bem Vindo a Nova York é um filme que tentei assistir quando foi exibido na televisão um ano após seu lançamento. Em menos de dez minutos eu desisti. Dia desses eu reencontrei o filme, o assisti inteiro e consegui entender plenamente o desconforto que me provocou na primeira vez. Esse desconforto, a propósito, rendeu vários problemas para o diretor Abel Ferrara que defendia o corte final do filme com 125 minutos, enquanto os produtores desejavam o de 109 minutos (sem todas as cenas sexuais). A maioria dos minutos que seriam cortados está no início do filme, quando somos apresentados ao universo repleto de luxo e luxúria do milionário francês Mr. Devereaux (Gerárd Depardieu), poderoso presidente de uma instituição bancária internacional. Cercado de dinheiro, mulheres e bebidas, Devereaux não reconhece limites para o que deseja, prova disso é a assustadora cena em que abusa sexualmente de uma camareira que entra no quarto de hotel em que ele participou de uma orgia na noite anterior. Ele estava em uma viagem de negócios em Nova York e antes que pudesse voltar para seu país, foi surpreendido pela ação da polícia. Começa então as tentativas de sua esposa, Simone (Jaqueline Bisset) minimizar o escândalo e tentar limpar o nome do marido gastando alguns milhões de dólares para isso. É proposital que no primeiro momento o diretor queira incomodar o espectador com a postura do protagonista, afinal, o filme avança e incomoda mais ainda com as tentativas dele se safar das acusações recebidas, principalmente por ele negar sempre o que de fato aconteceu e praticar situações de abuso novamente. Ao viver um personagem tão asqueroso, Gerard Depardieu não tem pudores. Vestido ou despido, o ator tem seu melhor trabalho em anos na pele de um personagem que é fácil de odiar. Virando seu carisma bonachão do avesso, Depardieu carrega o filme nas costas com uma desenvoltura invejável perante um conteúdo tão polêmico. A polêmica rendeu até um processo para Abel Ferrara, que nunca negou inspiração em um famoso caso internacional que nem vou citar aqui... Bem Vindo a Nova York  é um filme que exige estômago para assistir e incomoda por ser uma tão realista. 

Bem Vindo A Nova York (Welcome to New York / EUA - França /2015) de Abel Ferrara com Gerárd Depardieu, Jaqueline Bisset, Paul Hipp, Paul Calderon e Elizabeth Kemp. ☻☻☻

PL►Y: A Batalha das Correntes

Shannon e Cumberbatch: disputa entre Westinghouse e Thomas Edison. 

