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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

PL►Y: O Que Fazemos nas Sombras

Os vampiros e os humanos: humor afiado feito caninos. 

Eu admito que sou muito enjoado quando preciso avaliar uma comédia e poucas conseguem passar pelo meu crivo, talvez porque eu ainda não me acostumei a ver o gênero como sinônimo de banalidade, baixaria e repetição como a grande maioria dos lançamentos nos faz acreditar. Sorte que sempre aparece um filme para mostrar que existe gente esperta com boas ideias para fazer rir. O Que Fazemos nas Sombras finge ser um documentário  sobre vampiros que vivem na Nova Zelândia no século XXI e o resultado é divertidíssimo! Dirigido, escrito e estrelado pela dupla Jemaine Clement e Taika Waititi o filme arranca várias risadas com seu estilo besteirol nonsense ao nos apresentar Viago (Waititi), Deacon (Johnatan Brough) e Vladislav (Clement), três vampiros alemães que vivem na NZ nos arredores da capital Wellington (ah vai, você não sabia que meu nome era a capital da Nova Zelândia?) e aguardam ansiosamente por um baile de máscaras onde as zumbis, bruxas, banshees, vampiros e outras criaturas se encontram periodicamente. O filme costura entrevistas com os personagens e cenas inusitadas de seu cotidiano. Não por acaso coube a Viago servir de guia para os documentaristas, já que aos 379 anos ele continua sendo o mesmo dândi educado do século XVIII. É seu olhar tenso e o sorriso nervoso que nos apresenta Vladislav, que aos 862 lembra com gosto dos tempos em que era torturador na Idade Média (e ainda é apreciador de orgias, hipnotise, gosta de transformar-se em animais e tem como maior inimigo o que ele chama de A Besta). O mais jovem do grupo é Deacon, o bad boy do grupo com 183 anos. O trio ainda tem como hóspede o veterano Petyr (Ben Fransham evocando do clássico Nosferatu, que em breve terá sua nova refilmagem nos cinemas). Petyr tem 8 mil anos e foi o responsável por vampirizar os três amigos. O filme já começa mostrando o absurdo da ideia, com o trio discutindo quem deve lavar a louça e trazer a comida para a casa - é nessa tarefa que o desconfiado Nick (Cori Gonzalez-Macuer) e o quieto Stu (Stuart Rutherford) conhecem os vampiros, o que gera mudanças na vida de todos (inclusive crises de ciúme). Some encontros com lobisomens, batalhas de morcego, visitas de policiais, uma serva louca para ser mordida (Jackie Van Beek) e uma "surpreendente" Procissão da Vergonha e você terá apenas uma ideia do que acontece no filme. Hilariante em seu absurdoo filme ainda conta com efeitos visuais que recriam os clássicos do gênero e elenco afiado - que é um dos melhores do ano. Ao rir de si mesmo, O Que Fazemos nas Sombras torna-se uma comédia ainda mais original e merecia ter conseguido um espaço nos cinemas.  

O Que Fazemos nas Sombras (What We do in the Shadows / Nova Zelândia - 2014) de Jemaine Clement e Taika Waititi com Taika Waititi, Johnatan Brough, Jemaine Clement, Cori Gonzalez-Macuer, Stuart Rotherford, Ben Fransham, Jackie Van Beek e Chelsie Preston Crayford. ☻☻☻☻

domingo, 12 de novembro de 2017

§8^) Fac Simile: Taika Waititi

Taika David Waititi
Taika Waititi é o diretor neozelandês mais falado dos últimos tempos. Com pai maori e mãe russa, o ator, diretor, produtor e roteirista foi indicado ao Oscar melhor curta-metragem em 2004 com One Car, One Night e ganhou o mundo com a comédia O Que Fazemos nas Sombras (2014). Depois de ver seus filmes entre os mais falados em sua terra natal e conquistar uma vaga entre os votantes do Oscar no ano passado, Taika ganhou um ponto de mutação em sua carreira ao aceitar dirigir Thor: Ragnarok (2017), que já se tornou a maior bilheteria de uma aventura solo do Deus do Trovão. Entre as entrevistas de divulgação do filme, nosso repórter imaginário conseguiu esta entrevista (que nunca aconteceu) com o cineasta. 

§8^) De onde a Marvel tirou a ideia de você dirigir um filme de super herói?

Taika Eu não faço a mínima ideia! Este povo é completamente maluco! Que tipo de pessoa colocaria um sujeito feito eu para dirigir um apocalipse tendo deuses como protagonistas? Vai entender o que se passa na cabeça dessa gente!

§8^) Não acha que eles ficaram animados com o resultado de "O Que Fazemos nas Sombras"?

Taika Pode ser... mas O que fazemos nas sombras era um documentário sobre vampiros europeus que se escondiam na Nova Zelândia! Quando eles me ligaram eu pensei que eles queriam refilmar Blade – O Caçador de Vampiros com Eddie Murphy no papel principal... #sqn! De repente eles disseram que era sobre Thor Ragnarok, que era o fim de Asgard, com a deusa da morte, muitas mortes e tragédias... eu apenas disse: ‘tem certeza que vocês ligaram para o cara certo? Eu faço comédias de baixo orçamento’ e eles disseram ‘por isso mesmo’. Eu continuei sem entender coisa alguma. 

§8^) Mas você fez um belo trabalho! Muitos consideram o melhor filme de Thor nos cinemas! É colorido, animado e tem aquele clima irresistível de Matinê! Ao ver o filme tive a impressão de que você estava brincando com suas action figures favoritas...

Taika Muito obrigado. Talvez a ideia fosse esta mesmo! Uma criança que tinha seus poucos bonequinhos e ganhou milhões para gastar numa grande brincadeira, sorte que ela é criativa o suficiente para sustentar o interesse de várias pessoas ao redor do mundo. Gostei deste papo de action figures... usarei esta analogia nas próximas entrevistas!

