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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CATÁLOGO: IMPÉRIO DOS SONHOS

Dern: perdida em si mesma na última sandice de David Lynch.

Todo cinéfilo que se preze sabe que David Lynch não é um cineasta convencional, mas é um dos poucos que consegue envolver quem assiste seus filmes como se fosse um personagem o fazendo mergulhar na estranheza do universo entre a realidade e a fantasia em que constrói suas histórias - muitas vezes interpretadas como sem pé e nem cabeça. Às vezes ele facilita a vida do espectador (como em O Homem Elefante ou A História Real), em outras gosta de embaralhar nossa atenção em vários pedacinhos, numa espécie de quebra-cabeça em película. Lynch domina a arte cinematográfica como poucos. Iluminação, edição, trilha-sonora, atuações, tudo está a serviço da atmosfera que consegue construir apoiado num roteiro muitas vezes enigmático. Se em Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive/2001) ele conseguiu duas indicações ao Oscar (direção e roteiro adaptado – ambas merecidíssimas) a coisa parece não ter funcionado como o esperado em Império dos Sonhos que funciona quase como uma sequência do anterior na forma como explora o processo de fazer cinema. Lynch teve a idéia de fazer o filme quando descobriu que o esposo de sua musa Laura Dern nascera em Inland Empire (o título original do filme, tão sonoro e interessante como Mulholland Drive), instigado com o nome da cidade, o diretor construiu mentalmente as cenas sem se preocupar com o encadeamento do roteiro. Assim, foi filmando seu elenco ao longo dos meses sob a trama aparentemente simples: uma atriz que para de distinguir o que é sua vida, o que é sonho, o que é memória e o que é ficção. Nesse pretexto o diretor faz de tudo que tem vontade, salpicando mistérios, subtramas, focos, portas, texturas, dezenas de personagens (às vezes me parecia uma versão hardcore de Robert Altman com as participações de Diane Ladd, Willian Macy e Laura Elena Harring nos créditos) e os embaralha numa montagem caótica e cheia de atmosfera em que cabe ao expectador construir o filme em sua mente. No meio do caos somos guiados pela atuação de Laura Dern que consegue nos tragar para a angústia de sua personagem. Obviamente que um filme de Lynch não é para todos os gostos, mas o espectador devidamente avisado pode apreciar os méritos do filme. Império dos Sonhos é uma experiência acima de tudo sensorial sobre os labirintos do processo de construção de uma personagem (e por isso, seria melhor ter traduzido o título original como Império Interior). Acho que não precisa mencionar a premissa do filme que conta a filmagem de um roteiro baseado no folclore polonês que parece amaldiçoado, no meio de tanta linhas narrativas isso é o que menos importa. O clima opressor, sombrio e obscuro nas mãos de Lynch continua sendo estranhamente atraente mostrando o quanto é capaz de criar pesadelos como ninguém, seja com coral de prostitutas ou seres coelho. Mas os delírios criativos comprometem o encadeamento da narrativa (o que não acontecia em Cidade dos Sonhos ou A Estrada Perdida), o tornando longo e árduo em sua segunda hora de duração (p.s.: são três!!), mas esse  aspecto pode ser atenuado pelos fãs do estilo do diretor – afinal, se o cinema pode ser visto como sonho e fantasia, a cinematografia de Lynch habita o limite dessa premissa.

Império dos Sonhos (Inland Empire/EUA-Polônia e França-2006) de David Lynch com Laura Dern, Justin Theroux, Harry Dean Stanton e Julia Ormond. ☻☻☻

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Ladies & Gentlemen: Naomi Watts

Não deve ser fácil carregar um sobrenome como Watts, afinal, nos lembra energia, choque elétrico, luzes de tudo mais. Sorte que Naomi Ellen Watts consegue carregar um nome desses em grandes problemas. Claro que houve um tempo que ela era apenas mais uma atriz querendo aparecer em bons filmes à altura de seu talento, mas Naomi ainda é um caso curioso que precisou apenas de um longa de sucesso para ser colocada entre as melhores atrizes de Hollywood. Naomi nasceu na Inglaterra em 1968 e a vida familiar da loura não foi fácil, seus pais se separaram quando tinha apenas quatro anos e o pai faleceu quatro anos depois. Seu pai era engenheiro de som do Pink Floyd e sua mãe era um hippie meio destrambelhada que tinha a ideia fixa de dar a guarda de Naomi e seu irmão para os avós. Aos quatorze anos Naomi foi morar em Sidney, onde começou a fazer cursos de interpretação e conheceu sua melhor amiga, Nicole Kidman.   Aos 18 anos se aventurou numa mal fadada carreira de modelo, a qual a atriz quer esquecer até hoje. Enquanto a carreira de atriz não deslanchava trabalhou no comércio e depois com um editor de revistas de moda - além de dedicar-se ao judô (esporte pelo qual chegou a participar de alguns campeonatos). Quando a vida artística voltou aos eixos foi  para uma participação em filmes pouco conhecidos como For love alone (1986), Flertando (1990) e séries de TV. Do seu período de anonimato os filmes mais conhecidos são (o legal) Matinee (1993),  Tank Girl (1995) e a voz usada em Babe 2 (1998). Mas, quando Naomi foi escalada para trabalhar com David Lynch em Mullholand Drive (1999) que as coisas mudaram de rumo. Está certo que MD era uma série de TV que acabou rejeitada, engavetada, reciclada e lançada só em 2001 com prêmios em Cannes e indicações a prêmios importantes como o Oscar. Mullholand Drive virou Cidade dos Sonhos e deu ao mundo uma atriz capaz de tirar o fôlego da plateia sobre o efeito da mente criativa de Lynch. O filme se tornou sucesso mundial e colocou Naomi no páreo pelos grandes papéis. Ela não parou mais, enfileirando o sucesso O Chamado (2002), o namoro com Heath Ledger nas filmagens de Ned Kelly (2003), trabalho com James Ivory em À Francesa (2003) e a consagração deifinitiva com  21 Gramas de Alejandro Gonzalez Iñarritú no mesmo ano. Este último lhe rendeu o prêmio de atriz em Veneza e sua merecida primeira indicação ao Oscar.  Naomi ainda ganhou espaço em produções independentes como na troca de casais de Tentação (2004), a participação especial em O assassinato de um presidente (2004) e exercitou seu lado cômico em Huckabees (2004) e Elle Parker (2005) - onde reviveu a personagem de um curta de 2001. Enfileirando vários projetos por ano ela ainda arranjou tempo para a continuação de O Chamado, ser a musa do  King Kong de Peter Jackson e uma das peças de A Passagem de Marc Foster - tudo isso em 2005. Workaholic assumida, ela diminuiu o ritmo em 2006, fazendo a voz de um dos coelhos do novo filme de David Lynch, Império dos Sonhos e tentou uma vaga no Oscar com O Despertar de uma Paixão. Se os prêmios ignoraram sua atuação, pelo menos nas filmagens ela conheceu o esposo Liev Schreiber, com quem está junto há seis anos. Depois do casamento, a atriz diminuiu o ritmo para dar conta das duas vezes em que engravidou (que gerou Alexander Pete em 2007 e Samuel em 2008), mas ainda assim arranjou tempo para atuar no remake de Violência Gratuita (2007) de Michael Haneke e o badalado Senhores do Crime (2007) de David Cronenberg, que vivem dizendo que terá uma continuação. Em 2009, com outra gravidez no currículo, sua partipação em Trama Internacional de Tom Tykwer foi modesta, mas não atrapalhou seu vigor no maternal Destinos Ligados de Rodrigo Garcia. Ano passado, Naomi quase trabalhou com Nicole Kidman em Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010) de Woody Allen, mas Nic acabou desistindo do papel por problemas de agenda. O filme de Allen foi exibido em Cannes assim como Jogo de Poder (2010), mas nenhum deles fez o sucesso esperado. Este ano, Naomi está em três filmes inéditos por aqui: A Casa dos Sonhos (ao lado do casal Rachel Weisz e Daniel Craig), The Ipossible (com Ewan McGregor) e o ambicioso J. Edgar de Clint Eastwood estrelado por Leonardo DiCaprio, Armie Hammer e Josh Lucas, que deve figurar entre os mais cotados para o próximo Oscar. Resta cruzar os dedos...

