sábado, 7 de setembro de 2024

Premiados Festival de Veneza 2024

Tilda e Moore: o melhor filme do Festival de Veneza.

Não sei o que vocês acham, mas diante de tudo que acompanhei sobre os filmes exibidos na 81ª edição do Festival de Veneza, eu fiquei surpreso com a maioria dos premiados. Se a primeira aventura por um longa-metragem em inglês de Pedro Almodóvar (ele ameaça lançar um desde o final dos anos 1980) teve aplausos empolgados e pareceu uma escolha previsível ao prêmio principal, o Brasil teve que se ver com uma espécie de prêmio de consolação com o prêmio de melhor roteiro enquanto Nicole Kidman foi premiada por um filme que não empolgou como o desejado e o Leão de Prata (espécie de segundo lugar do Festival) foi para um filme que recebeu menos acolhimento que a obra de Walter Salles. No entanto, Ainda Estou Aqui segue firme forte como o favorito a ser escolhido para representar o Brasil no Oscar do próximo ano. Além disso, a passagem por Festivais importantes nos próximos meses e a distribuição garantida pela Sony Classics deve garantir ao filme uma fama crescente até a temporada de ouro por lá. Existe uma certa unanimidade em apontar o filme como a grande chance do Brasil voltar a cair nas graças da Academia. A seguir todos os premiados no Festival italiano:

MOSTRA COMPETITIVA
 
Leão de Ouro - Melhor Filme
The Room Next Door, de Pedro Almodóvar

Melhor Jovem Ator
 Paul Kircher, por Leurs Enfants Apres Eux

Prêmio Especial do Júri
 April, de Dea Kulumbegashvili

Melhor Roteiro
 Ainda Estou Aqui, de Murilo Hauser e Heitor Lorega

Melhor Ator
 Vincent Lindon, por The Quiet Son

Melhor Atriz
 Nicole Kidman, por Babygirl

Leão de Prata - Melhor Direção
Brady Corbet, por The Brutalist

Leão de Prata – Grande Prêmio do Júri
 Vermiglio, de Maura Delpero
 
 
MOSTRA HORIZONTES

Melhor filme
The New Year That Never Came, de Bogdan Muresanu

Melhor diretor
 Sarah Friedland, por Familiar Touch

Prêmio do Júri
 One of Those Days When Hemme Dies, de Murat Firatoglu

Melhor atriz
 Kathleen Chalfant, por Familiar Touch

Melhor ator
 Francesco Gheghi, por Família

Melhor roteiro
 Happy Holidays, de Scandar Copti
 
Melhor Curta-Metragem
Who Loves the Sun, de Arshia Shakiba

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

4EVER: Sérgio Mendes

11 fevereiro de 1941 ✰ 06 de setembro de 2024

Nascido na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, Sérgio Santos Mendes foi incentivado pelos pais desde pequeno a estudar música. Foi matriculado no Conservatório de Música de Niterói e teve aulas de piano com a professora Carmelita Lago, voltado para a música erudita. Aos 19 anos se interessou pelo jazz e começou a participar de jam sessions em Copacabana. Em 1961 lançou seu primeiro LP, o Dance Moderno com regravações de sucessos da Bossa Nova. Com a instauração da ditadura em 1964, Mendes foi morar na Califórnia, vivendo no exterior, manteve sua carreira ainda mais produtiva, vendendo mais de um milhão de cópias com seus trabalhos. Nos anos 2000 lançou três álbuns, o terceiro (Timeless de 2006) o trouxe de volta às listas de mais ouvidos do mundo, especialmente por sua versão de Mas que Nada, em parceria com o grupo Black Eyed Peas. O álbum também conta com participação de Seu Jorge, Justin Timberlake, Erykah Badu e Carlinhos Brown, com quem assinou a trilha sonora da animação Rio (2011), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor canção original. O artista faleceu por consequências de infecções por COVID-19.

sábado, 31 de agosto de 2024

HIGH FI✌E: Agosto

Cinco produções assistidas durante o mês que merecem destaque:

☻☻☻☻
 
 ☻☻☻☻
 
☻☻☻☻ 
 
 ☻☻☻☻
 
☻☻☻☻

NªTV: Palm Royale

Kristen Wiig: o preço da riqueza.