§8^) E qual seria sua action figure favorita do filme?

Taika A Hela! Dá para imaginar você ter a Cate Blanchett, com aqueles galhos pontudos na cabeça, disposta a destruir um mundo inteiro? Uau! É realmente de arrepiar! Mas eu gosto muito do cara de pedra, o Korg - tanto que eu mesmo o interpreto no filme! Ah, gosto muito do Loki também. O Thor eu passei a gostar mais depois que ele cortou o cabelo, se bem que foi aquela cabeleira que me inspirou a usar muito Led Zeppelin na trilha. Eu olhei aquilo e pensei: “Robert Plant! Imigrant Song! Vai ser irado!”, as pessoas pensam que era por conta da música que fala de deuses e tal... mas eu escolhi pelo título mesmo! Eu sou neozelandês, Cat e Chrissy australianos, Tony e Dri são ingleses... pura geografia!

§8^) E os boatos de que você gostaria de dirigir um filme da Viúva Negra?

Taika Sim! Eu adoraria! Tenho ideias muito legais para o filme, mas terei que convencer muita gente de que poderia fazer funcionar. O que é muito engraçado já que eles me convenceram de que eu seria capaz de fazer Ragnarok e eu agora quero convencê-los a fazer um filme de espiões! Seria algo como os filmes de James Bond de antigamente, que eram bem mais divertidos que os atuais... e com a vantagem da protagonista ser a Bondgirl! Não tem como dar errado!

Taika e seu fã clube

sábado, 31 de dezembro de 2016

MELHORES DO CINEMA - 2016

É inevitável fazer uma lista com o que você mais gostou  ao final de um ano cinematográfico - assim como é bastante difícil filtrar tudo o que foi assistido e chegar a um veredicto. Por isso prefiro ver todos os filmes citados abaixo como os meus favoritos do ano que termina, os citados são imperdíveis - e os escolhidos de cada categoria são os trabalhos que considero obrigatórios. A seguir os filmes e atores que fizeram meu 2016 muito mais interessante:

MELHOR ELENCO
Eu adorei Trumbo, especialmente pelo seu elenco estelar contando uma história estranha sobre Hollywood e política. Os outros cinco indicados também merecem destaque, seja por fazer rir com a colagem de  Ave, César! ou o pouco visto O Que Fazemos nas Sombras, na rígida tensão de A Bruxa, nos diálogos cortantes de Steve Jobs ou na plena sintonia de Mais Forte que Bombas

REVELAÇÃO DO ANO
Olhando as escolhas dos anos anteriores senti falta de uma categoria que contemplasse os novos talentos que chamaram atenção! Por isso criei esta nova categoria em que a estreante Anya Taylor-Joy (A Bruxa) merece o reconhecimento por criar uma personagem complexa demais para sua pouca experiência diante das câmeras. Mas é bom ficar de olho ainda em Christopher Abbot (talento saído da série Girls que tem um papel complicado em James White), o ator, roteirista, produtor e diretor (que assina o novo Thor) Taika Waititi (como o vampiro dândi de O Que Fazemos nas Sombras). A jovem Bel Powley que demonstra fôlego de veterana em Diário de uma Adolescente, o divertido Tom Bennett (que além de brilhar em Amor & Amizade é a coisa mais fofa de Mascotes) e o prodígio Jacob Tremblay, um dos atores mirins mais descolados que já pisaram no Oscar por O Quarto de Jack

ROTEIRO
O que seria de um filme sem roteiro? Nada.  Esse ano foi difícil escolher o meu favorito na categoria, entre a violência virada do avesso em Elle, o diálogo com alienígenas em A Chegada, o Holocausto como pano de fundo de O Filho de Saul, os laços de afeto em busca de fortalecimento em Mais Forte que Bombas ou os rumos da vida (ou da morte) diante da juventude de Eu, Você e a Garota que vai Morrer meu gosto pendeu para Deus Branco e a jornada de um cão cheia de simbologias sociais. 

ATOR COADJUVANTE
Acho que é a categoria que causará maior estranhamento nos leitores, já que escolhi atores que estão fora dos radares das grandes premiações. Mas como ignorar o horror que brota de John Goodman em seu abrigo na Rua Cloverfield, 10? Ou do carisma de Javier Camara visitando seu melhor amigo em Truman? Das risadas provocadas por Alden Ehrenreich em Ave, César!? Das doses cavalares de bom mocismo de Emory Cohen em Brooklyn? Ou da atuação com as limitações físicas de Sam Claflin no meloso Como Eu Era Antes de Você? Mas o meu escolhido do ano é o jovem Devin Druid que com 17 anos fez mais bonito do que gente grande como o filho caçula em busca de si em Mais Forte que Bombas (ele só não concorreu como Revelação porque presto atenção nele desde a minissérie Olive Kitteridge /2014). 

ATRIZ COADJUVANTE
Eu me rendo novamente a você, Kate Winslet! Depois que achamos já conhecer todas as suas facetas, você aparece ainda mais versátil como a voz da consciência de Steve Jobs! Assim fica difícil para suas concorrentes! A meiga Olivia Cooke (Eu, Você e a Garota que Vai Morrer), a louca Jason Leigh (Os Oito Odiados), uma devastadora Cynthia Nixon (James White),  a descolada Mya Taylor (Tangerine) e Margot Robbie que foi a melhor coisa de Esquadrão Suicida como a desmiolada Arlequina.