Naomi e Liev: de amantes na tela para o "casal mais feliz de Hollywood"!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

DVD: TWIN PEAKS - DEFINITIVE GOLD EDITION


David Lynch é um dos meus cineastas favoritos. Podem chamá-lo de picareta, enganador, pervertido que não estou nem aí. Podem me tacar pedra na rua, mas ainda acho que um cineasta de verdade é aquele capaz de construir narrativas inesquecíveis que ficam gravadas em nossa mente e não apenas um sujeito que diz “Ação” para os atores cuspirem o texto decorado diante de uma câmera. Lynch é um dos mestres da sétima arte e reconhecido como o pioneiro do surrealismo cinematográfico estadounidense, embora esteja desiludido ultimamente com a forma como os filmes de autor têm sido tratados em seu país (tanto que não lança um longa desde sua homenagem no Festival de Veneza em que lançou o radical Império dos Sonhos/2006), podemos perceber a influência do universo Lynchiano em sucessos recentes como A Origem de Chris Nolan, Cisne Negro de Darren Aronofsky além dos roteiros de Charlie Kauffman. Na década de 1990 o diretor foi convidado a realizar um programa para a televisão – numa época em que se alguém migrar do cinema para a TV era visto como decadência em Hollywood. Lynch se juntou ao parceiro Jack Frost para construir a história de um programa que recebeu carta branca da rede ABC (que estava à beira da falência) para fazer o que quisesse. Twin Peaks foi ao ar na páscoa de 1990 e fez história batendo recordes de audiência com um piloto de duas horas de duração (contando os comerciais) e uma pergunta que assombrava a audiência: “Quem matou Laura Palmer?”


Kyle e Lynch: terceira parceria.

Sempre me impressiono com o clima construído por Lynch em suas obras. Admiro a forma como consegue conduzir o lado sombrio de suas histórias com uma plasticidade que nos faz pensar porque cinema é uma arte. Digo cinema, apesar de ser um projeto televisivo, porque Twin Peaks foi pioneira a levar planos e ritmos cinematográficos para a TV. Muito do que vemos com sucesso na TV hoje, se deve a esse hibridismo pioneiro proposto por Lynch/Frost. Não serei o primeiro nem o último a dizer que sem Twin Peaks não existiria Arquivo X, Fringe e Lost (que flertam mais abertamente com a linguagem Lynchiana). Atrevo-me a dizer que sem Twin Peaks não existiria a possibilidade de produzir séries do porte cinematográfico de Família Soprano ou Six Feets Under, até mesmo as recentes aventuras televisivas de cineastas como Scorsese (Boardwalk Empire), Todd Haynes (Mildred Pierce) e Frank Darabonts (The Walking Dead). Acho que não preciso dizer mais sobre a importância de Twin Peaks sobre a cultura pop e sua influência na qualidade da TV americana. A série fez história com sua trama cheia de camadas, interpretações, crimes e mistérios e mostrou algumas das cenas mais estranhas que já foram feitas para a telinha. Twin Peaks é uma cidadezinha americana fictícia que fica perto do Canadá, a abertura da série explora a melancolia da trama com suas locações e trilha sonora. Pássaros, árvores e cascatas são mostrados evidenciando o aspecto bucólico do lugar, não precisa muito mais do que isso para percebemos que trata-se de uma cidade tranqüila com pouco mais de cinqüenta mil habitantes. A paz do lugar é ameaçada pela morte de uma jovem popular na cidade, Laura Palmer (Sheryl Lee) e a chegada de um agente do FBI que começa a deixar a população nervosa - já que qualquer um pode ser o assassino e, por isso mesmo, suas vidas são vasculhadas em busca de evidências, com isso as excentricidades e segredos de seus personagens ganham cada vez mais força. Kyle MacLachlan (um dos atores favoritos de Lynch que esteve presente no cultuado Veludo Azul/1986 e o mal compreendido Duna/1984) interpreta magistralmente o agente excêntrico Dale Cole, que busca uma resposta para o crime. Nesse processo conta com parceiros fiéis como o delegado Harry (Michael Ontkean), o policial chorão Andy (Harry Goaz) e a secretária tagarela Lucy (Kimmy Robertson). A lista de suspeitos é gigantesca e no piloto da série eles são expostos - sem perder de vista que Palmer era uma garota que guardava segredos perigosos em sua vida amorosa, envolvendo drogas e prostituição. O piloto da série coloca todas as fichas da série na mesa e o sucesso fez com que Lynch e Frost fossem convidados a dar continuidade ao projeto, com uma temporada de sete episódios que fez história na TV. 
TWIN PEAKS - PILOTO: "NORTHWEST PASSAGE" (1990)☻☻☻☻

Os mocinhos: flerte com o sobrenatural e com belas mulheres.