Nos anos 1960, Maxine Simmons (Kristen Wiig) é uma mulher que sonha em ter um lugar ao sol da alta sociedade de Palm Beach. Um dos seus maiores desejos é poder frequentar o clube que dá nome à série, um local frequentado somente pela elite local e que parece um daqueles lugares tão fora da realidade que beira a fantasia. Só que para isso ela ela precisa da indicação de três sócias. Ela acredita que sua vida irá melhorar muito quando conseguir conviver com aquele bando de gente tão endinheirada quanto esnobe, mas desde o primeiro episódio ela percebe que não será uma tarefa fácil e, mais do que isso, ao longo dos nove episódios que compõem a primeira temporada na AppleTV+, a sensação é que ela vê o sonho se tornar um pesadelo. Bem, se a personagem não descobre isso, o público tem cada vez mais certeza. Cheia de humor, deboche e ironias, a série se constrói a partir das trapalhadas de Maxine em ganhar respeito em mundo à qual não pertence  e  acaba gastando mais do que tem para conseguir sustentar uma imagem que não é a dela. Eu nunca havia pensado em como ser rico é algo caro, não apenas com os gastos para uma vida de ostentação, mas também para manter os gastos com as festas e os bailes de caridade, doações e tudo mais em que você não pode ficar para trás. Enquanto a personagem gasta uma fortuna para manter uma imagem de luxo (realizando até alguns crimes pelo caminho), toda a imagem de perfeição daquele mundo se desconstrói com arranjos, traições e corrupções. O melhor de Palm Royale fica para para os primeiros episódios em que acompanhamos com surpresa os fatos surpreendentes que pairam sobre a personagem, como a história em que é esposa de um grande herdeiro e suas visitas constantes à uma senhora presa imóvel à uma cama que não sabemos ao certo quem é. Se o programa começa em uma expectativa crescente do espectador, ampliando e conferindo cada vez mais complexidade aos personagens, conforme avança para além de sua metade, ela perde o fôlego e ganha cada vez mais um ar de novela, sem evitar cair na repetição de sempre fazer sua protagonista quebrar a cara. Me atrevo a dizer que Kristen Wiig tem aqui o papel de uma vida, embora tenha realizado bons trabalhos no cinema, eu sempre tinha a impressão que ela poderia fazer muito mais nos projetos em que aparecia. Aqui, a atriz consegue sustentar nossa torcida por uma personagem que é totalmente equivocada em suas ambições,  basta ver os encontros com o grupo feminista liderado por Laura Dern, que aos poucos, se torna sua amiga. Falando em Kristen e Laura, o elenco é um verdadeiro triunfo, afinal ainda conta com Allison Janney como a ricaça megera mor do pedaço, a venerada veterana Carol Burnett em um papel cheio de surpresas e até Kaia Gerber (a filha de Cindy Crawford) em um papel bastante promissor. Para além do estelar elenco feminino, temos Ricky Martin numa performance bastante reveladora de seu talento como ator, vivendo um funcionário do hotel cheio de segredos e nuances diferentes do que você imagina, torna-se outro personagem que ganha nossa torcida. Renovada para uma segunda temporada, a série é bastante animada e cheia de acontecimentos, mas por vezes peca pela repetição que ao final deixa um gosto de que funcionaria melhor como minissérie. No entanto, reúne os talentos necessários para funcionar como uma saborosa crônica sobre o american way of life. 

Palm Royale (EUA-2024) de Abe Sylvia com Kristen Wiig, Ricky Martin, Carol Burnett, Laura Dern, Allison Janney, Josh Lucas, Leslie Bibb, Kaia Gerber, Julia Duffy, Claudia Ferri e Jordan Bridges. ☻☻☻☻

PL►Y: O Corvo (1994)

Brandon Lee: morre uma estrela.