ATOR
Eu já disse que gosto de Trumbo, muito por conta da atuação de Bryan Cranston que está fenomenal como o roteirista perseguido por suas convicções políticas. Ele concorreu ao Oscar com Leo DiCaprio (que come o pão que o urso amassou em O Regresso), Eddie Redmayne por (filme que eu detesto) A Garota Dinamarquesa e Michael Fassbender na pele de Steve Jobs.  Entre eles destaco Omar Sy, arrasador na história real do primeiro astro negro da França em Chocolate e o estranho Alfredo Castro por De Longe Te Observo

ATRIZ
Aos 63 anos Isabelle Huppert está em plena ativa! Ela apareceu em seis filmes em 2016 e estará em outros seis em 2017! Haja disposição! Isabelle ainda é o tipo de atriz que topa qualquer desafio, afinal, quantas mulheres de sua idade entraria na espiral de acontecimentos surpreendentes de Elle? Mais uma vez, a musa francesa dá uma aula do que é atuar impregnando cada gesto e olhar com uma gama inalcançável de sentidos. O ano ainda trouxe mais uma performance memorável de Amy Adams (em A Chegada, na verdade duas se contarmos Animais Noturnos que ainda não pude assistir). Ainda teve Sonia Braga em pauta com as polêmicas políticas envolvendo Aquarius desde que concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ainda não podemos esquecer da consagração de Brie Larson como a mãe zelosa de O Quarto de Jack, a força de Cate Blanchett em Carol e a chegada à maturidade de Saoirse Ronan no saborosamente romântico Brooklyn.  

DIRETOR
Sempre me interessa o trabalho de um diretor que nos leva por caminhos incomuns ao contar sua história. Nesse ponto, Lenny Abrahamson merece ser lembrado por nos dar a sensação de conhecer o mundo pela primeira vez em O Quarto de Jack, assim como Robert Eggers lida com o horror do desconhecido em A Bruxa. Laszlo Nemes não poupa a plateia dos horrores da guerra que servem de cenário para O Filho de Saul e Alfonso Gomez Rejon enche de sensibilidade uma trama sobre a colisão dos mundos entre os personagens de Eu, Você e a Garota que Vai  Morrer. Já Kórnel Mundruczó chegou bem perto de ser o meu favorito do ano ao mostrar o nosso mundo sobre uma ótica canina em Deus Branco, mas minha escolha de direção do ano vai para a poesia filosófica impressa por Joaquim Trier em Mais Forte que Bombas.

FILME
Sei que tem gente que irá me xingar por considerar Eu, Você e a Garota que Vai Morrer o favorito do ano. Vale lembrar que o filme foi premiado em Sundance e foi lançado aqui direto em DVD após se tornar cult no exterior, especialmente pela forma peculiar como declara seu amor ao cinema e à amizade ao mesmo tempo. São tantos detalhes utilizados para contar uma história sobre adolescência, morte e vida que o filme trouxe leveza para lidar com assuntos difíceis num ano tão denso como 2016. Ressalto que minha escolha não desmerece a ousadia de A Chegada ou Elle, a tensão de A Bruxa, o terrir documental de O Que Fazemos nas Sombras, o desespero imersivo de O Filho de Saul, a sensibilidade de O Quarto de Jack, as camadas de leitura geradas por Mais Forte que Bombas, a crítica social de Deus Branco e  as discussões provocadas pelo brasileiro Aquarius. São esses dez filmes que tornaram meu ano cinematográfico mais interessante.

E quais foram os seus favoritos de 2016?

sexta-feira, 22 de julho de 2022

#FDS Na Tela: Thor - Amor e Trovão

 
Taika, Natalie, Tessa e Chris: que os deuses nos protejam. 

Acho que hoje em dia ninguém duvida que o neozelandês Taika Waititi gosta mesmo é da zoeira. Uma zoeira que até aqui ele conseguiu demonstrar que pode ser muito eficiente quando bem estruturada na vontade de entreter de forma inteligente. Foi assim que ele conquistou fama para além do seu país com O Que Fazemos nas Sombras (2014) e ser escalado para colocar o Deus do Trovão da Marvel nos eixos com Thor: Raganarok (2017). Naquele filme, Taika demonstrou que para ele nada era sagrado e Thor (Chris Hemsworth) ressurgia repaginado, regado de humor e um visual colorido que bebia nas HQs mais psicodélicas do herói. Parte dos fãs adorou a empreitada, a outra parte torceu o nariz ao ver o deus nórdico virar uma espécie de comediante. Este segundo grupo deve detestar ainda mais esta nova empreitada de Waititi no universo da Marvel, quanto aos primeiros... parte deles dará as mãos aos segundo. Thor: Amor e Trovão é uma verdadeira bagunça, seja no roteiro ou na narrativa que abraça para si tantos assuntos (alguns tão complicados quanto promissores) mas que mal consegue dar conta do básico: desenvolver os personagens enquanto conta uma história. Desculpem se o que escreverei nas próximas linhas pode parecer uma sucessão de SPOILERS, mas é praticamente a sinopse do filme: O início é bastante promissor ao contar a origem de Gorr (Christian Bale), uma espécie de Jó (aquele da Bíblia) às avessas que após perder tudo que tem se revolta com os deuses após perceber que desejam dos humanos apenas a adoração eterna. De posse de uma espada lendária, Gorr começa a dar cabo de todos os deuses que cruzarem seu caminho (com exceção do Zeus vivido por Russell Crowe, que este estará no caminho do Thor mesmo). Os assassinatos chamam a atenção de Thor que está ao lado dos Guardiões da Galáxia resolvendo pendengas intergalácticas, até que resolve colocar sua vida nos eixos novamente. Enquanto isso na Terra, a doutora Jane Foster (Natalie Portman) sofre com seu tratamento contra o câncer e descobre, por acaso, ser honrada o suficiente para usar o lendário Mjolnir... já Valquíria (Tessa Thompson) transforma Nova Asgard em uma espécie de parque temático até que o vilão da vez apareça para atrapalhar os negócios. Como podem perceber são muitas pontas para o filme dar conta (e tempo ele tem de sobra para fazer isso com suas duas horas de duração), mas tudo é tão superficial e caricato que não chega a empolgar. Parece uma grande colagem de esquetes com piadinhas sobre heróis e deuses, o que deixa o amor de título em último plano. Nem vou citar a pobreza com que a dualidade da morte iminente de Jane é tratada com sua jornada super-heróica, o que chega a ser revoltante para quem imaginava que a oscarizada Natalie Portman finalmente teria o destaque merecido no Universo Marvel. Se Chris Hemsworth começa a cansar com seu humor gaiato, resta para Christian Bale dar alguma dignidade ao filme nas suas cenas mais dramáticas (a primeira e a última). A cena final também é bem borocoxô e não motiva o a imaginar o que está por vir com o Deus do Trovão - coisa que fica a cargo da cena pós-crédito que promete colocar Thor diante do filho de um deus com, digamos, a mesma envergadura que ele. Assim como em Thor: Ragnarok, Taika parece estar brincando com suas action figures, mas desta vez (talvez por ter ganho o Oscar de roteiro adaptado por Jojo Rabbit/2019 e a confiança dos produtores), faltou um coleguinha para dizer que não estava entendendo nada daquela sandice. O pior é que comparado com Doutor Estranho: No Multiverso da Loucura/2022 e Eternos/2021, o filme demonstra mais uma vez que, a cada filme que passa, a Fase 4 da Marvel parece mais perdida em sua expansão. Não é por acaso que após ver o público sair em silêncio da sala de cinema, o único comentário que ouvi foi uma espectadora animada ao dizer "eu vi o bumbum do Thor". Odin deve estar orgulhoso.