A primeira temporada de Twin Peaks virou uma febre, foi a mais falada, a mais comentada e badalada da década de 1990. Elegeu musas em seu núcleo jovem (as saborosa Lara Flynn Boyle era a melhor amiga de Palmer e a suculenta Sherilyn Fenn era a colegial perigosa que morre de amores pelo agente Cole - ambas conseguiram até alguns projetos no cinema depois que a série terminou) e deu oportunidades para que Lynch ampliasse seu público em cenas hipnoticamente bizarras como as do sonho de cortinas vermelhas de Cole, o anão que fala e se move ao contrário, além de sugerir a existência de um mal existente que independe da vontade de quem o pratica. Além de todos os mistérios e audácia narrativa o que mais enche os olhos ao ver a primeira temporada é a qualidade da trama. São tantas camadas, referências e subtextos que é irresistível a atmosfera construída pela produção – sem falar que o filme dialoga diretamente com as outras obras do diretor (a presença dos sonhos, as alucinações, as fendas e orifícios, a duplicidade bem/mal, anjo/demônio de seus personagens, gritos, silêncios, trilha sonora magnífica de Angelo Badalamenti). Há muito de filosófico na série – e as introduções dos capítulos realizadas pela Mulher do Tronco (Catherine Coulson) é um bom exemplo disso. No último capítulo da temporada todos os ganchos possíveis para a segunda foram lançados. Porém, apesar de todas as expectativas e ideias lançadas o seriado teve uma queda brutal de audiência e perdeu muitas de suas qualidades nos episódios seguintes. Acho que o fato de ter 22 episódios fez com que tudo perdesse o ritmo e se tornasse exaustivo demais, isso sem falar pelos outros problemas enfrentados no caminho. A curta primeira temporada sobre a supervisão de Lynch/Frost deu a oportunidade para que vários diretores exercitassem sua criatividade narrativa durante a produção dos episódios – e para manter os mistérios os atores recebiam somente trechos de cada episódio. Tudo funcionava perfeitamente até que os exageros desenfreados acabaram destruindo a originalidade do seriado no ano seguinte. A obscuridade e o estranhamento constituíam a alma e a certa dose de humor de Twin Peaks. 
TWIN PEAKS - PRIMEIRA TEMPORADA (1990) ☻☻☻☻

Palmer: anjo ou diabo?

Curiosamente enquanto a primeira temporada virava mania pelo mundo, era exibida a segunda em que o seriado acabou se tornando uma autoparódia. A segunda temporada vale ser vista somente pelos primeiros e últimos capítulos (o que deve somar mais ou menos o número de episódios da primeira). Lynch falou muito que o assassino jamais deveria ser revelado, essa dúvida era a grande alma do programa, ela percorria todas as subtramas e fazia os personagens tão interessantes, afinal, enquanto não provassem a inocência perante o público, todos eram culpados. Nos primeiros episódios da segunda temporada descobrimos quem matou Laura Palmer – e apesar da descoberta do assassino lançar um novo mistério na trama, este mostrou-se menor para o interesse do público. Também não ajudou o fato de (por problemas interpessoais) não avançarem no novo foco da temporada: o envolvimento de Audrey (Sherilyn Fenn) e o agente Cole (MacLachlan), juntando isso ao distanciamento (por pirraça da revelação do assassino de Laura?) de Lynch (que zelava por Coração Selvagem/1990) e Frost (que investia em seu primeiro longa metragem) fez com que tudo saísse do eixo, com esquisitices vazias, piadas em exagero, personagens subaproveitados, resgate de outros que ninguém lembrava e um exagero de convidados especiais que fez tudo parecer uma novelinha aguada com direito a doninhas agressivas, mulheres caolhas com super-poderes e um rival do passdo de Cole que parece saído de um filme dos Trapalhões. Tudo que a série havia conquistado foi para o lixo e as constantes mudanças de horários não ajudava. É chocante o desleixo com que a série foi tratada no meio desta temporada. Diante do abacaxi, Lynch e Frost tomaram as rédeas da coisa na reta final, tentando evitar o inevitável, quando a temporada chegou ao seu derradeiro episódio final tentou se resgatar o clima inicial, os mistérios e as ideias presentes no subconsciente de seus personagens (mesclando o bem e o mal na figura confiável do agente Cole num gancho para a terceira temporada que nunca foi produzida). O último episódio é um dos melhores da série e deixou claro, que não é qualquer um que pode brincar de David Lynch. Afim de dar um final digno para sua obra, Lynch realizou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire walk with me / 1992) que padeceu com críticas pífias e que alegavam ser mais do mesmo, mas os fãs da primeira temporada gostaram do filme e perceberam novas revelações sobre os personagens que acompanharam em uma das séries mais inventivas de todos os tempos - para quem leu o livro do cineasta sobre meditação, a série fará ainda mais sentido. TWIN PEAKS - THE DEFINITIVE GOLD BOX EDITION traz muitos extras sobre (participação no Saturday Night Live, comerciais, entrevistas...) mas não conta com a participação de todos os atores (será que ficaram magoados com o processo de banalização da série?), é um box de colecionador que só não é mais completo por conta de não conter o longa dirigido por Lynch no ano seguinte em que a série terminou (o qual fico devendo uma resenha, mas diante do meu maior post de todos os tempos acho que você não vai se importar...).
TWIN PEAKS - SEGUNDA TEMPORADA (1991) ☻☻  
TWIN PEAKS - EXTRAS ☻☻


TWIN PEAKS – THE DEFINITIVE GOLD BOX EDITION (2010) produzido por David Lynch e Mark Frost, com Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Ray Wise, Richard Beymer, Grace Zabriskie, Joan Chen, Piper Lauren, Mädchen Amick, David Lynch e David Duchovny.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

PL►Y: Império da Luz

 
Michael e Olivia: a química do cinema. 

