sexta-feira, 13 de julho de 2018

PL►Y: Feito na América

Gleeson e Cruise: a vida milionária de um agente duplo. 

Faz tempo que Tom Cruise se dedica a filmes de ação e franquias famosas, mas deixou de se arriscar como fazia nos anos 1990 (onde ele ficava atento aos diretores que poderiam elevar sua carreira a outro patamar). É verdade que Cruise não precisa provar mais nada para ninguém, mas também é verdade que seus filmes são cada vez menos arriscados do que os de décadas atrás (daquele tempo em que ele concorreu ao Oscar de coadjuvante por Magnólia/1999 não se tem nem o cheiro), além disso o rompimento com a agente e sócia de longa data, Paula Wagner, também não ajudou - especialmente quando ela deixou de filtrar para a mídia e as excentricidades do ator começaram a chamar mais atenção que seus filmes. Enfim, ser Tom Cruise não deve ser fácil, especialmente quando você acaba de completar 56 anos e não dá mais para disfarçar que o tempo passa até para um dos rostos mais cultuados do cinema americano. Diante de tudo isso, ver Cruise estrelar um filme como Feito Na América significa que ele ainda tem disposição para navegar por mares diferentes. Fazia tempo que o astro estava de olho num filme sobre a história de Barry Seal, um piloto de avião que foi colaborador da CIA e ganhou muito dinheiro traficando drogas do Cartel de Medelin para os Estados Unidos. Barry se tornou um agente duplo, que foi esperto o suficiente para driblar a desconfiança da CIA e se livrar de investigações bancadas pelo FBI, a DEA e até pela Casa Branca. Mais do que mostrar um jogo de poder curioso (e que o personagem verídico soube utilizar em seu favor por muito tempo), o filme demonstra as entranhas da política antidrogas do governo Reagan. sempre exaltando como os EUA são uma terra de oportunidades. Atuando nos anos 1970 e 1980, Barry mudou de vida transportando quilos e quilos de cocaína para ganhar toneladas de dinheiro.  Vivendo um tipo desses, Tom Cruise capricha na ironia deste personagem, utilizando uma irresistível canastrice e a capacidade de rir de si mesmo (como no acidente em que fica coberto de pó ou na briga em que perde um dente). Seu trabalho ajuda a costurar um filme que é praticamente uma colagem frenética de episódios da trajetória tortuosa do personagem. Cruise conta ainda com a colaboração de duas outras pessoas para fazer o filme funcionar, a principal delas é o diretor Doug Liman, com quem trabalhou em No Limite do Amanhã (2014), responsável pelo ritmo enérgico da narrativa dona de uma edição esperta. O outro é Domhnall Gleeson que faz o agente da CIA responsável por recrutá-lo, livrá-lo e descartá-lo quando bem interessa. Em tom de comédia (mas não para gargalhar), um filme sobre Barry Seal funciona como bela sugestão para os ingênuos que pensam o mundo funciona dividido entre dois pólos imaculados que nunca se misturam. Lamento informar, mas... 

Feito na América (American Made/EUA-2017) de Doug Liman com Tom Cruise, Domhnall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones e Alejandro Edda. ☻☻☻☻

PL►Y: Viagem das Garotas

Queen, Jada, Tiffany e Regina: baixarias entre amigas.