Thor: Amor e Trovão (Thor - Love And Thunder / EUA - Austrália / 2022) de Taika Waititi com Chris Hemsworth, Natalie Portman, Christian Bale, Tessa Thompson, Taika Waititi, Russell Crowe, Chris Pratt, Dave Bautista e Jaimie Alexander.   

domingo, 12 de novembro de 2017

Na Tela: Thor - Ragnarok

Hemsworth: densidade para quê?

Muita gente deve ter ficado assustada quando a Marvel anunciou que o neozelandês Taika Waititi (diretor do hilário O Que Fazemos nas Sombras/2016) fora escolhido para capitanear a terceira aventura do Deus do Trovão nos cinemas. Quem é mais ligado em HQ tremeu ao recordar que a trama de Ragnarok nos quadrinhos é bastante sombria por se do fim do mundo, ou melhor, de Asgard. Se a primeira aventura de Thor foi criticada pelo tom solene (que eu adoro), quase shakespeariano (cortesia do diretor Kenneth Branagh) e o baixo apelo do filme gerou o confuso Thor: O Mundo Sombrio/2013, mas o resultado foi pior que o esperado. Ali a Marvel já pensava em investir em gêneros diferentes para seus filmes, o que foi consolidado com os bem-humorados Guardiões da Galáxia (2014) como aventura de Ficção Científica e Homem-Formiga (2015). No fim das contas, o humor foi a saída para Thor e sua turma, já que ao escalar Waititi, a Marvel não teve pudores de fazer sua comédia rasgada de herói – o que chega a ser uma ousadia, já que os fãs da editora já começaram a se manifestar com as piadinhas recorrentes do universo cinematográfico da editora. No entanto, diante do sucesso de Thor Ragnarok, parece que o Deus do Trovão finalmente encontrou o seu caminho da salvação nas bilheterias. É verdade que o filme funciona, é divertido, despretensioso , mas tem como maior desafio não cair no pastiche de um herói já trabalhado em quatro filmes anteriores, neste ponto, Chris Hemsworth demonstra estar totalmente a vontade para trabalhar o personagem com mais humor. Penso que o mais difícil seria um diretor construir uma atmosfera apropriada para isso com um apocalipse iminente, mortes a todo instante, um personagem que é derretido vivo e outro que perde o olho. A sorte é que Waititi dá conta do recado com seu visual colorido, as piadinhas de matinê, uma vilã deliciosa e Led Zeppelin de trilha sonora. O resultado pode não ser genial, mas consegue ser, ao menos, equilibrado. Para começar a resolução do gancho deixado em O Mundo Sombrio não empolga e é resolvida logo no segundo ato do filme (que também é o mais aborrecido - deixando claro que eles não faziam a mínima ideia do que fazer ao terminarem a segunda aventura). Logo depois começa o que interessa com a chegada de Hela, a primogênita de Odin (Anthony Hopkins) que retorna de seu exílio forçado para dominar Asgard – nem que para isso tenha que eliminar boa parte da população. Responsável por dar vida à Hela, Cate Blanchett está visivelmente se divertindo bastante com a personagem (só espero que ela tenha chance de voltar em outros filmes e aproveitar ainda mais todo o potencial da Deusa da Morte). Diante dela, até o charme de Loki (o ótimo Tom Hiddleston, insolente como sempre) parece menor – mesmo porque o roteiro insiste em repetir a rotina de atos do personagem como um círculo vicioso. Ao lado desta pendenga familiar (que era o grande ponto do primeiro filme), o roteiro amplia generosamente o universo dos personagens, os tratando menos como deuses e mais como alienígenas num cosmo marvelesco em expansão. Há muito do visual e do humor de Guardiões da Galáxia no filme, especialmente quando está em cena o Grandmaster (Jeff Goldblum em mais um icônico personagem) em seu passatempo de criar lutas para o entretenimento do seu povo que vive num planeta lixão - que cultua Hulk (Mark Ruffalo), em analogia ao clássico Planeta Hulk – e acolhe a misteriosa Valkyria (Tessa Thompson). Enfim, com todas as suas camadas e personagens, Thor: Ragnarok é a brincadeira dos sonhos de Taika Waititi com suas action figures de infância. A sorte é que ele nos convidou para assistir seu devaneio bastante criativo. 