Faz um tempinho que Sam Mendes está doido para colocar outro Oscar na estante. Desde seu aclamado filme de estreia, o estupendo Beleza Americana (1999), alguns de seus filmes até caíram no radar do Oscar, mas mesmo quando chegou perto em 2021 com 1917, os prêmios foram apenas para categorias técnicas. Ano passado ele tentou novamente com Império da Luz, produção que investe em um tema recorrente da Hollywood atual: nossas memórias afetivas com o cinema. Nos últimos anos vários diretores fizeram obras que declaram amor ao cinema alcançando resultados variados,  (da aclamação de Os Fabelmans/2022 ao desprezo absoluto de Era Uma Vez em Staten Island/2021), o diferencial de Império da Luz é que ele gira em torno dos funcionários de um cinema das antigas. O Empire é uma daquelas salas enormes, que cabia centenas de pessoas, com andares diferenciados e servia para eventos dedicados às grandes estreias. Localizado de frente para o mar, sua ambientação ficava ainda melhor na Inglaterra dos anos 1980. Lá que trabalha Hilary (Olivia Colman, lembrada no Globo de Ouro), que tem um caso com o patrão (Colin Firth) e não parece muito feliz com sua vida atual. As visitas ao psiquiatra demonstram que a situação dela já está complicada faz algum tempo. Quando chega um novo funcionário, Stephen (Micheal Ward), ela demonstra interesse por ele que aos poucos se intensifica, porém, o crescimento do número de supremacistas na localidade começa a assustar e ameaçar os planos do rapaz. Império da Luz parece então que irá se tornar um romance inter-racial com verniz de crítica social, mas desvia por outros caminhos quando sua protagonista demonstra ter uma saúde mental cada vez mais fragilizada. É nesta parte que o filme ao invés de crescer, murcha. A sorte é que Olivia Colman apresenta seu talento de sempre e Micheal Ward é capaz de fazer seu personagem crescer mesmo que o roteiro faça pouco por ele. Existe uma química entre o casal de atores que faz o filme parecer melhor do que é em sua abordagem um tanto apressada de problemas sérios e que não encontram um desenvolvimento adequado. Colabora muito para o trabalho dos atores em um texto que beira o insosso é a fotografia do mestre Roger Deakins (em sua 16ª indicação ao Oscar) que emoldura aquele cinema como se fosse um cenário de sonho, mas que se contamina com a realidade com seus pombos e vidros quebrados. Essa relação do cinema como local dos sonhos frente à dura realidade também é a responsável pela falada cena de Colman assistindo Muito Além do Jardim (1979) e esquecendo suas mazelas frente ao que é projetado. Para um filme tão ambicioso, parece pouco, e realmente não é muito - mas é feito no capricho.

Império da Luz (Empire of Light / Reino Unido - EUA) de Sam Mendes com Olivia Colman, Micheal Ward, Colin Firth, Toby Jones, Tom Brooke, Tanya Moodie e Crystal Clarke. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

10 + 4EVER: David Lynch

 20 de janeiro de 1946 ✰ 15 de janeiro de 2025
 
Nascido na cidade de Missoula no estado de Montana, David Keith Lynch veio de uma família de situação econômica confortável. Filho de um pesquisador do departamento de agricultura e uma professora de inglês, sua família teve origem na Finlândia e David teve uma educação presbiteriana enquanto morou em diversas partes dos Estados Unidos. O constante deslocamento desenvolveu no jovem Lynch um constante olhar de estranhamento ao que para muitos era visto como natural, despertando sua curiosidade para o que estava abaixo da superfície das aparências do american way of life (um dos aspectos mais marcantes de sua cinematografia). Quem quiser conhecer um pouco mais de como o diretor moldou o seu estilo, pode procurar o documentário David Lynch: A Vida de Um Artista (2016), que demonstra como ele se tornou um mestre em lidar com cenas do imaginário, o flerte constante entre o sonho e o pesadelo, o surrealismo e um casamento inesperado entre o belo e o bizarro. Embora não lançasse um longa metragem desde 2006, Lynch permaneceu ativo nos últimos anos, realizando clipes, curtas, exposições e produções musicais, além de ter seguido inspirando jovens cineastas, como Coralie Fargeat (A Substância) e Jane Schoenbrun (Eu Vi o Brilho da TV). Lynch é um artista multifacetado, que deixa uma obra imortal incrível e deixa de ser um dos maiores nomes do entretenimento para se tornar um dos deuses do Cinema. Em homenagem a um dos meus cineastas favoritos, relembro aqui minhas dez obras favoritas (e somente sua rejeitada versão de Duna/1984 ficou de fora). Nem todos os filmes abaixo possuem resenhas aqui no blog, mas ao longo do ano irei postar os que ainda não foram comentados em homenagem ao cineasta:
 
#10 "Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer " (1992)
Se a série Twin Peaks degringolou quando Lynch precisou se afastar para voltar para seus trabalhos no cinema, o diretor tentou compensar os fãs perante a horrorosa segunda temporada com este filme que decepcionou porque muitos imaginaram que traria explicações sobre os mistérios da trama. Na verdade, Lynch faz exatamente o contrário, deixando tudo ainda mais complexo e cheio de camadas sobre a morte da bela estudante Laura Palmer na pacata cidade de Picos Gêmeos. 
 
Em seu filme de estreia, Lynch já deixava claro que não queria que esperassem dele uma história convencional com começo, meio e fim ou algo realista. Em menos de hora e meia de duração, o diretor de 31 anos já caprichava na história de Henry Spencer (Jack Nance) um homem aparentemente comum que precisa lidar com um bebê que não para de chorar enquanto conhece personagens bastante, digamos, peculiares. Rotulado de terror surrealista, o filme não fez sucesso em seu lançamento, mas ao longo do tempo gerou curiosidade e se tornou um filme cultuado que já demonstrava o talento do diretor em lidar com estranhezas narrativas. 

Reza a lenda que a ideia do filme surgiu quando Laura Dern mencionou o nome da cidade natal de seu esposo (Inland Empire) em uma conversa. A mente de Lynch divagou imediatamente sobre o nome daquela cidade e construiu aquele que seria seu último longa-metragem. Uma coleção de cenas sobre uma atriz que não sabe distinguir o que é realidade, sonho, memória ou ficção. O resultado pode até soar caótico, mas é uma verdadeira aula de como construir um cinema atmosférico enquanto mescla mistério ao drama de sua personagem. O filme também ficou famoso pela campanha solitária de Lynch para conseguir uma indicação ao Oscar para sua musa-mor: Laura Dern. 
 
#07 "Coração Selvagem" (1990)
David Lynch estava no auge após o sucesso da série Twin Peaks e se afastou da série para criar mais um longa-metragem. Se o programa de TV saiu perdendo, Lynch levou a Palma de Ouro do Festival de Cannes ao contar a história de amor entre Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern) enquanto fogem de um assassino pelas estradas dos Estados Unidos. O filme se tornou mais um marco da forma como Lynch desbrava a superfície do American Way of Life, rendeu uma indicação para Diane Ladd (mãe da Laura no filme e fora dele) no Oscar de coadjuvante e ainda revelou para o mundo a icônica música Wicked Game de Chris Isaak. Um clássico. 
 
#06 "Uma História Real" (1999)
Depois de tantos filmes criando o casamento perfeito entre o belo e o bizarro, o cineasta surpreendeu todo mundo por fazer exatamente o que ninguém esperava dele. Ele pegou a história real de um senhor com mais de setenta anos, Alvin Straight (Richard Fansworth), que está cheio de problemas de saúde e, imaginando que o inevitável está cada vez mais perto, ele planeja viajar mais de quatrocentos quilômetros para encontrar um irmão com quem não fala há tempos. Só que, como sua licença de motorista foi retirada, ele fará todo o trajeto em seu cortador de grama! Embora seja completamente diferente de seus outros filmes, Lynch consegue imprimir ao filme uma atmosfera de sonho que aumenta ainda mais o lado emocional da história. Fansworth se tornou o ator de maior idade indicado ao Oscar de melhor ator até então e Lynch ainda adorou o trocadilho do filme em inglês The Straight Story (traduzindo: A História Careta). 