No cinema americano houve um tempo em que havia um gosto de novidade em comédias com mulheres fazendo graça com palavrões e baixarias. Numa sociedade conservadora como a Terra do Tio Sam, este sabor transgressivo é irresistível, mas no Brasil, este tipo de humor já soa batido quando lembramos do velho humor de Dercy Gonçalves. O último sucesso do gênero por lá foi Viagem das Garotas, que mostra o reencontro de quatro amigas da faculdade após mais de uma década sem muito contato. Como bem explica o epílogo do filme, elas se formaram, mantiveram contato por algum tempo, seguiram suas carreiras, casamentos e a distância parecia inevitável. Eis que um dia elas resolvem se reencontrar rumo a um evento onde uma delas é a responsável pelo fechamento da ocasião, ela é Ryan (Regina Hall) que se tornou uma escritora de sucesso vendendo livros que são quase manuais para se tornar uma mulher bem sucedida na vida pessoal e profissional. Na tal viagem ela irá se reencontrar com Sasha (Queen Latifah), a responsável por um site de fofocas que está na pior, com a divorciada  Lisa (Jada Pinkett Smith) e a maluquete Dina (Tiffany Haddish). A viagem segue com muitos palavrões, baixarias e piadas sujas, mas tempera com algum drama quando todas descobrem que o casamento de Ryan com Stewart (Mike Colter, da série Luke Cage) está em risco. Deste ponto em diante, sempre que possível, as amigas tomarão as dores da amiga e renderão alguns dos melhores momentos da história que acaba se estendendo mais do que o necessário. Escrito por mulheres e estrelado por mulheres, o filme conta a com a direção de Malcolm D. Lee, que não tem muita sensibilidade para amparar alguns momentos que o filme precisa de driblar o melodramam, porém, ele tem o bom senso de deixar suas atrizes trabalharem com bastante liberdade. Neste ponto, Regina Hall convence como a celebridade que precisa manter a fachada para bancar seu estilo de vida, mas que aos poucos entra em crise por perceber que sua vida é uma fraude. Jada Pinkett Smith consegue se sair bem com sua versatilidade e bom humor, sabendo lidar com as camadas de sua personagem que começa comportada e aos poucos sente-se mais livre. Queen Latifah é Queen Latifah (como sempre) e  a imprevisível Tiffany Haddish foi a que colheu mais elogios com sua personagem desbocada e dona de momentos impagáveis - ou seja, nasce uma estrela. Viagem das Garotas se parece com muitas outras comédias americanas recentes, por vezes exagera na grosseria, outras vezes acerta na baixaria, mas sempre escorrega quando tenta ser sério. Serve para rir e esquecer horas depois.  

Viagem das Garotas (Girls Trip/EUA-Canadá/2017) de Malcolm D. Lee com Regina Hall, Queen Latifah, Tiffany Haddish , Jada Pinkett Smith, Mike Colter, Kate Walsh e Larenz Tate. ☻☻

terça-feira, 10 de julho de 2018

Combo: Experimentos

05 Os Homens que Encaravam Cabras (2009) 
Muito falado antes do seu lançamento - e praticamente esquecido depois que chegou aos cinemas - o filme é baseado numa controversa história real de homens que foram treinados para desenvolver habilidades paranormais no que ficou conhecido como Exército de Terra Nova. Entre pessoas que acreditam ter o poder de matar animais com o poder da própria mente, o filme se desenvolve com um elenco dedicado (George Clooney, Jeff Bridges, Ewan McGregor...) em tom de farsa. O filme usa do absurdo para retratar uma época em que os Estados Unidos investia em tudo que era possível para deter uma ameaça estrangeira. 

Três bebês de origens diferentes são criados por um casal de cientistas com o objetivo de provar que os estímulos ambientais são mais importantes do que a herança genética no desenvolvimento de interesses e personalidade. Um é criado para se tornar artista, o outro, para ser pacifista e a menina é estimulada para ser um verdadeiro gênio. Criados isolados de qualquer influência que possa  confundir os dados da pesquisa, a coisa sai do controle quando a pré-adolescência começa a preocupar os pais sobre os caminhos escolhidos na criação dos filhos, digo, cobaias. Filme divertido, provocador e que merece atenção. 

Tive que estabelecer alguns critérios bastante pessoais desta parte em diante da lista, uma vez os três são os meus favoritos deste combo. Dirigido pelo mestre Stanley Kubrick, Laranja Mecânica conta a história de um delinquente num futuro não identificado que é submetido a um tratamento revolucionário - mas só na metade do filme. Submetido ao fictício Método Ludovico, o personagem é forçado a ouvir Beethoven enquanto assiste a uma sucessão de imagens que mudam seu comportamento para sempre.  Ainda revolucionário e ousado, o filme faz o tipo ame ou odeie. 