Blanchett: a irmã malvada!

Thor: Ragnarok (EUA-2017) de Taika Waititi com Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Idris Elba, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch e Matt Damon. ☻☻☻

terça-feira, 24 de março de 2020

Combo: Taika Waititi

05 Boy (2010) é nome do menino que sonha com o retorno do pai que é idealizado como um dos caras mais legais do mundo (mas na realidade não é nada disso). Taika Waititi vive o pai do protagonista e capricha nos exageros para demonstrar o quanto ele está longe de ser exemplar! Este é o segundo longa-metragem do cineasta que tem uma origem incomum: é filho de um fazendeiro maori e uma professora judia. Esta origem multifacetada revela muito da forma como o diretor concebe suas histórias, seja na escolha do elenco, no senso de humor e uma certa nostalgia  na construção de uma atmosfera quase fantasiosa sobre busca das origens. 

04 Thor Ragnarok (2017) Dê milhões de dólares na mão de um diretor que sempre concebeu o cinema como divertimento (mas sempre teve restrições de orçamento), dê a ele liberdade para brincar com heróis de histórias em quadrinhos feitos de carne, osso e CGI e o resultado é o multicolorido Thor Ragnarok! Muita gente levou um susto ao ver o que Waititi fez com o que começou nos cinemas com aura shakesperiana. O filme é uma verdadeira ode ao momento mais psicodélico dos quadrinhos da Marvel e, ironicamente, trata justamente do fim do mundo do Deus do Trovão com muito humor. De onde tiraram a ideia de Waititi dirigir um filme da Marvel? Não sei, mas funciona. 

03 Fuga para Liberdade (2016) Um menino órfão que nunca consegue se adequar às famílias que cruzam seu caminho. Um homem rabugento que não faz a mínima ideia do motivo de sua esposa ter adotado um menino. Eis que o garoto decide fugir e começa uma aventura inusitada onde os dois são perseguidos pelas autoridades locais. O mundo ainda estava conhecendo o frescor do cinema de Waititi quando este filme estreou e fez o maior sucesso na Austrália. Com boas atuações do sumido Sam Neil (que tem aqui um dos seus melhores momentos) e do precoce Julian Dennison (que depois fez Deadpool2), o filme é uma boa pedida para uma sessão da tarde divertida e despretensiosa.

02 O Que Fazemos nas Sombras (2014) Um documentário sobre vampiros estrangeiros de épocas e lugares diferentes que vivem na Nova Zelândia? Quem mais poderia ter uma ideia dessas além de Taika Waititi? Ninguém, oras! Mostrando o cotidiano inusitado de um trio de vampiros, o filme é um dos mais divertidos que eu já assisti! Entre servos, vampiros novatos, lobisomens, caçadores de vampiros, A Besta em pessoa e brigas pela tarefa de casa ser feita, o filme se desenrola com delicioso ritmo fake e fez tanto sucesso que virou até série para a televisão no ano passado.

01 Jojo Rabbit (2019) Quase que este filme fica em segundo lugar, mas quando me dou conta da coragem e do perigo que Taika Waititi assumiu ao criar este projeto... ele merece o primeiro lugar. O reconhecimento pelo equilíbrio que o filme busca entre o humor e a seriedade é ligada com a acidez típica do diretor! O resultado foi premiado no Festival de Toronto e levou para casa o Oscar de Roteiro Adaptado. Quem poderia contar uma história sobre um menino que tem Hitler como amigo imaginário em meio a Segunda Guerra Mundial? Quem além de Taika Waititi levaria uma sandice dessas adiante? Ninguém, oras!

segunda-feira, 28 de maio de 2018

PL►Y: Boy

Rocky, Boy e o pai desmiolado: ternura politicamente incorreta. 

Espero que muita gente tenha procurado os filmes do neozelandês Taika Waititi depois que viu o que ele fez com Thor: Ragnarok (2017). Quem não fez isso ainda, fica a dica. No blog já comentei anteriormente o hilariante O Que Fazemos nas Sombras/2014 e o divertido Fuga Para a Liberdade/2016, antes deles, Taika dirigiu Boy, seu segundo longa metragem. Aqui o diretor já demonstra que seu estilo está bem definido, o que faz com que uma história sem grandes novidades seja agradável de se assistir com boas piadas, momentos sentimentais e um tempero de nostalgia. Boy é o nome do protagonista, um menino que vive com outras crianças de sua família enquanto a responsável por eles precisou viajar para o funeral de um parente. Ambientado em 1984, Boy (o carismático James Rolleston) é fã de Michael Jackson e sonha com o dia em que seu pai voltará e o levará para conhecer o ídolo. Trata-se evidentemente de um delírio, já que o pai do menino está preso e quando ele aparece está bem longe de ser exemplar. Alamein (o próprio Taika Waititi) aparece num carro com dois amigos e alimenta ainda mais as ilusões do filho, mas aos poucos a realidade se mostrará bem diferente da esperada pelo guri. A começar pelo corte de cabelo horroroso que o pai lhe faz, passando pela motivação aos roubos de Boy à plantação de maconha de uma vizinha e a tarefa árdua de fazer buracos no quintal (em busca do dinheiro roubado pelo pai e que ele não faz muita ideia de onde enterrou), ou seja, a vida do menino muda bastante com a chegada do progenitor. Taika Waititi compõe um pai cheio de exageros, que tem momentos tão engraçados quanto incômodos - ele é capaz de ameaçar os colegas que perseguem seu filho, atropelar um animal na beira da estrada e não dar a mínima, além de ignorar o filho caçula, o fofo Rocky (Te Aho Eketone-Whitu), cujo parto complicado levou a mãe ao falecimento. Rocky é responsável por alguns dos melhores momentos do filme, já que ele acredita que possui super-poderes que nem sempre funcionam (e a forma como o filme aborda esta fantasia é simplesmente deliciosa). Com várias crianças em cena lidando com um bando de adultos que estão bem longe de ser confiáveis, o filme não deixa de ter um certo tom de rito de passagem, quando o rapazinho começa a enxergar o mundo com outros olhos, sobretudo ao perceber que seu pai está bem longe de ser o cara legal que ele imagina. O roteiro (do próprio Waititi), não cita Freud ou outros embasamentos rebuscados, mas consegue atingir um ponto interessante sobre aquele momento em que você se distancia do pai para criar sua própria identidade. Embora tenha alguns problemas de ritmo, o filme consegue ser um bom filme família, politicamente incorreto, mas família!

