terça-feira, 30 de abril de 2019

PL►Y: O Peso do Passado

Nicole: quando o passado volta. 

Uma policial experiente se depara com um caso de assassinato que remete diretamente a uma investigação do início de sua carreira. A investigação, que alterou os rumos de sua vida pessoal e profissional, mostra-se a chave para a resolução deste novo caso, no entanto, resgatar aspectos do passado pode ser mais perigoso do que ela imagina. O ponto de partida do novo filme da diretora Karyn Kusama pode até não ser um primor de originalidade, mas a cineasta consegue manter um clima de tensão crescente ancorada por um elenco interessante, capitaneado por uma Nicole Kidman quase irreconhecível. Kusama (que estreou com Girlfight/2000 para logo ser absorvida pelos grandes estúdios com Aeon Flux/2005 e Garota Infernal/2009) demonstra aqui grande habilidade para inserir camadas em sua narrativa, ao contar sua história, ela sabe exatamente como utilizar flashbacks para que possamos conhecer ainda mais os acontecimentos que deixaram a protagonista do jeito que a conhecemos. Desde a primeira cena, a detetive Erin Bell (Kidman) parece destruída. Seu andar é arrastado, sua voz é sem energia, seu olhar é cansado, mas em nenhum momento deixamos de perceber que debaixo daquela aparência em frangalhos existe astúcia suficiente para desvendar o caso que tem em mãos. O problema é que conforme ela mergulha nos efeitos do passado no presente, ela lidará com algumas verdades que preferia deixar escondidas. Afinal, toda a vida de Erin parece ter sido sugada por uma espiral de acontecimentos que lhe fugiu totalmente ao controle. Do relacionamento com o ex-marido passivo (Scoot MCNairy), das explosões com a filha adolescente rebelde (Jasde Pettyjohn) vemos que  tudo é afetado pelas figuras do passado que Erin reencontra pelo caminho. Entre amigos, traficantes, assaltantes, informantes o tom conjuga drama, suspense e boas cenas de ação, sem perder o tom seco da narrativa sem floreios. Vale ressaltar que a fotografia não está ali para embelezar nada e a edição é áspera de propósito. Todo este estilo combina com uma Nicole Kidman desconstruída impressiona ainda mais no contraste da personagem entre passado e presente. O trabalho rendeu para atriz vários elogios e algumas indicações a prêmios (incluindo ao Globo de Ouro de atriz dramática) e pode se dizer que sua atuação é a espinha dorsal da trama. No fim das contas, O Peso do Passado pode não ser tão original quanto ambicionava, mas é conduzido com firmeza pela diretora, que compõe aqui seu trabalho mais ambicioso e autoral. Aquele tipo de filme que te deixa curioso para o próximo passo de um cineasta. 

O Peso do Passado (Destroyer / EUA – 2018) de Karyn Kusama com Nicole Kidman, Sebastian Stan, Toby Kebbell, Tatiana Maslany, Scoot McNairy, Jade Pettyjohn e Toby Huss. ☻☻☻

4EVER: Beth Carvalho

05 de maio de 1946   30 de abril de 2019

A carioca Elisabeth Santos Leal de Carvalho é uma destas artistas que transcendem o título de cantora e compositora, ela se tornou um ícone. Uma das maiores referências do samba em nosso país, Beth Carvalho lançou álbuns que se tornaram clássicos, músicas que se tornaram hinos e fez shows que fizeram história. Beth começou sua carreira em ritmo de Bossa Nova e aos poucos rendeu-se ao samba. Em sua carreira fez parceria com grandes nomes da música e ajudou a revelar vários artistas (Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz... uma lista realmente extensa). Desde 2009 a cantora sofria de problemas graves na coluna, ao ponto de se submeter a uma cirurgia em 2012. Seis anos depois, a cantora chamou atenção em um show em que cantava deitada seus maiores sucessos. A atriz faleceu de infecção generalizada aos 72 anos. 

Na Tela: Cafarnaum

Treaure e Zain: talentos precoces em drama libanês. 

