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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

4EVER: Diane Ladd

29 de novembro de 1935   03 de novembro de 2025
Rose Diane Ladner nasceu na cidade de Laurel no Mississipi (EUA). Filha de um veterinário e uma atriz, além de parente do dramaturgo Tennessee Williams. Em 1953, enquanto morava em Nova Orleans, a jovem de 18 anos foi escalada para uma peça e anos depois decidiu ir para Nova York estudar teatro. Em 1971 atuou na novela The Secret Storm e mais tarde conseguiu um papel de coadjuvante em Chinatown (1974) de Roman Polanski, mas foi por seu trabalho em Alice Não Mora Mais Aqui (1974) de Scorsese que recebeu sua primeira indicação ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante. A atriz concorreria novamente na mesma categoria por Coração Selvagem (1990) e As Noites de Rose (1991), dois filmes em que contracenou com a filha, Laura Dern, fruto de seu casamento com o ator Bruce Dern. Em 2010 a família de atores fez história ao receber estrelas adjacentes na calçada da fama, feito inédito até então.  Laura e Diane dividiram os créditos em várias produções, entre elas Ruth em Questão (1996), Império dos Sonhos (2006) e a série Enlightened (2011-2013). Presente em quase 150 produções ao longo da carreira, Ladd trabalhou com grandes diretores e se consolidou como um nome respeitável em Hollywood. 

sexta-feira, 21 de março de 2025

KLÁSSIQO: Eraserhead

 Jack Nance: alter-ego de David Lynch em estreia perturbadora. 
 
Acho que é lugar comum falar da estranheza nos filmes de Davi Lynch. O diretor que nos deixou no início de 2025, sempre fez questão de construir em seus filmes um tom sinistro, quase sempre pesadelesco, que servia de verniz para personagens que viviam em suas vidas comuns, geralmente com uma estética que lembrava muito o cinema feito antes dos movimentos de contracultura (mais ou menos por ali entre os anos 1950 e início dos 1960). Lynch criava assim uma espécie de choque imagético, uma característica que fez do seu cinema algo único, diferente, inusitado, surreal e brilhante (tanto no sentido de genialidade quanto na capacidade de ter o brilho próprio de se renovar a cada nova visita e releitura de uma obra). Esta marca já está evidente em seu primeiro filme, Eraserhead, que foi um fiasco de público justamente por romper com o realismo tão presente no cinema dos EUA. Imagina que você está em 1977, a nova Hollywood estava latente com nomes feito Spielberg, de Palma, Coppola, Scorsese e no meio dos lançamentos do primeiro Star Wars, das danças de Os Embalos de Sábado a Noite, dos efeitos de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e da graça (posteriormente oscarizada) de Noivo Neurótico e Noiva Nervosa você de deparasse com um filme em preto e branco, com um homem de topete gigantesco às voltas com uma série de personagens estranhos, incluindo, um filho que nasceu parecendo tudo, menos um bebê? Revisitei recentemente Eraserhead porque sempre tive receios de escrever sobre ele, já que, posso dizer que é o filme mais estranho de Lynch (mais do que Império dos Sonhos/2006 que fica em um honroso segundo lugar e, ironicamente, é seu último longa) e sempre deixa a sensação de que nunca serei capaz de entendê-lo completamente (mas também acho que a graça está justamente aí, já que David odiava explicar seus filmes e deixava que os espectadores divagassem sobre o que se via na tela). O longa revela-se cada vez mais sensorial ao mesmo tempo que afasta-se de ser apenas um filme experimental de um estudante de cinema. O filme conta a história de Henry (Jack Nance), um homem que vive em um pequeno apartamento em uma área industrial abandonada. Ele engravidou a namorada e por conta disso teve que casar e, agora, os dois precisam cuidar de um bebê que chora o tempo inteiro e tem uma aparência, digamos, diferente do que se esperava. A narrativa é conduzida por todo o desconforto do protagonista em uma realidade completamente onírica e surrealista, com personagens estranhos que movimentam um filme anticonvencional, mas que traz simbologias que nos fazem perceber a relação daquilo tudo com a fertilidade, a paternidade, o destino de um filho e relações familiares. Lynch já era apaixonado por artes plásticas quando realizou o filme (com o apoio da American Film Institute, instituição em que estudava) e isso explica muito das texturas que o filme experimenta diante da câmera. Com o tempo, todas as ressalvas feitas ao filme em sua estreia garantiram uma curiosidade ao redor da produção e uma aura de filme cult, sobretudo quando ao longo do tempo vimos a forma como Lynch pensa seu cinema e as sensações que pretende despertar na plateia. Algumas marcas de seu cinema (os personagens misteriosos, o chão xadrez, as cortinas, o palco do inconsciente...) já aparecem por aqui e quem conhece a vida particular do diretor, relaciona Henry e seu filho com a própria situação do diretor perante um problema de saúde vivenciado por sua primogênita logo após o nascimento. O peso da responsabilidade e da insegurança devido àquela situação parece ter sido a maior inspiração para todos os temores que atravessam a narrativa (ternamente) perturbadora do filme. 
 