Lynch ficou cinco anos sem dirigir um longa metragem e, se desconsiderarmos que seu filme anterior ainda estava vinculado a Twin Peaks, o diretor completava sete anos sem apresentar material inédito aos fãs. Por conta disso, este aqui se tornou bastante importante para toda uma nova geração de fãs que não sabiam do que o diretor era capaz. O longa conta a história de um músico (Bill Pullman) que é assombrado por um crime terrível envolvendo a esposa (Patricia Arquette). Sua dor é tão grande, que no corredor da morte, ele se transforma em outra pessoa (Balthazar Ghety) que irá se apaixonar por Alice (a mesma Patricia Arquette) em um mundo diferente do anterior. Esteticamente o filme é impecável e as obsessões de Lynch entre o sonho e a realidade permanecem funcionando que é uma beleza. 

David Lynch foi fundamental para criar toda a atmosfera desta série que marcou época em um período em que quem era consagrado no cinema não migrava para projetos na televisão. No entanto, Lynch só dirigiu dois episódios na primeira temporada (o primeiro e o terceiro) e quatro na segunda temporada quando uma série de pessoas despreparadas assumiram o programa para fazer bobagem (ao ponto de contarem o grande mistério no meio, inserir um bando de subtramas que não interessavam a ninguém e fazer um programa sensacional se transformar em uma novela desconjuntada). Sorte que Lynch voltou e tentou colocar as coisas nos eixos. O cineasta ainda participou de vários projetos baseados na misteriosa morte de Laura Palmer, com um retorno do agente Dale Cooper (Kyle McLachlan) dando continuidade ao destino sombrio de seu personagem depois de quase trinta anos. 

Depois da consagração absoluta com Homem Elefante e todos os aborrecimentos com a adaptação encomendada de Duna (1984), Lynch precisava relaxar e foi quando realizou um dos seus trabalhos mais referênciais. Veludo Azul foi protagonizado por sua então namorada, Isabela Rosselini (belíssima e premiada com o Independent Spirit daquele ano) encarnando uma cantora que teve o filho sequestrado por um grupo de criminosos. O caminho dela cruza com o do bom moço Jeffrey (Kyle MacLachlan) e a namorada, Sandy (Laura Dern) e a colisão desses dois mundos de atmosferas tão distintas acontece por conta de uma orelha perdida!!!! A maestria com que Lynch conduz  a narrativa lhe valeu a segunda indicação ao Oscar de direção. 
 
Lembro até hoje quando encontrei este filme em DVD em uma banca de jornal nos tempos da faculdade e fui para aula ansioso para assistir ao chegar em casa. Lynch faz um filme arrebatador baseado na vida de John Merrick, que possui sua aparência desconfigurada por conta de uma severa doença. Descoberto por um médico (vivido por Anthony Hopkins), Merrick  (magistral trabalho de John Hurt) passa de atração de circo para atração científica e passa por situações que só revelam que por baixo de sua aparência, existe um coração de ouro incompreendido lidando com um mundo cruel. Este foi o segundo longa do cineasta e o projetou mundialmente recebendo oito indicações ao Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora. Talvez este seja o filme mais querido do diretor. 

Talvez seja pelo fato de ser o único da lista que assisti no cinema que o sonoro Mullholand Drive fica no topo de minha preferência. Lembro até hoje quando  assisti no cinema da faculdade o filme com minha amiga Alê e ter a sensação da plateia inteira absorvida em silêncio até após subirem os créditos. Havia acabado de participar de uma hipnose coletiva? Concebido para ser um programa de televisão, a ideia foi cancelada pelos produtores que não compraram a ideia de uma jovem atriz (Naomi Watts arrasadora e chegando ao status de estrela que merecia com o papel) e uma bela atriz desmemoriada (a bela Laura Harring) que ficam amigas em Hollywood. Lynch pegou o material que havia filmado e criou cenas adicionais, fazendo um verdadeiro deleite para quem curte seu cinema entre sonho, pesadelo, o inconsciente, o delírio, a ficção e a realidade. Cheio de simbologias sobre a forma como o cinema mescla todos os elementos citados, Lynch levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e foi indicado mais uma vez ao Oscar de melhor direção. Nascia um filme digno de culto.

sexta-feira, 21 de março de 2025

KLÁSSIQO: Eraserhead

 Jack Nance: alter-ego de David Lynch em estreia perturbadora. 
 
Acho que é lugar comum falar da estranheza nos filmes de Davi Lynch. O diretor que nos deixou no início de 2025, sempre fez questão de construir em seus filmes um tom sinistro, quase sempre pesadelesco, que servia de verniz para personagens que viviam em suas vidas comuns, geralmente com uma estética que lembrava muito o cinema feito antes dos movimentos de contracultura (mais ou menos por ali entre os anos 1950 e início dos 1960). Lynch criava assim uma espécie de choque imagético, uma característica que fez do seu cinema algo único, diferente, inusitado, surreal e brilhante (tanto no sentido de genialidade quanto na capacidade de ter o brilho próprio de se renovar a cada nova visita e releitura de uma obra). Esta marca já está evidente em seu primeiro filme, Eraserhead, que foi um fiasco de público justamente por romper com o realismo tão presente no cinema dos EUA. Imagina que você está em 1977, a nova Hollywood estava latente com nomes feito Spielberg, de Palma, Coppola, Scorsese e no meio dos lançamentos do primeiro Star Wars, das danças de Os Embalos de Sábado a Noite, dos efeitos de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e da graça (posteriormente oscarizada) de Noivo Neurótico e Noiva Nervosa você de deparasse com um filme em preto e branco, com um homem de topete gigantesco às voltas com uma série de personagens estranhos, incluindo, um filho que nasceu parecendo tudo, menos um bebê? Revisitei recentemente Eraserhead porque sempre tive receios de escrever sobre ele, já que, posso dizer que é o filme mais estranho de Lynch (mais do que Império dos Sonhos/2006 que fica em um honroso segundo lugar e, ironicamente, é seu último longa) e sempre deixa a sensação de que nunca serei capaz de entendê-lo completamente (mas também acho que a graça está justamente aí, já que David odiava explicar seus filmes e deixava que os espectadores divagassem sobre o que se via na tela). O longa revela-se cada vez mais sensorial ao mesmo tempo que afasta-se de ser apenas um filme experimental de um estudante de cinema. O filme conta a história de Henry (Jack Nance), um homem que vive em um pequeno apartamento em uma área industrial abandonada. Ele engravidou a namorada e por conta disso teve que casar e, agora, os dois precisam cuidar de um bebê que chora o tempo inteiro e tem uma aparência, digamos, diferente do que se esperava. A narrativa é conduzida por todo o desconforto do protagonista em uma realidade completamente onírica e surrealista, com personagens estranhos que movimentam um filme anticonvencional, mas que traz simbologias que nos fazem perceber a relação daquilo tudo com a fertilidade, a paternidade, o destino de um filho e relações familiares. Lynch já era apaixonado por artes plásticas quando realizou o filme (com o apoio da American Film Institute, instituição em que estudava) e isso explica muito das texturas que o filme experimenta diante da câmera. Com o tempo, todas as ressalvas feitas ao filme em sua estreia garantiram uma curiosidade ao redor da produção e uma aura de filme cult, sobretudo quando ao longo do tempo vimos a forma como Lynch pensa seu cinema e as sensações que pretende despertar na plateia. Algumas marcas de seu cinema (os personagens misteriosos, o chão xadrez, as cortinas, o palco do inconsciente...) já aparecem por aqui e quem conhece a vida particular do diretor, relaciona Henry e seu filho com a própria situação do diretor perante um problema de saúde vivenciado por sua primogênita logo após o nascimento. O peso da responsabilidade e da insegurança devido àquela situação parece ter sido a maior inspiração para todos os temores que atravessam a narrativa (ternamente) perturbadora do filme. 
 