Boy (Nova Zelândia - 2010) de Taika Waititi com James Rolleston, Taika Waititi, Te Aho Eketone-Whitu, Haze Heweti e Rachel House. ☻☻☻

sábado, 27 de julho de 2024

#FDS Esportivo: Quem Fizer Ganha

Fassbender e seu time: quase um milagreiro. 
 
Em ritmo de Olimpíadas, dedico este #FinalDeSemana a filmes com tramas em torno de esportes. Pra começar, eu escolhi este filme recente que está em cartaz no Disney+ e que não chamou muita atenção nos cinemas. É sempre bom lembrar que Taika Waititi se construiu como artista em sua terra natal, a Nova Zelândia. Filho de pai maori e mãe judia nascida na Rússia, temos uma ideia que suas referências são bastante diferentes da maioria dos cineastas de Hollywood. Waititi começou sua carreira como ator em 1999 e anos depois começou a se exercitar como cineasta em curtas metragens. Por um deles, foi indicado ao Oscar de melhor curta-metragem (Two Cars, One Night/2004). Seu senso de humor peculiar ficou ainda mais evidente em seus longas Boy (2010), O Que Fazemos nas Sombras (2014) e Fuga para Liberdade (2016) , causando surpresa quando a Marvel o escolheu para dirigir Thor: Ragnarok (2017). O filme foi o maior sucesso de uma aventura solo do Deus do Trovão nos cinemas. Com crédito em Hollywood, não só Taika conseguiu bancar uma adaptação polêmica sobre um menino que tinha Hitler como amigo imaginário em Jojo Rabbit (2019), como também ganhou o Oscar de roteiro adaptado pelo trabalho. No entanto, depois a coisa desandou com Thor: Amor e Trovão (2022) e o diretor resolveu baixar a bola com Quem Fizer Ganha, aqui o protagonista é um treinador mal humorado que a contragosto se torna responsável por dar um jeito no time de futebol de Samoa Americana. Ninguém ganha um Oscar impunemente e muito menos se coloca no alto dos créditos um ator do calibre de Michael Fassbender a toa. O filme foi cercado de burburinho e falavam em prêmios e mais um Oscar... mas não era  pra nada disso. Waititi dá a impressão que queria voltar a fazer suas comédias despretensiosas novamente, mas o público e a crítica desejavam, especialmente depois da bomba que foi sua última desventura com a Marvel. A trama aqui é inspirada em uma história real sobre um time que chamou atenção por ser derrotado com a maior goleada em uma eliminatória de Copa do Mundo. Samoa Americana perdeu de 31 a 0 para a Austrália em 2001. Um vexame que abalou definitivamente as estruturas do time da pequena ilha do pacífico que viu na figura sisuda do estadounidense Thomas Rogen a chance de superar seus traumas. Pode se dizer que Waititi faz o básico por aqui amparado pela forma diferente com que Rogen e o time encara a relação com esporte. Esta diferença entre o olhar do técnico e do time reflete muito das diferenças culturais entre o estrangeiro e os habitantes da região. No entanto, estas diferenças nunca se aprofundam muito e só são superadas quando os problemas pessoais do próprio Rogen começam a aparecer em cena.  Eu nunca imaginaria Fassbender para um papel que precisa de alguma habilidade cômica, mas digamos que Waititi inovou ao investir na verve germânica do moço, ainda mais depois dele ficar quatro anos fora dos cinemas. O filme é bastante inofensivo e convencional. As cenas das partidas e treinos também não trazem novidades, mas o que me chamou mais atenção no filme foi o trabalho da estreante Kaimana que interpreta Jaiyah Saelua, que foi a primeira jogadora transgênero do mundo a disputar uma partida de eliminatórias da Copa do Mundo. Na pele de Jaiyah, a atriz injeta nuances inesperadas em um filme voltado para um time de futebol, especialmente pela forma como todos s definem como Fa'afafine (termo que designa na cultura samoana americana as pessoas que têm gêneros fluidos, mostrando dois espíritos coexistindo em uma pessoa). A forma como a personagem é retratada no filme se torna a grande surpresa do filme, mais até do que acompanhar um filme que nem faz questão de ganhar, mas que gostaria de fazer pelo menos um gol em uma partida. Chegado a personagens deslocados, fica fácil entender o motivo desta história real chamar atenção do diretor.
 
Quem fizer Ganha (Next Goal Wins / Austrália - EUA / 2023) de Taika Waititi com Michael Fassbender, Elisabeth Moss, Kaimana, Will Arnett, David Fane, Rachel House, Will Arnett, Oscar Kightley, Beulah Koale e Taika Waititi. ☻☻

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PL►Y: Fuga Para a Liberdade

Julian e Sam: cômica caçada humana. 