Eraserhead (EUA - 1977) de David Lynch com Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates, Leurel Near e Jack Fisk ☻☻   

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

10 + 4EVER: David Lynch

 20 de janeiro de 1946 ✰ 15 de janeiro de 2025
 
Nascido na cidade de Missoula no estado de Montana, David Keith Lynch veio de uma família de situação econômica confortável. Filho de um pesquisador do departamento de agricultura e uma professora de inglês, sua família teve origem na Finlândia e David teve uma educação presbiteriana enquanto morou em diversas partes dos Estados Unidos. O constante deslocamento desenvolveu no jovem Lynch um constante olhar de estranhamento ao que para muitos era visto como natural, despertando sua curiosidade para o que estava abaixo da superfície das aparências do american way of life (um dos aspectos mais marcantes de sua cinematografia). Quem quiser conhecer um pouco mais de como o diretor moldou o seu estilo, pode procurar o documentário David Lynch: A Vida de Um Artista (2016), que demonstra como ele se tornou um mestre em lidar com cenas do imaginário, o flerte constante entre o sonho e o pesadelo, o surrealismo e um casamento inesperado entre o belo e o bizarro. Embora não lançasse um longa metragem desde 2006, Lynch permaneceu ativo nos últimos anos, realizando clipes, curtas, exposições e produções musicais, além de ter seguido inspirando jovens cineastas, como Coralie Fargeat (A Substância) e Jane Schoenbrun (Eu Vi o Brilho da TV). Lynch é um artista multifacetado, que deixa uma obra imortal incrível e deixa de ser um dos maiores nomes do entretenimento para se tornar um dos deuses do Cinema. Em homenagem a um dos meus cineastas favoritos, relembro aqui minhas dez obras favoritas (e somente sua rejeitada versão de Duna/1984 ficou de fora). Nem todos os filmes abaixo possuem resenhas aqui no blog, mas ao longo do ano irei postar os que ainda não foram comentados em homenagem ao cineasta:
 
#10 "Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer " (1992)
Se a série Twin Peaks degringolou quando Lynch precisou se afastar para voltar para seus trabalhos no cinema, o diretor tentou compensar os fãs perante a horrorosa segunda temporada com este filme que decepcionou porque muitos imaginaram que traria explicações sobre os mistérios da trama. Na verdade, Lynch faz exatamente o contrário, deixando tudo ainda mais complexo e cheio de camadas sobre a morte da bela estudante Laura Palmer na pacata cidade de Picos Gêmeos. 
 
Em seu filme de estreia, Lynch já deixava claro que não queria que esperassem dele uma história convencional com começo, meio e fim ou algo realista. Em menos de hora e meia de duração, o diretor de 31 anos já caprichava na história de Henry Spencer (Jack Nance) um homem aparentemente comum que precisa lidar com um bebê que não para de chorar enquanto conhece personagens bastante, digamos, peculiares. Rotulado de terror surrealista, o filme não fez sucesso em seu lançamento, mas ao longo do tempo gerou curiosidade e se tornou um filme cultuado que já demonstrava o talento do diretor em lidar com estranhezas narrativas. 