Eraserhead (EUA - 1977) de David Lynch com Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates, Leurel Near e Jack Fisk ☻☻   

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

.Doc: David Lynch - A Vida de Um Artista

Lynch: enfrentando os temores do passado. 

O primeiro filme que vi de David Lynch foi Coração Selvagem (1990) e tive a impressão de que não entendia nada do que estava acontecendo, mas não conseguia parar de assistir. A partir dali percebi que Lynch era um sujeito diferente. Infelizmente ele andava sumido até aparecem em Cannes neste ano para divulgar a terceira temporada da série Twin Peaks depois de um hiato de vinte e seis anos sem episódios. Lynch foi tão aplaudido quando exibiu os dois primeiros episódios da série que dava gosto de ver o seu sorriso. Desde o viajandão Império dos Sonhos (2006) que ele não lança um filme, no entanto, não parou de trabalhar. Dirigiu vídeos, curtas, clipes (para Moby, Interpol, Nine Inch Nails...), produziu algumas músicas e dedicou-se ainda mais às artes plásticas. Este documentário de Jon Nguyen destaca o envolvimento do artista com esta sua carreira paralela, ressaltando este seu gosto desde a infância quando a mãe deixava que ele desenhasse o que bem entendesse ao invés de pintar livros de gravuras. Se por um lado os fãs podem sentir falta de maiores comentários sobre seus filmes (e todo mundo sabe que Lynch não curte falar muito sobre seu cinema cheio de mistérios), por outro, poderão entender muito sobre o estilo peculiar do celebrado cineasta. Na entrevista que perpassa todo o filme, conhecemos a sua história de típico menino americano de um lar confortável ao lado da família no estado de Montana. Desta criação que surgiu o seu lado mais cavaleiro, educado de fala calma e inofensiva. No entanto, desde pequeno, Lynch precisou acompanhar sua família por várias cidades americanas e não há como não perceber o tom sombrio com que pinta Filadélfia ou alguns vizinhos cujas imagens o assombram até hoje (sobre um deles ele sequer consegue contar o que houve de tão chocante). As coisas não estavam muito bem com as pessoas que conhecia pelo caminho, mas  ao conhecer o pai pintor de um amigo que Lynch percebeu uma forma de extravasar seu olhar peculiar sobre o mundo. Foi através dos desenhos que o adolescente começou a construir sua identidade artística - e o gosto pelo que a maioria das pessoas consideraria sombrio, bizarro e até grotesco. Nos comentários de Lynch podemos perceber os pontos de onde nasceram vários traços de seus filmes, as estradas perdidas, as trocas de identidade, os mundos paralelos, os personagens pesadelescos, as narrativas sombrias com a presença do desconhecido sempre à espreita. É curioso como o filme fala pouco da atual vida particular do artista (no máximo percebemos que ele tem uma filha pequena, hoje com cinco anos). O filme concentra-se especialmente na vida de David ao lado dos pais e dos irmãos. Não deixa de ser tocante quando na adolescência ele percebe que a mãe está decepcionada pelos caminhos que seguiu, ou o pai chocado perante o que ele guarda em seu ateliê particular - com frutas em decomposição e outras coisas que estavam ali apenas para ser observadas em sua destruição. Ali, fica claro que Lynch não tem pudores em enfrentar o que causa medo na maioria das pessoas, ele enfrenta esses elementos e os transforma na matéria prima de seus trabalhos surrealistas. Nos seus primeiros curtas, percebe-se como a transição das telas de pintura para as telas de cinema ocorreu de forma bastante natural, tendo em sua cultuada estreia em Eraserhead (1977) como o retrato em movimento do seu mundo particular. O filme termina neste ponto e se você considera a obra de Lynch perturbadora é melhor nem assistir, mas se você quer conhecer um pouco mais da história por trás de suas referências, torna-se um programa imperdível. 

David Lynch: A Vida de Um Artista (David Lynch - The Art Life/EUA-Dinamarca/2016) de Jon Nguyen com David Lynch. ☻☻☻