Presente no catálogo Prime Video, A Batalha das Correntes é um do exemplo de filme interessante que enfrentou problemas em sua distribuição. Exibido pela primeira vez no Festival de Toronto em 2017, o filme ficou recluso ao circuito dos festivais até que foi lançado na Argentina em 2018. E só. Em alguns países ele foi exibido em 2019 (no Brasil ele foi lançado em dezembro do ano passado) e chegou aos Estados Unidos somente através da Internet em março deste ano. O filme também teve problemas quando os processos sobre o produtor Harvey Weinstein começaram a aparecer nos jornais. Passado tudo isso, a disputa entre George Westinghouse (Michael Shannon) e Thomas Edison (Benedict Cumberbatch) sobre como deveria ser realizada a distribuição de energia elétrica não chamou muita atenção por onde foi exibido. Enquanto Westinghouse postulava o uso da energia alternada, Edison defendia o uso da corrente contínua. Dotados de personalidades fortes, a pendenga rendeu até campanhas de desmoralização de um pelo outro - principalmente com Edison pregando que o tipo de distribuição realizada pelo seu concorrente era perigosa e poderia até matar pessoas. Ironicamente, no meio desta discussão, os dois acabam se envolvendo com a criação da cadeira elétrica (algo que nenhum dos dois gostaria de ter envolvimento). O cineasta texano Alfonso Gomez-Rejon ganhou algum reconhecimento com Eu, Você e a Garota que Vai Morrer/2015, mas aqui opta por um caminho completamente diferente, com menos humor e emoção, ele se dedica a um filme de época com personagens reais e texto cheio de explicações científicas. Trata-se de um projeto ambicioso, mas que padece por simplificar demais a história que tem para contar. Por conta da disputa entre os dois protagonistas, suas vidas pessoais ficam de lado mesmo quando poderiam receber destaque na história (sobretudo acerca da esposa de Thomas Edison que me pareceu corrido e subaproveitado). A edição no início também exagera nos cortes rápidos e causa estranhamento até que encontre seu ritmo, que aparece justamente quando os personagens deixam de ser tratados como gênios se tornam humanos em suas mesquinharias. É uma delícia ver Michael Shannon na pele de um sujeito normal que não está a beira do surto e Cumberbatch segue seu padrão para viver personagens geniais (seja na série Sherlock ou no filme O Jogo da Imitação/2014) que se aparecer descascando uma laranja, você já acredita que o cara tem uma inteligência acima da média. Mas não é apenas destes dois que o filme sobrevive, o roteiro conta ainda com Nicholas Hoult (cada vez melhor) na pele de Nikolas Tesla (que pende entre um personagem e outro ao longo da história e merecia mais destaque nesta história) e Tom Holland como fiel assistente de Edison. Embora soturno demais para a história que tem em mãos, A Batalha das Correntes merece atenção, ainda que seja para conhecer a origem de algo tão presente em nossas vidas e que não fazemos ideia dos fatos que estavam por trás dela. 

A Batalha das Correntes (The Current War / EUA-2017) de Alfonso Gomez-Rejon com Benedict Cumberbatch, Michael Shannon, Nicholas Hoult, Tom Holland, Catherine Waterston, Oliver Powell e Matthew Macfadyen. ☻☻☻

domingo, 3 de maio de 2020

PL►Y: Perdi Meu Corpo

Mão: buscando o corpo. 

Aclamado no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Animação, Perdi Meu Corpo foi logo rotulado de a animação mais esquisita do ano passado. Disponível na Netflix desde o final do ano passado, confesso que quando comecei a assistir o filme sobre uma mão sem corpo, imaginei logo que o autor havia encontrado inspiração na famosa mãozinha que acompanha a Família Adams. Não é nada disso (ou pelo menos, ele se distancia bastante desta ideia). Embora a mão apresente alguns movimentos parecidos, a história apresentada aqui é bem particular original. Baseado no livro de Guillaume Laurent (eterno parceiro de Jean Pierre-Jeunet), que assina o roteiro ao lado do diretor Jéremy Clapin, o filme conta a história da jornada da mão em busca do corpo, proporcionando várias leituras sobre o desejo de estar completo. Não é por acaso que o dono, ou corpo, da mão é um jovem órfão, Noufel, que vive em empregos não  muito valorizados e lembrando do acidente que custou a vida de seus pais. Assim como a mão, Noufel sempre busca algo que o complete, seja um emprego, seja uma garota que possa se interessar por ele ou o ajuste com o passado. Esta jornada de ambos é mostrada de forma complexa, misturando passado, presente e memórias, mas embora tenha toques de humor e até aventura, a costura do filme é bastante melancólica na abordagem da trajetória de seus protagonistas e mesmo que apresente momentos um tanto dispersos, o filme consegue construir uma narrativa bastante interessante com seu traço realista e momentos bastante surreais. O filme busca sempre uma proximidade dos personagens, quase nunca utilizando cenas que lhe mostram de corpo inteiro. Também existe sempre aqueles momentos em que as mãos de Noufel recebem destaque em sua exploração do mundo, especialmente na infância e nos trabalhos que realiza e, ainda que seja bastante onírico, com uso de poucos diálogos e longos silêncios, o filme não foge de apresentar a cena brutal em que mão e corpo se separam. Filme de estreia do francês Jéremy Clapin o filme deixa evidente qual o estilo de animação que o rapaz curte. Antes deste trabalho, Clapin realizou três curtas dignos de nota (Une Histoire Vertébrale/2004, Skhizein/2008 e Palmipedárium/2012) e já deixou claro que seus filmes são capazes de demonstrar sentimentos complicados com grande sensibilidade. 