Reza a lenda que a ideia do filme surgiu quando Laura Dern mencionou o nome da cidade natal de seu esposo (Inland Empire) em uma conversa. A mente de Lynch divagou imediatamente sobre o nome daquela cidade e construiu aquele que seria seu último longa-metragem. Uma coleção de cenas sobre uma atriz que não sabe distinguir o que é realidade, sonho, memória ou ficção. O resultado pode até soar caótico, mas é uma verdadeira aula de como construir um cinema atmosférico enquanto mescla mistério ao drama de sua personagem. O filme também ficou famoso pela campanha solitária de Lynch para conseguir uma indicação ao Oscar para sua musa-mor: Laura Dern. 
 
#07 "Coração Selvagem" (1990)
David Lynch estava no auge após o sucesso da série Twin Peaks e se afastou da série para criar mais um longa-metragem. Se o programa de TV saiu perdendo, Lynch levou a Palma de Ouro do Festival de Cannes ao contar a história de amor entre Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern) enquanto fogem de um assassino pelas estradas dos Estados Unidos. O filme se tornou mais um marco da forma como Lynch desbrava a superfície do American Way of Life, rendeu uma indicação para Diane Ladd (mãe da Laura no filme e fora dele) no Oscar de coadjuvante e ainda revelou para o mundo a icônica música Wicked Game de Chris Isaak. Um clássico. 
 
#06 "Uma História Real" (1999)
Depois de tantos filmes criando o casamento perfeito entre o belo e o bizarro, o cineasta surpreendeu todo mundo por fazer exatamente o que ninguém esperava dele. Ele pegou a história real de um senhor com mais de setenta anos, Alvin Straight (Richard Fansworth), que está cheio de problemas de saúde e, imaginando que o inevitável está cada vez mais perto, ele planeja viajar mais de quatrocentos quilômetros para encontrar um irmão com quem não fala há tempos. Só que, como sua licença de motorista foi retirada, ele fará todo o trajeto em seu cortador de grama! Embora seja completamente diferente de seus outros filmes, Lynch consegue imprimir ao filme uma atmosfera de sonho que aumenta ainda mais o lado emocional da história. Fansworth se tornou o ator de maior idade indicado ao Oscar de melhor ator até então e Lynch ainda adorou o trocadilho do filme em inglês The Straight Story (traduzindo: A História Careta). 

Lynch ficou cinco anos sem dirigir um longa metragem e, se desconsiderarmos que seu filme anterior ainda estava vinculado a Twin Peaks, o diretor completava sete anos sem apresentar material inédito aos fãs. Por conta disso, este aqui se tornou bastante importante para toda uma nova geração de fãs que não sabiam do que o diretor era capaz. O longa conta a história de um músico (Bill Pullman) que é assombrado por um crime terrível envolvendo a esposa (Patricia Arquette). Sua dor é tão grande, que no corredor da morte, ele se transforma em outra pessoa (Balthazar Ghety) que irá se apaixonar por Alice (a mesma Patricia Arquette) em um mundo diferente do anterior. Esteticamente o filme é impecável e as obsessões de Lynch entre o sonho e a realidade permanecem funcionando que é uma beleza. 

David Lynch foi fundamental para criar toda a atmosfera desta série que marcou época em um período em que quem era consagrado no cinema não migrava para projetos na televisão. No entanto, Lynch só dirigiu dois episódios na primeira temporada (o primeiro e o terceiro) e quatro na segunda temporada quando uma série de pessoas despreparadas assumiram o programa para fazer bobagem (ao ponto de contarem o grande mistério no meio, inserir um bando de subtramas que não interessavam a ninguém e fazer um programa sensacional se transformar em uma novela desconjuntada). Sorte que Lynch voltou e tentou colocar as coisas nos eixos. O cineasta ainda participou de vários projetos baseados na misteriosa morte de Laura Palmer, com um retorno do agente Dale Cooper (Kyle McLachlan) dando continuidade ao destino sombrio de seu personagem depois de quase trinta anos. 