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

LADIES & GENTLEMEN: Laura Dern

Laura Dern é uma atriz do tipo que se você acompanhar a carreira logo se torna uma das suas favoritas, ou pelo menos entra em sua lista de mais interessantes. Filha dos atores Bruce Dern e Diane Ladd, Laura parece ter os genes interpretativos impregnados em cada célula de seu corpo, o que lhe confere uma desenvoltura incomum em todo tipo de personagem. Nascida em 10 de fevereiro de 1967, loura e esguia, Dern é a atriz favorita de David Lynch, o estranho diretor que saiu às ruas pedindo uma indicação ao Oscar para ela após sua atuação em Império dos Sonhos (2006). Antes ela já havia trabalhado com o diretor no clássico Veludo Azul (1986) e em Coração Selvagem (1990) - é nas mãos dele em que a atriz aparece explorando os limites de sua profissão. Mas nem só de Lynch vive a carreira de Laura. Se no início ela teve participações não creditadas em obras protagonizadas por sua mãe - como Alice, Não mora mais aqui (1974) de Scorsese - as coisas começaram a mudar quando Lynch lhe convidou para ser mocinha certinha de Veludo Azul e seus papéis começaram a receber cada vez mais destaque ao ponto de em 1992 ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua delicada atuação em As Noites de Rose, onde contracena com Robert Duvall. Apesar disso, o maior sucesso  comercial de sua carreira veio em seguida quando Steven Spielberg a convidou para ser a doutora Ellie Satler em Jurassic Park (1993). A personagem lhe garantiu uma aparição rápida em Jurassic Park 3 (2001) e na próxima aventura dos dinos prevista para 2012. A atriz ainda serviu para dar alguma dignidade ao melodrama Um Mundo Perfeito (1993) dirigido por Clint Eastwood. Devo confessar que meu papel favorito de Laura Dern é Ruth Stoops na estréia de Alexander Payne na direção: Ruth em Questão (1996), uma provocativa dramédia sobre aborto, onde a atriz está inesquecível como uma desajustada que vira motivo de embate entre grupos pró e antiaborto. Pela atuação Laura recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Montreal, mas infelizmente ficou de fora da lista do Oscar. Laura sempre foi mais chegada às produções independentes e consollidou essa imagem ao participar de projetos como Dr. T e as Mulheres (2001) de Robert Altman, Focus (2001) e O Céu de Outubro (1999) - filmes modestos, mas que sempre lhe renderam elogios.  Em 2001 foi a mãe adotiva de Dakota Fanning em Uma Lição de Amor - onde apareceu ao lado de Sean Penn  e Michelle Pfeiffer - e três anos depois apareceu ao lado de Naomi Watts (outra musa de Lynch) no drama Tentação, onde dois casais de amigos enfrentam o adultério. Depois de algumas produções independentes que não estrearam por aqui ela apareceu no ótimo filme televisivo Recontagem (2008) que lhe valeu o terceiro Globo de Ouro de sua carreira. A atriz  deve aparecer em breve nas telas tupiniquins em Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família (2010), terceira comédia de Ben Stiller sendo perseguido por Robert DeNiro. Entre dramas, comédias, indies, superproduções e produções para TV, Laura já provou que é uma das mais versáteis de sua geração.

Ruth em Questão: atuação brilhante.

domingo, 8 de agosto de 2010

FILMED+: A ORIGEM


 A Origem deve ser o filme mais aguardado do ano, afinal de contas todo mundo ficou de boca aberta mesmo sem entender nada do que estava vendo no trailer criado pela equipe do cineasta Christopher Nolan. Vi o filme na sexta-feira no seu lançamento, na primeira sessão e até agora estou tentando digerir o que eu vi. Não que eu considere o filme difícil de ser entendido, de fato as várias camadas narrativas tornam a trama complexa, mas Nolan tem habilidade de sobra para lidar com essas coisas, afinal quem viu Amnésia - que ficou conhecido como o "filme de trás para frente" sabe do que o cara é capaz. Mas Inception foi produzido logo após o grande sucesso do cineasta: Batman - O Cavaleiro das Trevas que rompeu a barreira do bilhão na bilheteria mundial e rendeu críticas para a Academia Hollywoodiana que o esnobou na categoria principal. Diante desse quadro é possível que o filme de Nolan esteja entre os dez indicados do Oscar no ano que vem e a academia possa se redimir não só do que fez com seu Batman, mas com o próprio Amnésia que perdeu o Oscar de roteiro - por que nem Christopher e seu irmão Johnatan Nolan (que assinavam a escrita do filme) eram afiliados ao sindicato. Politicagens a parte, A Origem é um espetáculo visual e cinematográfico. Evidente que você irá identificar um mundo de referências na trama do filme: David Lynch, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, Matrix, 007, Quero Ser John Malkovich, 11 Homens e um Segredo... mas a graça de tudo é como Nolan manipula todas essas referências e nos oferece uma esperiência única por mais de duas horas na sala escura. Pode-se dizer que ele mescla nossa experiência ao ver o filme com a atividade de sonhar, ou que nos proporciona a mesma sensação de seus personagens, que confunde nossa cabeça propositalmente para não nos darmos conta dos problemas que seu roteiro pode ter, o fato é que o diretor sabe exatamente o que fazer para segurar a nossa atenção durante toda a projeção, aprisionar nosso fôlego até que o fim do filme chegue e não se tenha certeza que terminou. A crítica americana fingiu não entender o que viu ou apenas se acostumou aos filmes bobocas que assolam o ano de 2010? Eles que me desculpem, mas no universo de Nolan tudo me soa coerente e extremamente coeso. O filme pode ser visto como um filme pipoca bem elaborado, mas pode também ser encarado como uma grande analogia sobre nossa atividade de sonhar diante de uma tela de projeção - além das entrelinhas revelarem que Nolan não quer só entreter, mas nos fazer pensar acima de tudo.  

Joseph Gordon Levitt: Mais elegante que o Homem Aranha

A história se concentra num ladrão de sonhos, ou melhor um extrator (Leonardo DiCaprio), mas dessa vez ele recebe uma missão diferente: inserir uma idéia na mente de alguém, uma idéia capaz de dilulir o império empresarial milionário herdado por um rapaz (Cillian Murphy). Mas ele é incapaz de encarar essa missão sozinho, ainda mais com o grau de risco que assume (que o fará criar três camadas de sonho). Na equipe desse ladrão ainda está uma espécie de segurança pessoal (Joseph Gordon Levitt, que cria um dos personagens mais elegantes da história do cinema), um simulador (Tom Hardy, que promete fazer barulho nos próximos anos), uma arquiteta de sonhos inexperiente (Ellen Page), um químico capaz de dar-lhe o tempo necessário para a missão, além do empresário que encomendou a missão que é chamado nos posteres de "O Turista" (Ken Watanabe). Sem falar na involuntária sombra (Marion Cotillard, magnífica como sempre) carinhosamente chamada de Mal (engraçado que com o título nacional a coisa toda parece girar em torno da Origem de Mal) que coloca em risco as missões do extrator. Cada personagem tem sua função na narrativa e por vezes se revelam verdadeiros símbolos de nosso inconsciente coletivo - e nesse ponto as atuações precisas ajudam muito, além das pegadinhas que o diretor coloca em cena sobre os seus atores (a música de Piaf que os desperta do sonho, uma paródia de uma cena de Titanic, a bolsa de Gordon Levitt de 500 dias com ela, as ruas vazias de Extermínio na arquitetura dos sonhos de Cillian Murphy... ou seja, o cinema nos provoca essas inserções, tal como o protagonista almeja fazer). Nolan acerta mais uma vez e a trilha sonora de Hans Zimmer completa essa viagem que queremos repetir assim que acaba a sessão. No mínimo, espero que não só os efeitos especiais sejam lembrados no Oscar do ano que vem.