02 Experiência (2001)
Este sensacional filme alemão é baseado no experimento em que um grupo de voluntários se dividiu em dois grupos: policiais e prisioneiros. A única coisa que os diferenciava eram os uniformes que vestiam - e se no início a camaradagem existe, com o passar do tempo a tirania e a submissão se instauram. Dirigido por Oliver Hirschbiegel, Das Experiment cria tensão perante a violência psicológica, física e moral que se vê na história. O  longa rendeu uma refilmagem americana menos interessante (Detenção/2010) e seis anos depois foi lançado O  Experimento de Aprisionamento de Stanford (2015), que é um retrato ainda mais fiel da experiência realizada em 1971 (auge das experiências comportamentais). 

Este foi um dos filmes mais interessantes a que assisti nos últimos anos, infelizmente não foi lançado nos cinemas brasileiros e pouca gente se interessou em vê-lo na Netflix. O filme é um retrato elaborado sobre a vida e obra do psicólogo social Stanley Milgram (vivido por Pete Sarsgaard) que se tornou famoso por suas experiências que muitas vezes desafiavam os preceitos éticos dos experimentos sociais - mas somente assim ele acreditava poder revelar o que o ser humano pode ter de mais perigoso. O filme é cheio de detalhes que provoca a percepção do espectador, revelando um senso de humor incomum e um emaranhado de ideias interessantíssimas.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

PL►Y: Predestinados

A família: filhos cobaia. 

Nos anos 1970, um casal de cientistas que está prestes a ter o primeiro filho resolve fazer uma pesquisa comportamental. Os dois procuram um financiador e conseguem investimento para um estudo que tem como base estimular três crianças de origens diferentes para áreas distintas e, com isso, provar se a herança genética é menos influente do que os estímulos que receberão. Além do filho biológico (que será estimulado para se tornar um artista), eles adotam mais dois bebês. A menina vem de uma família que não prima pela inteligência e há também um outro menino que tem origem em uma família muito agressiva. A menina será criada para se tornar um gênio e o menino será criado para ser um líder pacifista. Quando o casal é questionado sobre os problemas éticos em torno da experiência eles são bastante objetivos: "não faremos nada diferente do que qualquer família faz". Realmente, direcionar os interesses dos filhos é algo bastante comum entre as famílias... mas para evitar interferências no experimento social que planejam, a dupla se afasta da cidade e vai morar num bosque, contando apenas com a ajuda de um ex-atleta russo treinado em estimulação precoce de bebês e fazer relatórios isentos do olhar "parental" do casal de cientistas. Lançado por aqui com o nome (um tanto malajambrado) de Predestinados, vale saber que a crítica americana foi bastante dura com o filme e, depois que o assisti, eu me perguntava: será que eles entenderam o objetivo da história? Este é o segundo longa de ficção de Emanuel Hoss-Desmarais e ele merece elogios por deixar o público atento, mas também desconfortável diante do que vê na tela. Mesmo em se tratando de uma comédia de humor incomum, existe aqui material para vários debates depois da sessão, mas se você não quiser debater nada e apenas ver um filme diferente, Predestinados é uma ótima pedida. Toni Collette e Matthew Goode estão ótimos como o casal de cientistas que farão de tudo para comprovar suas teorias - mesmo que para isso estejam à beira de um surto. Como qualquer casal que tem filhos, basta os filhos começarem a demonstrar interesses diferentes dos propostos para que eles entrem em parafuso. É verdade que aqui tudo é elevado ao exagero, mas o resultado é bastante instigante, especialmente quando precisam abordar questões sexuais junto aos filhos. Torna ainda mais interessante a forma como o casal começa a confundir os papéis de cientistas e pais durante a pesquisa, o que só aumenta a tensão na casa. As crianças vividas por Jordan Poole (o artista), Megan O'Kelly (a gênio) e Hudson Leblanc (o pacifista) estão bem em cena, mas a atenção que recebem no roteiro está longe de ser equilibrada. O filme desliza de vez em quando ao evocar uma linguagem próxima dos filmes de Wes Anderson, o que lhe tira um pouco da personalidade, mas funciona bem ao brincar com uma família disfuncional formada por cientistas. Apesar do final destoar do resto da sessão, Predestinados tem um roteiro interessante, personagens curiosos e faz uma deliciosa reflexão sobre o papel dos pais no desenvolvimento dos filhos. Se encontrar com o filme por aí, vale a pena assistir. 