Em 2017 o diretor Taika Waititi tornou-se conhecido pelo grande público ao dirigir em Hollywood pela primeira vez. Ainda que tenha conquistado uma indicação ao Oscar em 2004 (pelo curta Two Cars, One Night), para alguns ele já era conhecido por dirigir comédias peculiares em sua terra natal. Depois de Thor: Ragnarok/2017 , ainda que muitos não tenham curtido o humor transbordante  e o visual multicolorido da repaginada no Deus do Trovão, os próximos filmes do cineasta prometem chamar mais atenção do público e da mídia. Embora tenha feito algumas participações como ator em filmes americanos, conheci o trabalho de Taika no impagável O Que Fazemos nas Sombras (2014). logo quis conhecer um pouco mais de seus outros filmes. Lembro que ele estava lançando este Hunter for Wilderpeople e recebia resenhas elogiosas da imprensa pela história de Rick Baker (Julian Dennison), uma criança considerada problemática (já participou de furtos, roubos de carro e outras infrações...) que é encaminhada para viver com seus novos pais adotivos. Bella (Rima de Wiata) e Hector (Sam Neill) vivem reclusos perto de uma floresta. Bella está disposta a dar ao menino todo o carinho e atenção que ele precisa, independente de todas as histórias que já ouviu sobre ele. Já Hector é mais sisudo e distante, mas aceita a decisão da esposa de aumentar a família. Quando um golpe do destino muda os rumos desta família, Rick  foge de casa com seu cão (chamado Tupac) e Hector parte em sua busca. Não demora muito para que os dois sejam procurados pelas autoridades locais e todo tipo de história sensacionalista se propague sobre os dois - especialmente com a ajuda da assistente de proteção à infância vivida por Tioreore Nagatai-Melbourne (que também participou de Thor:Ragnarok), que é a vilã do filme. O filme tem traços de aventura infanto-juvenil e se torna irresistível pelo humor que perpassa toda a história, mesmo nos momentos em que se torna mais dramática. Tem o maior clima de comédias de aventura dos anos 1980, uma época em que o politicamente correto não atrapalhava o andamento da história e que Taika teria feito bilheterias milionárias. Além do roteiro esperto (baseado na obra de Barry Crump), o longa também se beneficia muito do elenco, sobretudo do menino Julian Dennison que é um verdadeiro achado (sua narrativa em off garante ótimos momentos e deve aparecer na nova aventura de Deadpool no cinema) além que Sam Neill, o veterano também está ótimo em cena e deixa a impressão que Hollywood nunca soube muito bem o que fazer com ele - mesmo que ele tivesse versatilidade para fazer muita coisa boa. Embora tenha recebido um nome genérico por aqui (Fuga para a Liberdade?! Come on!), Hunter for Wilderpeople tem um frescor irresistível e promete boas risadas para quem se aventurar ao lado de Rick Baker e seu pai que, ironicamente, estava doido para se livrar dele. 

Fuga para a Liberdade (Hunter for Wilderpeople/ Nova Zelândia - 2016) de Taika Waititi com Julian Dennison, Sam Neill, Rima de Wiata, Tioreore Nagatai-Melbourne,Troy Kingi e Stan Walker. ☻☻☻☻

segunda-feira, 22 de abril de 2019

PL►Y: O Vale das Sombras

Aslak (Adam Ekeli): em busca do desconhecido. 

Sempre achei interessante ver filmes de países variados. É verdade que o cinema americano domina a maioria das exibições por aqui (e não estou falando só de cinema), sei que a grande maioria do público está acostumado com filmes Made in Hollywood, mas é sempre interessante ver como os outros países trabalham as narrativas, o uso de silêncios, do tom mais contemplativo, de uma narrativa sem pressa para construir climas e atmosferas. São estes motivos que fazem deste filme Norueguês uma boa pedida para os fãs de suspenses mais sutis. A história é contada a partir do ponto de vista de um garotinho da área rural da Noruega, lugar que está sofrendo com ataques às ovelhas da região. O menino e um amigo acreditam que aqueles ataques destruidores são feitos por um lobisomem que habita as redondezas. A ideia ganha forma na cabeça do garotinho, que passa a ouvir barulhos diferentes durante a noite que o faz crer que realmente existe um monstro andando por perto. Colabora ainda mais para isso a existência de uma floresta nas proximidades. Embora o filme tenha algumas cenas sobre o drama familiar do pequeno protagonista - e que pode ser um dos pontos para que o menino fantasie para fugir daquela realidade -, o filme ganha corpo no trabalho minucioso do diretor Jonas Maltzow em criar uma atmosfera que nos convida a embarcar na imaginação do protagonista. Sem sustos fáceis, ele cozinha o suspense até torná-lo sufocante quando Aslak (o expressivo Adam Ekeli) entra pela floresta. Neste ponto, o filme lembra um pouco o recente A Bruxa (2015) na forma como aquela natureza em si já representa algo ameaçador. A escuridão, os sons, as árvores que deixam tudo cada vez mais claustrofóbico só nos preparam para o susto do que o lourinho encontra por lá. Até que o filme revela uma guinada diferente da que esperamos. Enquanto não sabemos ao certo o que vai acontecer e não fazemos a mínima ideia do que de fato Aslak encontrou, o diretor segura nossa respiração sem piedade. O ruim é que depois deste momento de angústia (motivada pela nossa imaginação plenamente alimentada pela sugestão do diretor), o filme desce o tom para chegar ao seu desfecho inesperado. O final despretensioso revela a verdadeira intenção do filme: um encontro com o desconhecido que é tão assustador, mas que visto de perto, pode causar até nossa identificação, afinal, a forma como vemos o diferente revela mais de nós mesmos do que do diferente em si. Esqueça os sustos fáceis e os monstros, apenas embarque na atmosfera do filme.