Depois da consagração absoluta com Homem Elefante e todos os aborrecimentos com a adaptação encomendada de Duna (1984), Lynch precisava relaxar e foi quando realizou um dos seus trabalhos mais referênciais. Veludo Azul foi protagonizado por sua então namorada, Isabela Rosselini (belíssima e premiada com o Independent Spirit daquele ano) encarnando uma cantora que teve o filho sequestrado por um grupo de criminosos. O caminho dela cruza com o do bom moço Jeffrey (Kyle MacLachlan) e a namorada, Sandy (Laura Dern) e a colisão desses dois mundos de atmosferas tão distintas acontece por conta de uma orelha perdida!!!! A maestria com que Lynch conduz  a narrativa lhe valeu a segunda indicação ao Oscar de direção. 
 
Lembro até hoje quando encontrei este filme em DVD em uma banca de jornal nos tempos da faculdade e fui para aula ansioso para assistir ao chegar em casa. Lynch faz um filme arrebatador baseado na vida de John Merrick, que possui sua aparência desconfigurada por conta de uma severa doença. Descoberto por um médico (vivido por Anthony Hopkins), Merrick  (magistral trabalho de John Hurt) passa de atração de circo para atração científica e passa por situações que só revelam que por baixo de sua aparência, existe um coração de ouro incompreendido lidando com um mundo cruel. Este foi o segundo longa do cineasta e o projetou mundialmente recebendo oito indicações ao Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora. Talvez este seja o filme mais querido do diretor. 

Talvez seja pelo fato de ser o único da lista que assisti no cinema que o sonoro Mullholand Drive fica no topo de minha preferência. Lembro até hoje quando  assisti no cinema da faculdade o filme com minha amiga Alê e ter a sensação da plateia inteira absorvida em silêncio até após subirem os créditos. Havia acabado de participar de uma hipnose coletiva? Concebido para ser um programa de televisão, a ideia foi cancelada pelos produtores que não compraram a ideia de uma jovem atriz (Naomi Watts arrasadora e chegando ao status de estrela que merecia com o papel) e uma bela atriz desmemoriada (a bela Laura Harring) que ficam amigas em Hollywood. Lynch pegou o material que havia filmado e criou cenas adicionais, fazendo um verdadeiro deleite para quem curte seu cinema entre sonho, pesadelo, o inconsciente, o delírio, a ficção e a realidade. Cheio de simbologias sobre a forma como o cinema mescla todos os elementos citados, Lynch levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e foi indicado mais uma vez ao Oscar de melhor direção. Nascia um filme digno de culto.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

PL►Y: Império da Luz

 
Michael e Olivia: a química do cinema. 