Predestinados (Birthmark/EUA-2018) de Emanuel Hoss-Desmarais com Toni Collette, Matthew Goode, Fionnula Flanagan, Michael Smiley, Andreas Apergis, Suzanne Clément, Jordan Poole, Megan O'Kelly e Hudson Leblanc. ☻☻☻☻

PL►Y: De Volta ao Jogo

Keanu Reeves: a diferença é o cachorro. 

Quem acompanha o blog sabe que não sou grande fã de filmes de ação. A combinação de sangue, tiros e explosões costuma me dar uma soneira que você nem imagina. Nem eu sei explicar, ela simplesmente acontece! Por conta disso, resisti bravamente por muito tempo a ver o primeiro filme protagonizado por John Wick, que foi lançado por aqui com o nome de De Volta ao Jogo. Eu sei, Wick (vivido por Keanu Reeves) já teve até uma sequência - e um terceiro filme está ganhando forma - mas toneladas de recomendações não me convenciam de que eu iria gostar de assistir mais um filme de matador profissional que volta a matar por algum motivo qualquer. Bem, o motivo de Wick não é um motivo qualquer e, para esta modesta pessoa que lhes escreve (com atraso sobre o filme lançado há quatro anos), faz toda a diferença. Wick volta à ativa não porque lhe prometeram alguns milhões para matar alguém, mas porque enquanto amarga o luto da esposa falecida, um filho mimado de criminoso cruza o seu caminho. O cretino não apenas rouba-lhe o carro (que Wick parece nem ligar muito), como também destrói um dos poucos elos que restaram com a esposa (este sim, parte o coração!). Daí em diante, Wick quer vingança, mas ela aqui surge diferente, de forma quase intimista e fica impossível não torcer por ele. O diretor Chad Stahelski, com ajuda não creditada de David Leitch, cria um filme cheio de violência e com um trato visual incomum para o gênero. Além disso, tem alguns elementos que conferem bastante charme para a história (um hotel que revela-se um reduto de criminosos, velhos conhecidos que sempre cruzam o caminho do protagonista...). Em meio a tantos criminosos, o papel de vilão fica por conta de Michael Nyqvist, que vive um gangster que já utilizou os serviços de Wick e, sabendo que o filho fez uma grande bobagem, tenta evitar que a morte do herdeiro aconteça. O mais interessante do filme é que as cenas de ação são absurdas e existe um humor inesperado que lhe cai muito bem, mas o que dá liga mesmo à história é o desempenho de Keanu Reeves. O ator é realmente um caso curioso em Hollywood, nem sempre ele acerta em suas escolhas, mas de vez em quando consegue um grande sucesso em longa de ação arriscados. Foi assim com Velocidade Máxima (1994), Matrix (1999) e agora, John Wick que já tem um fã-clube em expansão. Quem desconfiaria disso quando Keanu começou em filmes indies assinados por nomes feito Gus Van Sant? Reeves, pode não ser muito expressivo, mas seu talento cai muito bem a este tipo de papel e, mais ainda, seu grande diferencial é a elegância nos movimentos que deixa qualquer brutamonte roxo de inveja. Ninguém atira, salta sobre um carro ou distribui facadas em seu oponente feito ele. Eu sei, é algo absurdo, mas é a pura verdade! Quando o filme foi lançado, o ator tinha completado 50 anos e ele continua conduzindo a carreira do mesmo jeito, escolhe os projetos que lhe atrai e some por algum tempo se nada interessante aparecer. Coleciona fracassos, sucessos e a vida segue com aquele ar zen incomum no cinema americano (mesmo quando extermina metade do elenco). 

De Volta ao Jogo (John Wick/EUA-2014) de Chad Stahelski com Keanu Reeves, Willem Dafoe, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Adrianne Palicki, John Leguizamo, Ian McShane e Lance Reddick. ☻☻☻☻

sábado, 7 de julho de 2018

10+ Michelle Pfeiffer

Com mais de sessenta filmes no currículo, fica difícil escolher os dez melhores trabalhos da atriz que já foi uma das mais requisitadas de Hollywood. Entre dramas, comédias, musicais e filmes de heróis, a californiana Michelle Marie Pfeiffer pode não ser tão requisitada quanto antes, mas tem escolhido papéis capazes de colocá-la novamente em evidência nos últimos anos. A seguir meus dez trabalhos favoritos da atriz (e antes que você reclame, eu sei que muita coisa boa ficou de fora...):