O Vale das Sombras (Skyness dal / Noruega - 2017) de  Jonas Matzow Gulbrandsen com Adam Ekeli, Kathrine Fagerland, John Olav Nielsen e Lennard Salamon. ☻☻☻

domingo, 11 de abril de 2021

PL►Y: Pessoas, Lugares e Coisas

Jemaine e suas filhas: os tropeços da vida com bom humor. 

Não sei vocês, mas ando com problemas para assistir filmes muito densos com sofrimentos, mortes e temas pesados. Some isso à minha implicância com comédias de baixaria ou de mil palavras por minuto e a coisa complica mais ainda. Eis então que encontrei este filme perdido na Netflix e fiquei bastante satisfeito. Sabe quando você encontra o filme ideal na hora certa? Foi exatamente isso. Pessoas, Lugares e Coisas não vai revolucionar o cinema ou mudar sua vida, mas cai como uma luva se você quer espairecer com personagens que parecem morar na sua vizinhança e não falam feito robôs descolados. O filme conta a história de Will Henry (Jemaine Clement de O Que Fazemos nas Sombras), um autor de graphic novels que considerava ter uma vida feliz junto à esposa e as duas filhas gêmeas (a história do relacionamento é apresentada logo na introdução como se a vida deles fosse uma graphic novel). No entanto, tudo muda quando ele descobre que a esposa (Stephanie Allynne) tem um amante (Michael Chernus) na festa de aniversário de cinco anos das meninas.  É o fim do casamento dos dois. Um ano depois ele está insatisfeito de morar hora e meia longe das filhas, vê-las somente nos fins de semana e se desdobrando com aulas para alunos não muito interessados. Preso à sua insatisfação, alguns acontecimentos começam a sinalizar que a vida pode (e deve) recomeçar. Das aulas invadidas por sua tristeza, à falta de jeito para administrar o cotidiano das filhas ou o início de um novo romance, o roteiro e a direção de Jim Strouse encontra o equilíbrio certo entre as doses de melancolia, a fofura da convivência com as crianças (vividas pelas gêmeas Aundrea e Gia Gadsby), bom humor e os primeiros passos de uma nova fase da vida. Nesta nova fase, uma aluna promissora Kat (a ótima Jessica Williams, que eu adoraria ver em mais produções) e a mãe dela (Regina Hall, divertida de um jeito bem original) terão papel mais que importante (enquanto a fragmentada discussão de relacionamento com a ex permanece). Com roteiro amarradinho nas mãos do elenco certo, o filme flui com uma naturalidade rara nos dias de hoje, com destaque para Jemaine Clement na pele de um homem comum e seus tropeços. O texto sem grandes pretensões a partir das confusões que as relações humanas podem gerar é bastante agradável de assistir, sobretudo ao pontuar as virtudes e defeitos dos seus personagens ao longo de hora e meia de projeção. Simpático, simples e divertido, Pessoas, Lugares e Coisas se torna uma bela surpresa. 

Pessoas, Lugares e Coisas (People Places Things / EUA -2015) de Jim Strouse com Jemaine Clement, Regina Hall, Jessica Williams, Stephanie Allynne, Aundrea Gadsby, Gia Gadsby e Michael Chernus. ☻☻

domingo, 18 de dezembro de 2016

10+ FILMES FAVORITOS DE 2016

É sempre trabalhoso escolher os filmes favoritos de um ano, por isso que estabeleço alguns critérios. Além das qualidades cinematográficas inerentes à obra, costumo levar em consideração o impacto que provoca ao ser assistido, sua permanência em nosso imaginário após vê-lo, as discussões que é capaz de provocar e, principalmente, a experiência única que foi mergulhar numa narrativa. Entre sequências, refilmagens e remodelagens, surgiram os dez filmes que faço questão de levar na minha maleta de 2016 até agora:  
(em ordem alfabética)

de Robert Eggers

de Denis Villeneuve

de Cléber Mendonça Filho

de Kornél Mundruczó 

de Paul Verhoeven

de Alfonso Gomez-Rejon

de Joachim Trier

de László Nemes

de Lenny Abrahamson

de Jemaine Clement & Taika Waititi

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

10+ Divertidos de 2016

Com 2016 chegando ao film existe uma unanimidade de que não foi um ano fácil de enfrentar! Por conta de todas as más notícias que ele trouxe, resolvi fazer uma lista de filmes que chegaram por aqui este ano e que conseguiram me divertir em momentos difíceis. Tentei evitar comédias mais dramáticas na lista (mas confesso que não consegui deixar a minha favorita de fora).
 A lista ficou assim:

"A Intrometida" de Lorene Scafaria 
Susan Sarandon no seu melhor papel há décadas!

"A Pequena Morte" de Josh Lawson 
A melhor comédia sexual dos últimos tempos veio da Austrália!

"Ave, César!" de Joel & Ethan Coen 
Uma homenagem (debochada) à era de ouro de Hollywood.

"De Onde eu Te Vejo" de Luiz Villaça 
Uma verdadeira pérola brasileira que merece ser descoberta.

"Dois Caras Legais" de Shane Black 
Comédia policial com sabor de pastiche noir!

"Eu, Você e a Garota que vai Morrer" de Alfonso Gomez-Rejon 
E quem disse que não pode haver alegria nas tristezas da vida?

"Mascotes" de Christopher Guest 
Já disse que sou fã dos mockumentários de Chris Guest? 

"O que Fazemos nas Sombras" de Jemaine Clement & Taika Waititi 
Meu documentário favorito sobre vampiros na Nova Zelândia!

"Voando Alto" de Dexter Fletcher 
A bem humorada trajetória de um rapaz com alma de atleta!

"Zootopia" de Byron Woward & Rich Moore 
Minha animação favorita do ano!