Faz um tempinho que Sam Mendes está doido para colocar outro Oscar na estante. Desde seu aclamado filme de estreia, o estupendo Beleza Americana (1999), alguns de seus filmes até caíram no radar do Oscar, mas mesmo quando chegou perto em 2021 com 1917, os prêmios foram apenas para categorias técnicas. Ano passado ele tentou novamente com Império da Luz, produção que investe em um tema recorrente da Hollywood atual: nossas memórias afetivas com o cinema. Nos últimos anos vários diretores fizeram obras que declaram amor ao cinema alcançando resultados variados,  (da aclamação de Os Fabelmans/2022 ao desprezo absoluto de Era Uma Vez em Staten Island/2021), o diferencial de Império da Luz é que ele gira em torno dos funcionários de um cinema das antigas. O Empire é uma daquelas salas enormes, que cabia centenas de pessoas, com andares diferenciados e servia para eventos dedicados às grandes estreias. Localizado de frente para o mar, sua ambientação ficava ainda melhor na Inglaterra dos anos 1980. Lá que trabalha Hilary (Olivia Colman, lembrada no Globo de Ouro), que tem um caso com o patrão (Colin Firth) e não parece muito feliz com sua vida atual. As visitas ao psiquiatra demonstram que a situação dela já está complicada faz algum tempo. Quando chega um novo funcionário, Stephen (Micheal Ward), ela demonstra interesse por ele que aos poucos se intensifica, porém, o crescimento do número de supremacistas na localidade começa a assustar e ameaçar os planos do rapaz. Império da Luz parece então que irá se tornar um romance inter-racial com verniz de crítica social, mas desvia por outros caminhos quando sua protagonista demonstra ter uma saúde mental cada vez mais fragilizada. É nesta parte que o filme ao invés de crescer, murcha. A sorte é que Olivia Colman apresenta seu talento de sempre e Micheal Ward é capaz de fazer seu personagem crescer mesmo que o roteiro faça pouco por ele. Existe uma química entre o casal de atores que faz o filme parecer melhor do que é em sua abordagem um tanto apressada de problemas sérios e que não encontram um desenvolvimento adequado. Colabora muito para o trabalho dos atores em um texto que beira o insosso é a fotografia do mestre Roger Deakins (em sua 16ª indicação ao Oscar) que emoldura aquele cinema como se fosse um cenário de sonho, mas que se contamina com a realidade com seus pombos e vidros quebrados. Essa relação do cinema como local dos sonhos frente à dura realidade também é a responsável pela falada cena de Colman assistindo Muito Além do Jardim (1979) e esquecendo suas mazelas frente ao que é projetado. Para um filme tão ambicioso, parece pouco, e realmente não é muito - mas é feito no capricho.

Império da Luz (Empire of Light / Reino Unido - EUA) de Sam Mendes com Olivia Colman, Micheal Ward, Colin Firth, Toby Jones, Tom Brooke, Tanya Moodie e Crystal Clarke. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

N@ Capa: Nighthawks


Edward Hopper nasceu nos Estados Unidos no ano de 1882 e faleceu em 1967. Em vida ficou famoso como pintor e artista gráfico que se especializou em retratar a solidão da contemporaneidade em suas obras - seja utilizando cenários urbanos e rurais. A obra mais famosa de Hopper, a cultuada Nighthawks (ou "Gaviões da Noite") se tornou uma das obras mais reconhecidas da arte estadounidense. Reza a lenda que Hopper começou a pintá-la logo após o ataque a Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941) e a tristeza que sentia ao seu redor foi retratada na obra com rua vazia e algumas pessoas conversando dentro do restaurante, aparentemente desamparados em seus pensamentos. Alguns meses após finalizar a obra, ela foi vendida para o Instituto de Arte de Chicago e permanece lá até hoje. A capa que ilustrou o blog nos meses de outubro e dezembro foi uma espécie de coletânea sobre paródias da obra de forte apelo na cultura pop. Existem inúmeras paródias na internet, vale procurar:


"Nighthawks" de Edward Hooper


Versão Clube dos Cinco.


Se o Flash abrisse uma lanchonete e recebesse a Liga da Justiça?


O pessoal de O Grande Lebowski também curte a noite... 

... e o povo de Star Wars também se confraterniza por lá!


Para onde fogem os coelhos do Império dos Sonhos de David Lynch.

Quando abriram uma filial dentro da U.S. Enterprise.




Dean, Bogart, Marilyn e Elvis se reencontram.


Homer saboreia as últimas rosquinhas do dia!


Onde os robôs bebem o melhor óleo da cidade!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

.Doc: David Lynch - A Vida de Um Artista

Lynch: enfrentando os temores do passado. 