#10 "Deixe-me Viver" (2002) de Peter Kosminsky
Eu sei que pouca gente viu este filme, mas por ele a atriz foi lembrada em algumas premiações, incluindo o SAG Awards. Quem está acostumado com os papéis simpáticos da atriz irá estranhar o tom pesado de sua personagem aqui. Ela interpreta a amarga mãe biológica da protagonista que cumpre pena em uma penitenciária. Pouca gente sabia, mas era uma espécie de despedida, já que logo depois a atriz deu uma pausa de cinco anos na carreira para de dedicar mais aos filhos. 

#09 "De Caso com a Máfia" (1988) de Jonathan Demme
Este foi o primeiro filme que assisti com Michelle, uma comédia com aquele jeito tresloucado que só os anos 1980 era capaz de produzir. Com direção do futuramente oscarizado Demme, a atriz vive Angela De Marco, que pouco depois da morte de seu esposo descobre que ele era um mafioso e o FBI começa a investigá-la - suspeitando que ela é amante do poderosos chefão local. Divertido e despretensioso rendeu a primeira indicação da atriz ao Globo de Ouro. 

#08 "Hairspray" (2007) de Adam Shankman
Durante sua carreira Michelle fez poucas vilãs, mas nem todas foram tão irresistíveis quanto Velma Von Tussle, a mãe que fará de tudo para atrapalhar as concorrentes de sua filha num concurso de programa de TV.. Cheia de sensualidade, malícia e sorrisos enganosos, a atriz se diverte bastante no papel que marcou o ano de seu retorno ao cinema. Sua atuação lhe valeu uma indicação ao lado de todo o elenco no SAG Awards. 

Quando escalaram a atriz para atuar ao lado de Jennifer Lawrence neste filme, especularam que ela seria a mãe da atual queridinha de Hollywood. Na verdade, ela interpreta a mãe de todos nós... ficou confuso? Então você não assistiu a este filme de terror mirabolante de Aronofsky que deu um papel pequeno, mas defendido com misterioso charme pela atriz. Apesar do pouco tempo em tela, sua atuação foi a grande unanimidade desta controversa obra. 

#06 "A Época da Inocência" (1993) de Martin Scorsese
Nas mãos do mestre Scorsese, Michelle vive uma mulher mal vista na sociedade por ser divorciada ao final do século XIX. Para aumentar ainda mais o drama da personagem, ela se apaixona pelo noivo da prima e, diante deste romance proibido, algumas surpresas se revelam com bastante sutileza. Romântico e melancólico, o filme baseado na obra de Edith Wharton é um deleite para quem curte romance de época para adultos. 

#05 "Susie e os Baker Boys" (1989) de Steve Kloves
Com certeza o que eleva este filme com roteiro bastante convencional é a atuação de Michelle que atua e canta com bastante desenvoltura. Susie é a cantora que se junta aos irmãos Baker fazendo a carreira deles encontrar o sucesso. No entanto, o envolvimento da cantora com Jack Baker (Jeff Bridges) irá colocar tudo em risco. Pelo papel, Pfeiffer levou para a casa o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical e ainda recebeu sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz. 

#04 "As Barreiras do Amor" (1992) de Don Roos
A atriz interpreta uma mulher comum que resolve ir ao funeral de John Kennedy após o chocante atentado em Dallas. No caminho, ela começa a repensar sua vida e se apaixona por um homem negro, algo chocante para a época. O filme de Don Roos tem como mérito mostrar o clima de tensão em que vivia os EUA naquele período histórico e deposita no talento de Michelle a sua alma (ela foi premiada no Festival de Berlim e foi indicada mais uma vez ao Globo de Ouro e ao Oscar).

#03 "O Feitiço de Áquila" (1985) de Richard Donner
Michelle já tinha algumas atuações de destaque quando foi escolhida para participar deste clássico filme da Sessão da Tarde sobre um casal apaixonado que padece sob uma maldição que não permite que os dois se encontrem para viver sua paixão. Bem... na verdade um está sempre perto do outro mas... se você não viu o filme, vale a pena procurar e ver como os anos 1980 era capaz de criar belas fantasias românticas. Ao lado do holandês Hutger Hauer, ela brilha até hoje na memória da massa cinéfila. 