Me arrisco a dizer que neste ano os concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro não fariam feio se figurassem no páreo de melhor filme (um deles, Roma, até apareceu nas duas categorias e acabou levando o prêmio de filme estrangeiro para a casa junto com outras cobiçadas estatuetas). Outro concorrente deste ano foi Cafarnaum, um dos filmes mais tristes que já assisti na vida e, ao mesmo tempo, um dos mais instigantes pela forma como a diretora Nadine Labaki consegue extrair atuações genuínas de seus protagonistas mirins. É verdade que há tempos existe a premissa de que filmes com crianças protagonistas são irresistíveis para os votantes da Academia (e eu poderia passar horas escrevendo sobre filmes com meninos e meninas que levaram o prêmio para casa e outros pré-indicados que nem foram indicados, inclusive brasileiros...), mas arrisco a dizer que nenhum deles possuía um protagonista do quilate de Zain Al Rafeea, um franzino garoto de quatorze anos que tem os olhos mais expressivos dos últimos tempos. Ele interpreta Zain, um menino morador da cidade de Cafarnaum que trabalha para ajudar a família a sustentar uma infinidade de irmãos e irmãs. Não demora muito para saber que a situação do guri não foi das melhores, já que somos apresentados a seus pais num tribunal, ali descobrimos que ele foi preso por um ato violento cujas motivações descobriremos aos poucos. Parte da história apresenta como o relacionamento com a família se desgastou, para depois termos um respiro de tranquilidade quando aparece em cena Rahil (a excelente Yordanos Shiferaw), uma imigrante ilegal que trabalha num parque de diversões enquanto esconde o seu bebê, que torna sua situação no país ainda mais preocupante. O trio irá formar uma família incomum, até que novas surpresas atrapalham a trajetória de todos eles. Falando nisso, a outra interpretação infantil que impressiona no filme é do bebê de Rahil, Yonas (Boluwatife Treasure Bankole), que deixa o trabalho da cineasta ainda mais impressionante. Labaki conta a história com sensibilidade impressionante em uma linguagem quase documental. O filme tem momentos ternos e até bem-humorados, mas que em momento algum disfarça a tragédia humana que nos é apresentada. O nó na garganta é inevitável e o desfecho só ressalta que precisamos estar mais atentos à atenção que oferecemos para as futuras gerações. Em meio aos caos emocional apresentado pelo filme (ambientado em uma cidade conhecidamente bíblica), Cafarnaum alcança um resultado devastador, doloroso e inesquecível. Embora o penúltimo ato pudesse ser um pouquinho mais enxuto, a obra apresenta uma força bastante incomum. 

Cafarnaum (Capharnaüm / Líbano - França - EUA / 2018) de Nadine Labaki com Zain Al Rafeea, Boluwatife Treasure Bankole, Yordanos Shiferaw e Kawsar Al Haddad. ☻☻☻

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Na Tela: Vingadores - Ultimato

Chris, Robert, Rocket...: sobreviventes contra Thanos. 

Considero até difícil escrever sobre Vingadores: Ultimato (foi difícil até a escolha da foto que vocês estão vendo acima). Quando se fala do filme que conclui tudo o que se viu na tela do cinema da Marvel Studios até aqui, uma palavra resume tudo: espetacular. Tudo é tão grandioso que todo mundo já sabe que o filme baterá recordes de bilheteria e fincar outros que serão bastante complicados para qualquer outro filme destinado às massas superar. Foram vinte e dois filmes em dez anos que criaram uma escala única para os filmes de super-herói. A esta altura não resta dúvida que o planejamento foi tudo para o estúdio, a forma como apresentou cada personagem, o jeito que inseria um novo herói neste universo, como os repaginava e amadurecia seus personagens a cada nova aventura. Estava tudo ali para gerar novos parâmetros para o gênero (a Warner/DC que o diga). Por isso mesmo é tão interessante assistir ao filme no cinema, que além da grandiosidade que só a sala escura permite, nos faz ver adultos e crianças, pais e filhos curtindo a aventura juntos na mesma plateia. Vi crianças emocionadas e marmanjos chorando ao longo de três horas de projeção. Precisa dizer que bateu aquele desespero no final de Guerra Infinita quando metade dos nossos heróis (assim como metade das criaturas do universo) viraram pó com o estalo de dedos do vilão Thanos (Josh Brolin)? Vários heróis ficaram pelo caminho e sobraram os Vingadores originais ao lado de outros que sobreviveram de forma quase aleatória. Depois da catástrofe o mundo não é mais o mesmo. Cinzento e amargando a dor da perda, resta ao Capitão América (Chris Evans) fazer terapia de grupo, o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) padecer no espaço, a Viúva Negra (Scarlett Johansson) perceber-se impotente diante do destino, Thor (Chris Hemsworth) encher a cara... pelo menos até certo ponto, já que o filme subverte nossas expectativas ali, logo nos primeiros vinte minutos. Ali percebemos que o principal não é acabar com o vilão, mas voltar à vida depois que metade dela foi extinta. Eis que quando o Homem-Formiga (Paul Rudd) reaparece e surge a esperança, ainda que arriscada. A sorte é que ela não apenas é arriscada como também é o caminho para se fazer uma homenagem a tudo o que vimos nos filmes da Marvel durante esta década. Neste ponto, não deixa de ser engraçado que alguns personagens tenham sofrido mudanças consideráveis (Hulk e Thor principalmente) e irão rever alguns fatos de sua história sobre uma nova ótica. É complicado escrever sem spoilers, mas será que alguém ainda não viu o filme? O fato é que a Marvel oferece o maior número de fan services possível para o seu público, além de deixar várias pistas pelo caminho do que teremos pela frente (alguém mais percebeu Namor rondando Wakanda?). Não bastasse seus dois atos iniciais, o terceiro ato reserva o final mais apoteótico de um filme baseado em HQ! Foi arrebatador ver o público gritando, aplaudindo e vibrando com o desfecho do filme. Era tudo que ficou engasgado desde a vitória de Thanos no filme anterior, houve uma catarse coletiva que nunca vivenciei numa sala de cinema. No entanto, o filme serve para arrematar a jornada do trio vingador inicial. É verdade que estas conclusões tem muito do contato dos atores com a vida real e suas agendas, projetos e... pagamentos (o cachê de Downey Jr. ficou estratosférico com o percentual de bilheteria, o que o estabeleceu como o artista mais bem pago de Hollywood), no entanto, as despedidas também inserem uma renovação deste universo.  Vingadores: Ultimato é um filme onde tudo é superlativo, praticamente um fenômeno pop que se tornou um evento mundial em sua estreia. A mistura de aventura, ação, bom humor e drama consolida aqui um  equilíbrio que o estúdio tanto desejava, mas, depois dos créditos, de toda a emoção e euforia começo a me perguntar como será esta nova fase sem alguns de seus maiores ícones. A ausência de cena pós-crédito só me faz pensar que eles ainda estão pensando neste problema técnico. A expectativa só aumenta. 