O primeiro filme que vi de David Lynch foi Coração Selvagem (1990) e tive a impressão de que não entendia nada do que estava acontecendo, mas não conseguia parar de assistir. A partir dali percebi que Lynch era um sujeito diferente. Infelizmente ele andava sumido até aparecem em Cannes neste ano para divulgar a terceira temporada da série Twin Peaks depois de um hiato de vinte e seis anos sem episódios. Lynch foi tão aplaudido quando exibiu os dois primeiros episódios da série que dava gosto de ver o seu sorriso. Desde o viajandão Império dos Sonhos (2006) que ele não lança um filme, no entanto, não parou de trabalhar. Dirigiu vídeos, curtas, clipes (para Moby, Interpol, Nine Inch Nails...), produziu algumas músicas e dedicou-se ainda mais às artes plásticas. Este documentário de Jon Nguyen destaca o envolvimento do artista com esta sua carreira paralela, ressaltando este seu gosto desde a infância quando a mãe deixava que ele desenhasse o que bem entendesse ao invés de pintar livros de gravuras. Se por um lado os fãs podem sentir falta de maiores comentários sobre seus filmes (e todo mundo sabe que Lynch não curte falar muito sobre seu cinema cheio de mistérios), por outro, poderão entender muito sobre o estilo peculiar do celebrado cineasta. Na entrevista que perpassa todo o filme, conhecemos a sua história de típico menino americano de um lar confortável ao lado da família no estado de Montana. Desta criação que surgiu o seu lado mais cavaleiro, educado de fala calma e inofensiva. No entanto, desde pequeno, Lynch precisou acompanhar sua família por várias cidades americanas e não há como não perceber o tom sombrio com que pinta Filadélfia ou alguns vizinhos cujas imagens o assombram até hoje (sobre um deles ele sequer consegue contar o que houve de tão chocante). As coisas não estavam muito bem com as pessoas que conhecia pelo caminho, mas  ao conhecer o pai pintor de um amigo que Lynch percebeu uma forma de extravasar seu olhar peculiar sobre o mundo. Foi através dos desenhos que o adolescente começou a construir sua identidade artística - e o gosto pelo que a maioria das pessoas consideraria sombrio, bizarro e até grotesco. Nos comentários de Lynch podemos perceber os pontos de onde nasceram vários traços de seus filmes, as estradas perdidas, as trocas de identidade, os mundos paralelos, os personagens pesadelescos, as narrativas sombrias com a presença do desconhecido sempre à espreita. É curioso como o filme fala pouco da atual vida particular do artista (no máximo percebemos que ele tem uma filha pequena, hoje com cinco anos). O filme concentra-se especialmente na vida de David ao lado dos pais e dos irmãos. Não deixa de ser tocante quando na adolescência ele percebe que a mãe está decepcionada pelos caminhos que seguiu, ou o pai chocado perante o que ele guarda em seu ateliê particular - com frutas em decomposição e outras coisas que estavam ali apenas para ser observadas em sua destruição. Ali, fica claro que Lynch não tem pudores em enfrentar o que causa medo na maioria das pessoas, ele enfrenta esses elementos e os transforma na matéria prima de seus trabalhos surrealistas. Nos seus primeiros curtas, percebe-se como a transição das telas de pintura para as telas de cinema ocorreu de forma bastante natural, tendo em sua cultuada estreia em Eraserhead (1977) como o retrato em movimento do seu mundo particular. O filme termina neste ponto e se você considera a obra de Lynch perturbadora é melhor nem assistir, mas se você quer conhecer um pouco mais da história por trás de suas referências, torna-se um programa imperdível. 

David Lynch: A Vida de Um Artista (David Lynch - The Art Life/EUA-Dinamarca/2016) de Jon Nguyen com David Lynch. ☻☻☻

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

CENTØPÉDIA: FILMED+ (Parte I)

Nos cinco anos e sete meses do blog alguns dos meus filmes favoritos apareceram nos Filmes D+, aqueles longas que receberam a maior cotação por aqui. Muitos outros irão aparecer, mas os listados abaixo são os que compõem a primeira centena de filmes que considero obrigatórios:

(ordem alfabética)

A Árvore da Vida de Terrence Mallick
Adaptação de Spike Jonze
Adeus, Lenin! de Wolfgang Becker 
A Estrada  de John Hillcoat
Almas à Venda de Sophie Bartes
Amnésia de Christopher Nolan
Amor à flor da Pele  de Wong Kar-wai
A Origem de Christopher Nolan