Michelle foi indicada pela primeira vez ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante por sua magnífica atuação como a virtuosa Madame de Tourvel da clássica obra de Chordelos de Laclos. Tourvel nem imagina que será alvo de perigosos jogos de sedução orquestrados pela nobreza francesa. Trata-se de um dos meus filmes favoritos e, ainda hoje, consegue ser sublime na perfeição com que lida com emoções tão nobres quanto mesquinhas. Praticamente um empate com o primeiro lugar...

#01 "Batman - O Retorno" (1992) de Tim Burton
Só para lembrar, esta é uma lista sobre atuações e não sobre as qualidades do filme... sendo assim, como não colocar em primeiro lugar o filme que tornou Michelle conhecida mundialmente e que elevou a vilã da DC Comics a outro patamar? Na pele da Mulher-Gato, Michelle Pfeiffer transcende uma boa atuação e se transforma numa espécie de ícone pop, aquele tipo de trabalho que sempre fará sombra a todos os que o encarnarem posteriormente (Halle Berry e Anne Hathaway que o diga). Só para lembrar, até a escolha da garota que faz o papel da personagem na série Gotham levou em conta semelhanças físicas com Michelle. Esta moral não é para qualquer uma...

Na Tela: Homem-Formiga e A Vespa

Lilly e Paul: parceria de respeito. 

Homem-Formiga (2015) está entre os meus filmes favoritos da Marvel! A mistura de ficção científica, comédia e filme de assalto proporciona à aventura um tom de irresistível matinê. Paul Rudd estava muito a vontade com o papel do ladrão Scott Lang, que quase acidentalmente tropeça com o herói original, Hank Pym (Michael Douglas) e passa por um treinamento para se tornar um herói de verdade. Depois, Scott ajudou o time do Capitão América em Guerra Civil (2016) e ficou de fora de  Vingadores: Guerra Infinita (2017). Diante de metade da humanidade virando pó (ah vai, isso é um SPOILER? Desculpe, se você andou por outro universo nos últimos meses) a pergunta que ficou era onde estava o Homem-Formiga no embate dos Vingadores contra Thanos? Bem, ele estava cuidando da própria vida. Homem-Formiga e A Vespa começa após a prisão de Scott em Guerra Civil e os acontecimentos que se seguiram, para começar seu relacionamento com a filha de Pym, Hope (Evangeline Lilly) desandou  (e ela agora ganhou seu próprio traje e se tornou a  Vespa - identidade que era originalmente de sua mãe). Os amigos parceiros do crime de Scott abriram uma companhia de segurança e Hank Pym busca formas de resgatar sua amada esposa do Reino Quântico (um universo em escala sub-atômica em que ela está presa por mais de trinta anos), obviamente que não posso esquecer do empenho de Scott em ser um pai mais presente sem sair de casa , uma vez que ele está cumprindo prisão domiciliar (e a cena inicial cheia de fofura deixa claro o seu empenho). Só estes elementos já dariam conta de fazer um bom filme - e o início do longa deixa isso bem claro. O diretor Peyton Reed novamente assina a direção e demonstra que é possível construir a trajetória de um herói em paralelo com o grandiloquente universo dos Vingadores (a própria Vespa aparecia em Guerra Civil, mas Reed preferiu guardar para esta sequência). O cineasta parece ainda mais seguro diante dos elementos que tem em mãos, sabendo trabalhar muito bem como o roteiro constrói uma grande família ao longo da história. A impressão inicial é que o filme será o primeiro da Marvel sem um vilão para atrapalhar o herói. Mera ilusão. Logo depois de apresentar seus elementos principais surgem os vilões, um é um bandido que cruza o caminho de Vespa, o tolo Sonny Burch (Walton Goggins), o outro é a misteriosa Fantasma (Hannah John-Kamen). Se Sonny Burch poderia sumir no meio da história, Fantasma bem que poderia ser melhor desenvolvida, já que lá pelo meio do caminho sua vilania se dilui e seu arco tem um desfecho aquém do esperado. Com estas sobras consumindo o tempo de duração do filme, sobrou pouco para a magnífica Michelle Pfeiffer aparecer (e ver a atriz na telona é realmente magnético!) como a esposa de Hank Pym, mas prevejo maior destaque para a personagem nos novos rumos da Marvel. Apesar do inchaço, Homem-Formiga e A Vespa flui bem entre a comédia (e tem momentos em que meu rosto doeu de tanto rir) e a ação (que não chegam a impressionar como da primeira aventura) e triunfa mesmo ao apresentar uma nova heroína. Se Paul Rudd já está a vontade com seu personagem, Evangeline Lilly se firma como sua parceira ideal, apresentando uma Vespa tão charmosa quanto a dos quadrinhos com uma postura tão forte e destemida que seria uma ofensa dizer que ela é uma "ajudante" do Homem-Formiga, ela está em pé de igualdade com ele, numa parceria que promete render bons frutos em novas aventuras. 