Noufel: em busca da completude.

Perdi Meu Corpo (J'ai perdu mon corps / França - 2019) de Jérémy Clapin com vozes de Hakim Faris, Victorie Du Bois e Patrick D'Assumção. ☻☻☻☻

PL►Y: Um Lindo Dia na Vizinhança

Hanks e Rhys: encontro terapêutico com um ícone americano. 

Em tempos de Covid19, o casal Tom Hanks e Rita Wilson foi uma das primeiras provas de que ninguém está imune. Recentemente tivemos a boa notícia de que depois de várias semanas de tratamento os dois estão bem e colaborando com pesquisas para encontrar uma forma de combater a doença. Antes disso, Hanks havia começado o ano bem, rompendo o jejum de dezenove anos sem indicação ao Oscar. Depois de longo período sendo esnobado, o ator foi indicado ao prêmio de ator coadjuvante por seu trabalho neste bom filme da diretora Marielle Heller sobre o icônico apresentador de TV Fred Rogers (1928-2003). Mais conhecido como Mr. Rogers, ele era formado em Pedagogia e foi Ministro Presbiteriano, além de compositor de músicas educativas. Seu programa de televisão (Mr. Rogers Neighborhood) foi produzido de 1968 a 2001, o que ajudou a construir uma verdadeira lenda do entretenimento americano. Rogers ficou famoso por nadar todas as manhãs, não beber ou fumar, era vegetariano, casado e pai de dois filhos. Se apresentava como um sujeito cativante e, portanto, torna-se mais do que compreensivo a construção de um filme envolvendo sua personalidade. O filme retrata um episódio muito particular em sua vida, a ocasião em que o jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) é indicado para realizar uma matéria sobre ele. Vogel é o total oposto de Rogers, pessimista, cético e amargo devido ao relacionamento problemático com o pai (vivido por Chris Cooper) e seu temperamento começa a afetar seu casamento. A verdade é que a forma de encarar a vida faz com que ele tenha bastante resistência em aceitar que possa existir uma pessoa com a serenidade de Rogers. Embora no início exista um desconforto inevitável, são os diálogos com Rogers que fazem o jornalista começar a repensar sua postura diante das dores e rancores perante o mundo. Baseado num artigo publicado sobre este encontro de opostos, Heller reforça a aura que Mr. Rogers possui com uma atuação serena e um tanto melancólica de Hanks, que atinge uma naturalidade impressionante como uma pessoa pública. O filme foi um tanto criticado por não apresentar nenhuma novidade sobre a personalidade do apresentador, embora, o roteiro faça isso de forma muito sutil no diálogo de Vogel com a senhora Rogers (Maryan Plunkett) e na última cena em que o Rogers toca piano. O trabalho de Matthew Rhys (ator britânico celebrado pelo seu excelente trabalho na série The Americans) é mais complicado: provocar empatia com um personagem um tanto antipático (mas ele executa a tarefa de maneira convincente). De certa forma, seu papel reflete um pouco o olhar da própria diretora sobre o famoso apresentador. Cineasta indie acostumada a lidar com personagens controversos (como em Diário de Uma Adolescente/2015 e Poderia me Perdoar?/2018), Rogers é o oposto do que ela costuma trabalhar em suas obras - e por isso mesmo deve ter lhe despertado tanto interesse. No entanto, diante dos seus trabalhos anteriores, parece que aqui ela patina em gelo fino. Embora tenha forte carga emocional, o filme é bastante discreto mas (aspecto que achei muito interessante), por vezes, flerta com a fantasia no meio da narrativa - o que reserva momentos de grata surpresa para o espectador. 

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood / EUA - 2019) de Marielle Heller com Matthew Rhys, Tom Hanks, Chris Cooper, Susan Kaleshi Watson e Maryan Plunkett. ☻☻☻