Apenas o Fim de Matheus Souza
À Procura de Sugar Man  de Malik Bendjelloul
A Rosa Púrpura do Cairo  de Woody Allen
Asas da Liberdade  de Alan Parker
As Bicicletas de Belleville de  Sylvain Chomet
As Horas de Stephen Daldry
A Solidão dos Números Primos de Saverio Constanzo
A Viagem de Chihiro de Hayao Miyazaki
A Vida dos Outros de Florian Henckel von Donnersmarck
Batman - O Cavaleiro das Trevas  de Christopher Nolan

Beleza Americana de Sam Mendes
Bem Vindo à Casa de Bonecas de Todd Solondz
Birdman de Alejandro Gonzalez Iñárritu
Boogie Nights de Paul Thomas Anderson
Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças de Michel Gondry
Cabaret de Bob Fosse
Cidade dos Sonhos de David Lynch
Cisne Negro de Darren Aronofsky
Clube da Luta de David Fincher
Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder

Curtindo a Vida Adoidado de John Hughes
Desejo e Reparação de Joe Wright
Divertida Mente de Pete Docter 
Dogville / Manderlay de Lars Von Trier
Drive de Nicolas Winding Refn
Durval Discos de Anna Muylaert
Ed Wood de Tim Burton
Eleição de Alexander Payne
Encontros e Desencontros de Sofia Coppola
Entrevista com o Vampiro de Neil Jordan
Estômago de Marcos Jorge
Fargo de Joel & Ethan Coen
Ferrugem e Osso de Jacques Audiard
Festim Diabólico de Alfred Hitchcock
Fim de Caso de Neil Jordan 
Garota Sombria Caminha à Noite de Ana Lily Amirpour
Garotos Incríveis de Curtis Hanson
Gravidade de Alfonso Cuarón
Hedwig de John Cameron Mitchell
Jackie Brown de Quentin Tarantino
Janela da Alma de João Jardim e Walter Carvalho
Jogo de Cena de Eduardo Coutinho
Lavoura Arcaica de Luis Fernando Carvalho
Ligações Perigosas de Stephen Frears
Los Angeles - Cidade Proibida de Curtis Hanson
Magnólia de Paul Thomas Anderson
Minha Vida de Cachorro de Lasse Hallström


Moonrise Kingdom de Wes Anderson
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa de Woody Allen
O Ano Mais Violento de J.C. Chandor
O Bebê de Rosemary de Roman Polanski
O Doce Amanhã de Atom Egoyam
O Escafandro e a Borboleta de Julian Schnabel
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain de Jean Pierre Jeunet
O Impostor de Bart Layton
O Labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro
Oldboy de Chan-wook Park
O Piano de Jane Campion
O Profeta de  Jacques Audiard
O Pianista de Roman Polanski
O Que Resta do Tempo de Elia Suleiman
Os 12 Macacos de Terry Gillian
O Sétimo Selo de Ingmar Bergman
Os Excêntricos Tenenbaums de Wes Anderson
O Show não Pode Parar de Bob Fosse
O Silêncio dos Inocentes de Jonathan Demme

Os Incompreendidos de François Truffaut
Os Incríveis  de Brad Bird
Os Matadores de Beto Brant
Os Suspeitos de Brian Singer
Pecados Íntimos de Todd Field
Perdidos na Noite de John Schlesinger
Persépolis de Marjane Strapi e Vincent Paronnaud
Prometheus de Ridley Scott
Que Horas Ela Volta? de Anna Muylaert
Quero Ser John Malkovich de Spike Jonze
Rede de Intrigas de Sidney Lumet
Réquiem para um Sonho de Darren Aronofsky
Rushmore de Wes Anderson
Sangue Negro de Paul Thomas Anderson
Sexy Beast de Johnatan Glazer
Star Wars: O Império Contra-Ataca de Irwin Kershner
Sweeney Todd  de Tim Burton 
Trainspotting  de Danny Boyle
Tootsie de Sidney Polack
Uma Relação Pornográfica  de Frédéric Fonteyne
Uma Vida Iluminada de Liev Schreiber
Um Dia de Cão de Sidney Lumet 
Um Dia Muito Especial de Ettore Scola
Um Grande Garoto de Chris Weitz e Paul Weitz
Um Sonho sem Limites de Gus Van Sant
Watchmen de Zack Snyder
Até os próximos 100 filmes D+ ! 

segunda-feira, 24 de março de 2014

DVD: Querido companheiro

Keaton e Kline: gracinhas sem ousadia. 