Homem-Formiga e A Vespa (Ant-Man and The Wasp/EUA-2018) de Peyton Reed com Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, Abby Ryder Forston, Randall Park, Michael Peña, Judy Greer, Hannah John-Kamen, Laurence Fisburne, Bobby Cannavalle, David Dastmalchian e Walton Goggins. ☻☻☻

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Na Tela: Os Incríveis 2

Helen e Bob: trocando papéis. 

Quando terminou a primeira aventura de Os Incríveis (2004) o espectador já pensava que os personagens poderiam render outros filmes de sucesso. As possibilidades eram infinitas e não havia Universo Marvel nas telas (e a DC Comics só lançaria a cultuada trilogia do Cavaleiro das Trevas no ano seguinte). Os filmes de Super Heróis já apresentavam desgaste, tendo apenas os X-Men para garantir sucesso de público e crítica. Assim, a animação de Brad Bird ganhou até os Oscars de melhor animação e melhor edição de som, além de ter conquistado indicações ao Oscar de Roteiro Original e mixagem de som, ou seja, ao longo da história, poucas vezes uma animação conseguiu ser tão bem sucedida. Além da qualidade técnica, o trunfo também estava no roteiro, que mesclava com perfeição os dilemas de uma família com o universo dos super-heróis. Ao longo do tempo boatos sobre uma continuação eram constantes e, eu imaginava, que a sequência mostraria aquela adorada família com novos dilemas, com os filhos mais crescidos, os efeitos do tempo afetando seus poderes e, talvez, a presença de novos heróis (e vilões). Quando foi divulgado que a continuação começaria exatamente do ponto em que o primeiro terminou eu fiquei desconfiado, afinal, aqueles personagens, naquele período da vida, já foram trabalhados muito bem. Os deuses do cinema quiseram que quatorze anos separassem os dois filme e, diante a expectativa enorme... o novo filme se parece demais com o primeiro. Para começar, não existe uma guinada na vida dos heróis após a primeira aventura, eles continuam clandestinos, só que desta vez, quem recebe um convite de trabalho é a Mulher-Elástica, que deixa o esposo Incrível cuidando das crianças numa casa hi-tech. Daí em diante, tirando as alfinetadas feministas, o filme segue bastante semelhante ao anterior, apenas invertendo os papéis do Sr. e da Srª Pêra (e não estou falando somente de cuidar da casa). Restaria então avançar no desenvolvimento dos filhos, mas Flecha continua o mesmo, Violeta recebe um destaque maior na história e Zezé continua o bebê com poderes variados que cria confusão... como dá para perceber, o problema está no desenvolvimento da história. A presença dos novos heróis é discreta e a chegada do vilão Hipnotizador é empolgante - mas sua resolução não empolga e até as surpresas são, digamos, bem previsíveis (principalmente se você lembra como foi no primeiro longa). A sorte é que o roteiro preguiçoso não estraga a simpatia dos personagens ou as cenas de ação elaboradas (com destaque para o jogo de luzes na luta de Mulher-Elástica com o Hipnotizador, que resulta empolgante inovadora), no entanto, quando o filme termina, não existe o encantamento deixado pelo primeiro filme - mesmo assim, eu não quero esperar mais quatorze anos para ver outra aventura Incrível. Ainda penso que envelhecer os personagens ainda é uma boa saída para trazer novos elementos para a dinâmica dos personagens. Os Incríveis 2 apenas aponta uma nova versão para os fatos do primeiro filme e, por isso mesmo, perde em originalidade. 