Podem me chamar de chato e conservador, mas está para nascer alguém que me justifique fazer o remake de um filme que já era bom o suficiente dentro de sua proposta. Não vejo nada demais em refazer um filme que não cumpriu o que prometia, mas mexer numa ideia que já surpreendia o público com suas qualidades inesperadas me soa como um tiro no pé. É verdade que em Hollywood existe a ideia de que o lançamento baseado em uma ideia já testada e aprovada tem mais possibilidade de fazer sucesso nas telas. Não vou dizer que já vimos essa teoria naufragar um milhão de vezes, mas (como diria meu primogênito) fazer o quê? O que posso fazer é ver na semana em que estreou a nova versão de O Corvo o clássico cult lançado em 1994 baseado na graphic novel de James O'Barr lançada em 1981. Barr se inspirou na morte de sua namorada para criar a trama sobre a morte não ser o fim para quem deseja vingança. Banhada em um misto de raiva e melancolia, a trama segue a história de Eric Draven, que retorna do mundo dos mortos para perseguir os criminosos que assassinaram ele e a namorada, Shelly. Em 1994 as adaptações de quadrinhos ainda eram poucas e viam no Batman (1989) de Tim Burton uma referência a ser seguida. Provavelmente a versão para as telonas de O Corvo idealizada por Alex Proyas não teria saído do papel se não fosse o sucesso do homem-morcego. O visual da cidade no filme lembra muito Gotham City, mas a direção de arte apresentada aqui investe ainda mais na atmosfera meio gótica, sombria com um certo verniz punk para sua violência estilizada (algo que o filme de Burton não trazia). A mistura quando estreou impressionou o público que ainda precisou lidar com a curiosidade gerada pelo ator principal que faleceu durante as filmagens. Brandon Lee (filho do Bruce Lee) morreu precocemente por conta de um projétil que estava em uma arma usada durante as filmagens, uma verdadeira tragédia. O filme ainda precisava ser finalizado e foi utilizado um dublê e o uso de efeitos digitais para sua conclusão. Lee está perfeito na pele de Eric Draven e o longa soa como a promessa de um astro que partiu cedo demais (ele recebeu até uma indicação póstuma de melhor ator no MTV Movie Awards que era um parâmetro de popularidade de um filme na época). Ele confere um desamparo ao personagem que traz um diferencial para concretização de sua vingança em tom sobrenatural (dentro e fora da tela). A trama em si não traz novidades, especialmente por conta dos seus vilões unidimensionais perseguidos um a um, mas Proyas confere um ritmo preciso com uma trilha sonora roqueira que fez muito sucesso na época ao som de the Cure, Nine Inch Nails, Stone Temple Pilots e Rage Against the Machine. A mistura de tantos elementos despertou não só a curiosidade do público na época, mas passado tanto tempo, o filme permanece com uma aura incomum. Ainda hoje é muito interessante ver o filme e perceber o somatório que ajudou o longa a fazer sucesso. Se levarmos em conta que a ideia rendeu outros dois filmes (que ninguém faz questão de lembrar), uma série de TV e um remake fadado ao fiasco, a magia em torno do filme se torna ainda mais curiosa. 
 
O Corvo (The Crow/EUA-1994) de Alex Proyas com Brandon Lee, Ernie Hudson, Rochelle Davis, Michael Wincott, David Patrick Kelly,  Michael Massee e Angel David. ☻☻☻☻

PL►Y: Furiosa - Uma Saga Mad Max

Joy: trama de flashback.
 