A Origem (Inception/EUA-2010) de Christopher Nolan com Leonardo Dicaprio, Joseph Gordon Levitt, Ellen Page, Marion Cotillard, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Ken Watanabe, Nicholas Haas e Tom Berenger. Estreou dia 06/08/2010. Cotação: ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

N@ Capa: Nighthawks


Edward Hopper nasceu nos Estados Unidos no ano de 1882 e faleceu em 1967. Em vida ficou famoso como pintor e artista gráfico que se especializou em retratar a solidão da contemporaneidade em suas obras - seja utilizando cenários urbanos e rurais. A obra mais famosa de Hopper, a cultuada Nighthawks (ou "Gaviões da Noite") se tornou uma das obras mais reconhecidas da arte estadounidense. Reza a lenda que Hopper começou a pintá-la logo após o ataque a Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941) e a tristeza que sentia ao seu redor foi retratada na obra com rua vazia e algumas pessoas conversando dentro do restaurante, aparentemente desamparados em seus pensamentos. Alguns meses após finalizar a obra, ela foi vendida para o Instituto de Arte de Chicago e permanece lá até hoje. A capa que ilustrou o blog nos meses de outubro e dezembro foi uma espécie de coletânea sobre paródias da obra de forte apelo na cultura pop. Existem inúmeras paródias na internet, vale procurar:


"Nighthawks" de Edward Hooper


Versão Clube dos Cinco.


Se o Flash abrisse uma lanchonete e recebesse a Liga da Justiça?


O pessoal de O Grande Lebowski também curte a noite... 

... e o povo de Star Wars também se confraterniza por lá!


Para onde fogem os coelhos do Império dos Sonhos de David Lynch.

Quando abriram uma filial dentro da U.S. Enterprise.




Dean, Bogart, Marilyn e Elvis se reencontram.


Homer saboreia as últimas rosquinhas do dia!


Onde os robôs bebem o melhor óleo da cidade!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

CENTØPÉDIA: FILMED+ (Parte I)

Nos cinco anos e sete meses do blog alguns dos meus filmes favoritos apareceram nos Filmes D+, aqueles longas que receberam a maior cotação por aqui. Muitos outros irão aparecer, mas os listados abaixo são os que compõem a primeira centena de filmes que considero obrigatórios:

(ordem alfabética)

A Árvore da Vida de Terrence Mallick
Adaptação de Spike Jonze
Adeus, Lenin! de Wolfgang Becker 
A Estrada  de John Hillcoat
Almas à Venda de Sophie Bartes
Amnésia de Christopher Nolan
Amor à flor da Pele  de Wong Kar-wai
A Origem de Christopher Nolan

Apenas o Fim de Matheus Souza
À Procura de Sugar Man  de Malik Bendjelloul
A Rosa Púrpura do Cairo  de Woody Allen
Asas da Liberdade  de Alan Parker
As Bicicletas de Belleville de  Sylvain Chomet
As Horas de Stephen Daldry
A Solidão dos Números Primos de Saverio Constanzo
A Viagem de Chihiro de Hayao Miyazaki
A Vida dos Outros de Florian Henckel von Donnersmarck
Batman - O Cavaleiro das Trevas  de Christopher Nolan

Beleza Americana de Sam Mendes
Bem Vindo à Casa de Bonecas de Todd Solondz
Birdman de Alejandro Gonzalez Iñárritu
Boogie Nights de Paul Thomas Anderson
Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças de Michel Gondry
Cabaret de Bob Fosse
Cidade dos Sonhos de David Lynch
Cisne Negro de Darren Aronofsky
Clube da Luta de David Fincher
Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder

Curtindo a Vida Adoidado de John Hughes
Desejo e Reparação de Joe Wright
Divertida Mente de Pete Docter 
Dogville / Manderlay de Lars Von Trier
Drive de Nicolas Winding Refn
Durval Discos de Anna Muylaert
Ed Wood de Tim Burton
Eleição de Alexander Payne
Encontros e Desencontros de Sofia Coppola
Entrevista com o Vampiro de Neil Jordan
Estômago de Marcos Jorge
Fargo de Joel & Ethan Coen
Ferrugem e Osso de Jacques Audiard
Festim Diabólico de Alfred Hitchcock
Fim de Caso de Neil Jordan 
Garota Sombria Caminha à Noite de Ana Lily Amirpour
Garotos Incríveis de Curtis Hanson
Gravidade de Alfonso Cuarón
Hedwig de John Cameron Mitchell
Jackie Brown de Quentin Tarantino
Janela da Alma de João Jardim e Walter Carvalho
Jogo de Cena de Eduardo Coutinho
Lavoura Arcaica de Luis Fernando Carvalho
Ligações Perigosas de Stephen Frears
Los Angeles - Cidade Proibida de Curtis Hanson
Magnólia de Paul Thomas Anderson
Minha Vida de Cachorro de Lasse Hallström


Moonrise Kingdom de Wes Anderson
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen
O Ano Mais Violento de J.C. Chandor
O Bebê de Rosemary de Roman Polanski
O Doce Amanhã de Atom Egoyam
O Escafandro e a Borboleta de Julian Schnabel
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain de Jean Pierre Jeunet
O Impostor de Bart Layton
O Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro
Oldboy de Chan-wook Park
O Piano de Jane Campion
O Profeta de  Jacques Audiard
O Pianista de Roman Polanski
O Que Resta do Tempo de Elia Suleiman
Os 12 Macacos de Terry Gillian
O Sétimo Selo de Ingmar Bergman
Os Excêntricos Tenenbaums de Wes Anderson
O Show não Pode Parar de Bob Fosse
O Silêncio dos Inocentes de Jonathan Demme

Os Incompreendidos de François Truffaut
Os Incríveis  de Brad Bird
Os Matadores de Beto Brant
Os Suspeitos de Brian Singer
Pecados Íntimos de Todd Field
Perdidos na Noite de John Schlesinger
Persépolis de Marjane Strapi e Vincent Paronnaud
Prometheus de Ridley Scott
Que Horas Ela Volta? de Anna Muylaert
Quero Ser John Malkovich de Spike Jonze
Rede de Intrigas de Sidney Lumet
Réquiem para um Sonho de Darren Aronofsky
Rushmore de Wes Anderson
Sangue Negro de Paul Thomas Anderson
Sexy Beast de Johnatan Glazer
Star Wars: O Império Contra-Ataca de Irwin Kershner
Sweeney Todd  de Tim Burton 
Trainspotting  de Danny Boyle
Tootsie de Sidney Polack
Uma Relação Pornográfica  de Frédéric Fonteyne
Uma Vida Iluminada de Liev Schreiber
Um Dia de Cão de Sidney Lumet 
Um Dia Muito Especial de Ettore Scola
Um Grande Garoto de Chris Weitz e Paul Weitz
Um Sonho sem Limites de Gus Van Sant
Watchmen de Zack Snyder
Até os próximos 100 filmes D+ !