Os Incríveis 2 (The Incredibles 2 / EUA - 2018) de Brad Bird com vozes de Holly Hunter, Craig T. Nelson, Samuel L. Jackson, Sarah Vowell, Huck Milner, Bob Odenkirk, Catherine Keener, Sophia Bush, Brad Bird e Isabella Rossellini. ☻☻☻

NªTV: Glow

As Garotas Gloriosas da Luta Livre: mudando o tom. 

Glow estreou no ano passado no catálogo da Netflix. Em tempos politicamente corretos, a série causava até estranheza por mostrar um grupo de mulheres sem grandes perspectivas que aceitaram ir para o tatame em um programa de luta livre. Enquanto desenvolviam suas identidades no ringue com fortes cores estereotipadas, na vida real tinham pendengas pessoais para resolver e contas para pagar. Se de um lado tudo era fantasia, do outro, a vida era bastante ingrata para as lutadoras. Some as cores extravagantes dos anos 1980, a trilha sonora esperta, os cabelos mirabolantes e o ótimo elenco em plena sintonia e você tinha uma das maiores surpresas entre as séries do ano passado. No meio dos cancelamentos da Netflix, a série foi renovada - para alívio dos fãs que aguardavam ansiosos as novas desventuras de Zoya (Alisson Brie) e sua turma. A segunda temporada estreou no dia 29 e desde os primeiros episódios dava para perceber que alguns ajustes foram feitos, se na primeira tudo era descompromissado, nos novos capítulos a série olha para si mesma com uma certa autocritica, suas personagens tem noção do quanto seus personagens podem ser ofensivos e em todo episódio existem momentos em que o discurso de "empoderamento" feminino aparece. A parte da autocrítica funciona muito bem para que o programa dê um passo para além da diversão pura e simples - uma vez que complexifica o relacionamento das personagens com o grupo e, principalmente, com os estereótipos que vestem para descer a pancada em suas rivais. O melhor exemplo disso ocorre com o episódio em que há o destaque de Rainha da Previdência (Kia Stevens), que ganha pontos pela sensibilidade com que a série aborda suas dicotomias (cortesia da direção de John Cameron Mitchell). A parte do "empoderamento" se encaixa melhor nas situações do que nos diálogos, que soam um tanto forçados - algo que a série deve deixar fluir com mais naturalidade na próxima temporada. Outros temas em voga também aparecem ao longo dos dez episódios (assédio, a mulher no mercado de trabalho, casamento, racismo, diversidade sexual, imigração...), mas nem todos alcançam a profundidade que deveriam, por vezes são contagiados pelo tom de chacota ou apenas pelo nonsense do programa (o que confere um equilíbrio na abordagem de temas sérios em uma comédia), outras vezes, são apenas diluídas no meio das subtramas. Falando em subtramas, a série demora para avançar no desenvolvimento do ressentimento de Debbie (Betty Gilpin) e Ruth (Alison Brie) - mas a gente perdoa por render um dos momentos mais dramáticos da temporada (e que doeu até em mim) -, patina no relacionamento de Sam Sylvia (Marc Maron) com a filha e aponta para uma temática que mudou o mundo para sempre: o avanço da AIDS. Com tantas histórias mais pessoais, Glow perdeu um terço do seu humor, mas melhora sempre que prossegue (e não repete) no que a primeira temporada já trazia. Pode ser por conta da minha necessidade de sentir o escapismo da temporada anterior em meio a tensão de 2018, mas eu prefiro quando a série se rende ao sabor de diversão festiva despretensiosa, porém,  algo me diz que as meninas de Glow se tornarão mais sérias nas próximas aventuras. 

Glow - 2ª Temporada (EUA/2018) de Liz Flahive e Carly Mensch com Alison Brie, Betty Gilpin, Marc Maron, Sydelle Noel, Chris Lowell, Britt Baron, Britney Young, Kia Stevens, Jackie Tohn, Sunita Mani, Ellen Wong e Rich Sommer. ☻☻☻