Em mais de trinta anos de trabalho no cinema, começando como roteirista (O Império Contra-Ataca/1980 e Os caçadores da Arca Perdida/1981) e depois como diretor (de Corpos Ardentes/1981 passando pelo elogioado O Reencontro/1983 e o sucesso de O Guarda Costas/1992), nunca Lawrence Kasdam havia deixado de lançar um filme por tanto tempo. Nove anos separam esse aqui do hediondo O Apanhador de Sonhos (2003), que baseado na obra de Stephen King se tornou o pior filme do diretor. Graças aos deuses do cinema, não existe qualquer semelhança entre ele e Querido Companheiro. É como se Kasdam demorasse todo esse tempo para colocar sua carreira sob uma nova perspectiva, voltando o olhar para as situações mais simples, mas que são capazes de gerar mudanças na vida de pessoas comuns (tal e qual apresentou no ser melhor filme, O Reencontro). É verdade que apesar de contar com um elenco formado pelos premiados veterados  Kevin Kline, Diane Keaton, Diane Wiest e Richard Jenkins, o filme não tem medo de soar brando na forma em que conta sua história. A trama gira em torno do aparecimento e desaparecimento de um cachorro, numa família de vida bem confortável. A família Winter, chefiada por Beth (Diane) e o médico Joseph (Kline) parece perfeita. A filha Grace (Elizabeth Moss) está terminando o doutorado e tudo encontra-se naquele ponto cômodo em que se tudo permanecer como está, já está de bom tamanho. Mas será que está mesmo? Se num primeiro momento o cão encontrado serve para aproximar Grace de um veterinário indiano (Jay Ali), é justamente após a cerimônia de casamento deles que o cão irá se perder e forçar Beth e Joseph a discutirem a relação. Os Winters aproveitam a cerimônia para ficar um final de semana em sua propriedade nas montanhas, na ocasião, contam com a companhia de Penny (Dianne Wiest), irmã de Joseph, seu atual namorado Russell (Jenkins) - que pretende abrir um pub que tem como maior atração servir cerveja morna - e o filho de Penny, o também médico Bryan (Mark Duplass, que assina ao lado do irmão Jay a direção de filmes como Cyrus/2010 e Jeff e as Armações do Destino/2011). Depois que conhecemos um pouco mais esses personagens, Joseph sai para passear com o cachorro e o perde enquanto conversa no celular. Começa então a busca pelo bicho de estimação e o jorro de cobranças que deixaram Beth engasgada por tantos anos de casamento. Não espere muita profundidade ou muita sujeira na tela, Kasdam não perde a simpatia nesses momentos e consegue ser casto até quando apresenta o flerte entre o certinho Bryan com uma mulher de origem cigana (Ayelet Zurer). Com uma gracinha aqui e outra ali, apresentada por um elenco carismático, o filme é fácil de assistir (principalmente com as belas locações emolduradas por uma fotografia de cartão postal) mas ao final da sessão não deixa de parecer um pouco preguiçoso. Nada contra um programa leve e despretensioso para curtir quando não se tem mais nada a fazer, mas Kasdam não ousa um milímetro durante a sessão. No fim da sessão, parece mais um filme que investe num público que andava abandonado em Hollywood, os filmes para terceira idade. Assistindo a Querido Companheiro, temos a ideia exata dos mandamentos presentes na cartilha desse novo filão cinematográfico. É um filme bem feitinho, mas não deve ficar na memória por muito tempo.

Querido Companheiro (Darling Companion/EUA-2012) de Lawrence Kasdam com Dianne Keaton, Kevin Kline, Richard Jenkins, Dianne Wiest e Mark Duplass. ☻☻