Era natural que depois de Mad Max: Estrada da Fúria (2015) cravar dez indicações ao Oscar (concorrendo para além de categorias técnicas entrou no páreo de melhor filme e direção) e conquistar seis estatuetas (todas técnicas) que o filme seguinte renderia especulações sobre presença em premiações, especialmente por conta de todo o burburinho causado pelo fato da nova aventura estar centrada em Furiosa, a personagem antológica de Charlize Theron (que roubou a cena do Max vivido por Tom Hardy). O hype estava no auge, mas diminuiu quando foi dito que Charlize não voltaria para um novo filme, que deveria contar a origem da personagem. Coloque uma pandemia no meio e uma greve de roteiristas e o que temos é quase dez anos de intervalo entre um filme e outro. Se havia mostra de que os ânimos do público haviam esfriado, a coisa se concretizou quando Furiosa - Uma Saga Mad Max flopou nas bilheterias. Diante do fracasso de um dos filmes que era alardeado como um dos mais aguardados do ano, não faltaram especulações sobre o motivo das pessoas não irem mais aos cinemas. Argumentaram que o gasto é alto (ingresso, estacionamento, lanche, tempo de deslocamento) são postos em um pacote em que o público prefere aguardar alguns meses e vê-lo no streaming. Ok, mas por que o público escolhe aguardar um pouco mais para ver um filme em casa e outros prefere ver no cinema (e o sucesso de Divertida Mente2 - que tem entrada garantida no Disney+ - e o recente Alien: Romulus surpreenderam nas bilheterias)? O que é difícil de admitir é que o próprio filme seja a explicação. O diretor George Miller imprime em Furiosa o mesmo esmero técnico de Estrada da Fúria, são cenas de ação elaboradas, um ritmo frenético, ação, brutalidade estilizada e o que mais fizeram daquele filme um sucesso, só que o sucesso de 2015 ampliava tudo que os filmes anteriores da saga trazia, Furiosa os repete. Por mais de Anya Taylor Joy se esforce como a versão jovem da personagem, ela não é a Furiosa de Charlize Theron e a necessidade do filme rezar a cartilha Mad Max com seus vilões consagrados, seus carros correndo pelo deserto enquanto gangues tentam destruir umas as outras deixam aquela sensação inevitável de que já vimos tudo isso antes. Volte agora a pensar nos gastos do público e você pagaria tanto para ver mais do mesmo? Muita gente decidiu que não. Obviamente que muita gente vai ponderar sobre o discurso anti-lacração, mas então eu lembro de Alien: Romulus (e de toda a saga com Ripley e suas discípulas) e não sei se ele se encaixa por aqui. Sobre o filme cabe dizer que ele não é muito original na criação da origem de sua vigorosa personagem, sendo exatamente o que já imaginamos que fosse. Num mundo em ruínas, quando pequena ela foi sequestrada por uma gangue e foi parar na mão de um sujeito sem escrúpulos, o Dementius (achei péssima escolha colocar Chris Hemsworth no papel, ele parece preso em Thor: Amor e Trovão/2022 até hoje) e come o pão que o apocalipse amassou. Obviamente que ela cresce revoltada e, diante de circunstâncias, que não vale detalhar muito por aqui, cresce com sede de vingança. É sobre isso. A maioria dos personagens me pareceu idiota em toda ação e correria em quase três horas de filme. O ponto alto do filme fica por conta do esforço de Joy e a grata surpresa de ver Tom Burke (geralmente escalado em filmes indies) como parceiro da heroína. Os dois tem uma química inesperada e se torna a maior surpresa do filme, embora o desfecho do romance também siga o caminho da obviedade.  Apesar da sensação de dejá vù que paira sobre o filme, seria demais dizer que Furiosa (orçamento inchado de 180 milhões de dólares e bilheteria aproximada de120 milhões) merecia fracassar, mas as reflexões de sua bilheteria decepcionante poderia fazer Hollywood repensar um pouco sobre seus projetos ambiciosos e flops recentes. 

Furiosa - Uma Saga Mad Max (Furiosa: A Mad Max Saga - 2024/ Austrália - EUA) de George Miller com Anya Taylor-Joy, Crhis Hemsworth,Tom Burke, Alyla Browne,Lachy Hulme, John Howard e Nathan Jones. ☻☻☻

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO 2024

Maeve Jinkins em Pedágio: melhor filme, melhor direção e roteiro original.
 

Fazia tempo que o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro precisava de um nome mais sonoro para se tornar popular, parece que finalmente isso aconteceu quando assumiram de vez o nome de Troféu Grande Otelo. Fazia tempo que a premiação não me empolgava tanto, provavelmente isso aconteceu pelo retorno dos investimentos no cinema em nosso país e o lançamento de projetos mais diversificados e empolgantes. Eu fiquei muito feliz com a consagração dos filmes premiados, ainda estranho o jeito meio improvisado com que a premiação é transmitida, mas mesmo foi com uma pergunta na cabeça: se a Academia Brasileira de Cinema considera Pedágio o melhor filme do ano, com a melhor direção e melhor roteiro original, por que não o escolheu para disputar uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro em 2024? Enfim... antes de Retratos Fantasmas sair daqui com as mãos abanando (perdendo até a categoria de melhor documentário), eu já não entendia a esnobada que o filme de Carolina Markovicz recebeu na época da escolha. Enfim, parabéns Carol! Seguem todos os premiados da noite de ontem:

MELHOR TRILHA SONORA
    Aumenta que É Rock’n’roll
   
MELHOR FIGURINO
    Mussum, o Filmis
   
MELHOR MAQUIAGEM
    Mussum, O Filmis
   
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
    O Sequestro do Voo 375

MELHOR SOM
    O Sequestro do Voo 375
   
MELHOR EFEITO VISUAL
     O Sequestro do Voo 375
   
MELHOR DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA
    O Rio do Desejo

MELHOR MONTAGEM
     O Sequestro do Voo 375
   
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
   Uma Mulher Pensando

MELHOR SÉRIE BRASILEIRA DOCUMENTÁRIO
   O Caso Escola Base
   
MELHOR LONGA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO
    Elis & Tom, Só Tinha de Ser Com Você
  
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
    Mulher Vestida de Sol
   
MELHOR SÉRIE BRASILEIRA DE ANIMAÇÃO
    Esquadrão do Mar Azul (TV Rá Tim Bum)
 
MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
    Perlimps
   
MELHOR CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO

    A Menina e o Mar
   
MELHOR SÉRIE BRASILEIRA FICÇÃO
    Cangaço Novo (Prime Video)
   
MELHOR ATRIZ SÉRIE DE FICÇÃO
    Alice Carvalho (Cangaço Novo)
  
MELHOR ATOR SÉRIE DE FICÇÃO
    Júlio Andrade (Betinho – No Fio da Navalha)
 
MELHOR LONGA METRAGEM INFANTIL

    Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo
   
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
     O Sequestro do Voo 375
   
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
    Pedágio

VOTO POPULAR
    Pérola 

MELHOR LONGA METRAGEM IBERO-AMERICANO
    La Sociedad De La Nieve (Espanha) - Direção: J.A. Bayona

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
    Arlete Salles (Tia Virgínia)
   
MELHOR ATRIZ LONGA-METRAGEM
    Vera Holtz (Tia Virgínia)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
    Jorge Paz ( O Sequestro do Voo 375)
   
MELHOR ATOR LONGA-METRAGEM
    Ailton Graça (Mussum, o Filmis)
   
MELHOR PRIMEIRA DIREÇÃO DE LONGA-METRAGEM
    Silvio Guindane (Mussum, o Filmis)

MELHOR DIREÇÃO
    Carolina Markowicz (Pedágio)

LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO
        Pedágio

domingo, 25 de agosto de 2024

PL►Y: Às Vezes eu Penso em Sumir

Dave e Daisy: aquela sensação de querer ser invisível.

Fran (Daisy Ridley) é a funcionária de um escritório que passa a maior parte do expediente quieta em seus afazeres. Embora dê conta de seu serviço, várias vezes durante o dia, seu pensamento divaga sobre estar morta. Acontece que por boa parte do seu dia, Fran parece não ter vida. Ela não interage muito com os colegas. Não entra em contato com a família. Não conversa com vizinhos ou parece ter amigos conquistados ao longo da vida. Pode ser um mecanismo de defesa para evitar decepções, mas também um comportamento que instiga o espectador a conhecer um pouco mais daquela personagem que não demonstra ter atitudes suicidas. A esperança de alguma mudança em sua vida parece vir com a chegada de um novo funcionário, Robert (Dave Merhej), que começa a conversar com Fran tirando dúvidas pelo chat da empresa. Os dois começam a se aproximar, pelo menos até uma distância considerada segura por ela. Existem boas ideias neste filme da diretora Rachel Lambert que não faz concessões na condução da narrativa. A protagonista tem poucos diálogos, o ritmo é lento (arrastado mesmo), não existem alívios cômicos óbvios e desperta a estranha sensação de uma certa poesia quando a protagonista imagina a morte. Isolada em seu mundinho, Fran recebe um trabalho bastante intimista de Daisy Ridley que dá conta dos conflitos internos de sua personagem sem maiores problemas, especialmente quando sua personalidade entra em choque com as expectativas de Robert com relação à ela. Ele mal imagina o esforço que ela faz para deixar que ele se aproxime de seu universo particular e, ao mesmo tempo, o filme deixa claro que de nada adianta o mundo se abrir para Fran, se ela permanecer fechada. Esta tentativa de receptividade da personagem existe quando ela aceita o convite para sair e em outros momentos do filme, mas  o oposto também ocorre quando ela percebe que Robert pretende tomar ainda mais espaço em sua vida. Obviamente que ela se sente ameaçada e com isso, algumas de suas atitudes a fazem repensar no seu papel em tudo o que sente. Parece complexo demais? Talvez seja mesmo e Às vezes eu Penso em Sumir termina justamente quando a personagem revela seus maiores segredos, em plena consciência do estranhamento que pode provocar, ela  recebe a cena mais terna do filme. Aposto que durante a confissão ela desejava desaparecer, mas com a resposta recebida, considero que ela sentiu-se grata por existir. Não é um filme para todos os gostos, mas faz pensar sobre a vida e a forma como nos relacionamos com as pessoas que atravessam nosso caminho. Sejam Frans ou Roberts. 

Às Vezes eu Penso em Sumir (Sometimes I Think About Dying / EUA-2023) de Rachel Lambert com Daisy Ridley, Dave Merhej, Parvesh Cheena, Marcia DeBonis, Megan Stalter e Bree Elrod. ☻☻☻

PL►Y: Fúria Primitiva

Patel: estreia na marra como diretor.

Sempre acho interessante quando um ator quer sair do nicho em que Hollywood tentou o colocar e consegue enveredar por outros ares. Isso acontece com Dev Patel, o ator britânico de 34 anos se tornou conhecido com a série Skins (2007-2013), mas chegou aos cinemas com Quem Quer Ser Um Milionário (2008) de Danny Boyle. Embora o filme tenha agradado a Academia e recebido oito Oscars (incluindo filme e direção), sua primeira indicação ao prêmio só veio como ator coadjuvante em Lion (2017). Desde então o ator tem investido em produções diferentes e desafiadoras (como A Lenda do Cavaleiro Verde/2021), mas, não satisfeito, resolveu se aplicar como diretor, produtor e roteirista. No recente Fúria Primitiva ele assume os três serviços atrás das câmeras e também atua, numa verdadeira prova de que o moço é capaz de muito mais do que esperavam dele. No longa ele interpreta o protagonista que ganha a vida em lutas clandestinas, em que se esconde por trás de uma máscara de macaco (daí o nome original do filme Monkey Man). Na primeiras cenas de ringue já temos uma amostra do que o filme irá nos apresentar: lutas sujas, violência, sangue e edição frenética. Mas a vida do rapaz tem mais do que ser pago para perder todas as noites.  Seu passado é marcado por uma tragédia, que fermenta nele um desejo de vingança que o fará desafiar pessoas tão poderosas quanto perigosas. Não vale falar muito mais do que isso para não estragar as surpresas que o filme reserva, mas também, em termos de sinopse, não existe mais do que isso. O que torna a estreia de Dev na direção um projeto impressionante é a sua desenvoltura em construir cenas de ação vertiginosas que bebem diretamente na inspiração em John Wick. A diferença está na ambientação em uma Índia impregnada de problemas sociais, tráfico sexual, religiosidade e tudo mais que você possa imaginar. Patel utiliza estes elementos para construir a identidade do seu filme e também de seu protagonista e não tem medo de banhar tudo com cores fortes e sanguinolentas. Essa mistureba toda fez com que a Netflix temesse o lançamento do filme diretamente em seu catálogo, mesmo após investir cerca de 30 milhões de dólares no projeto, mas embora o resultado careça de uma costura mais firme entre todos os elementos que apresenta, a produção funciona bem ao elevar a adrenalina da plateia. Resta dizer que o filme chamou até dos amantes de filme de ação, o que carimba de forma positiva a estreia de Patel como cineasta e acho que nem precisa dizer que ele está muito bem no papel principal (embora tenha quebrado uma mão, dois dentes, deslocado o ombro e conseguido uma infecção no olho), confesso que nunca teria o imaginado protagonizando um filme feito esse, e, acho que por pessoas feito eu, que resolveu bancar o projeto. Grata surpresa. 

Fúria Primitiva (Monkey Man / EUA - Canadá - Singapura - Índia / 2024) de Dev Patel com Dev Patel, Sharlto Copley, Pitobash, Jatin Malik, Sikandar Kher, Sobbhita Dhulipala e Ashwini Kalsekar. ☻☻☻☻