Vingadores - Ultimato (Avngers: Endgame / EUA - 2019) de Joe e Anthony Russo com Robert Downey Jr, Chris Evans, Chris Hemsworth, Brie Larson, Paul Rudd, Josh Brolin, Mark Ruffalo, Scarlet Johansson, Jeremy Renner e Bradley Cooper. ☻☻☻

10+ Meus Favoritos da Marvel

Foram três fases, dez anos e vinte e dois filmes até que a Marvel Studios arrematasse sua primeira década nas telonas. Até chegar a Vingadores: Ultimato (2019) todo mundo deve ter seus dez filmes favoritos do estúdio. Alguns eu aprendi a gostar mais com o tempo, outros eu fui gostando menos quando revia, enfim, estes são os que mais gosto de rever: 










4EVER: John Singleton

06 de janeiro de 1968   29 de abril de 2019

John Daniel Singleton nasceu em Los Angeles. Filho de um corretor e uma executiva da indústria farmacêutica, ele cresceu com os pais separados e assim que terminou o ensino médio em 1986 frequentou um curso de roteiros - no qual recebeu três prêmios ao longo de sua duração. Seu talento logo foi percebido. Em 1991 a Columbia Pictures comprou o seu roteiro de Boyz in the Hood, que ele mesmo dirigiu em sua estreia como cineasta. O filme baseado em suas próprias vivências surpreendeu pela maturidade, gerando boa bilheteria e conseguindo duas indicações ao Oscar: direção e roteiro original. O feito o fez entrar para história aos 25 anos de idade! Antes dele nenhum cineasta afro-americano fora indicado ao Oscar de Melhor Diretor. Com Cuba Gooding Jr, Angela Bassett, Ice Cube e Laurence Fishburne no elenco, Os Donos da Rua marcou época (e lembro até hoje quando a minha tia o indicou para assistir, dizendo que era "um filme diferente"). Singleton dirigiu mais oito filmes, incluindo o sucesso +Velozes +Furiosos (2003), clipes para artistas consagrados e nos últimos anos se dedicava às séries de TV. O cineasta faleceu em consequência de um AVC. 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

NªTV: Special

Ryan: Paralisia cerebral leve e muito bom humor. 

Já escrevi aqui no blog que a vida anda bastante corrida e está cada vez mais complicado conseguir assistir a um filme chegando em casa depois do trabalho. No fim de semana os afazeres domésticos também tomam mais tempo do que eu gostaria... no meio desta correria seguida de cansaço tenho procurado ver séries com poucos episódios e de capítulos mais curtos. Sendo assim, quando vi Special no catálogo da Netflix ela caiu como uma luva. Porém, antes de continuar este post, aviso que se você tem problemas com séries com personagens homossexuais você não precisa assistir a série ou ler o que escrevo, mas se você está mais preocupado com outras questões, Special será uma boa surpresa. Após ver o primeiro episódio eu pesquisei sobre o ator criador da série, Ryan O'Connel, que realmente tem paralisia cerebral e assumiu a homossexualidade publicamente aconselhado pelo amigo Jim Parsons (o Sheldon de Big Bang Theory) - que assina esta série baseada em muitas desventuras vividas pelo próprio Ryan. Este tempero pessoal recebe doses cavalares de humor e sinceridade, o que proporciona ao espectador uma ótica bastante diferenciada sobre o personagem. Sem deixar de tocar em assuntos sérios como auto-estima, virgindade, mentiras, autonomia e preconceito, a série consegue fluir com uma naturalidade desconcertante. Episódios com a tentativa de perder a virgindade com alguém que conheceu na internet ou quando Ryan decide morar sozinho, são tratadas de forma bastante espontânea, mais eficiente que muito filme indie que se acha descolado. Os episódios curtinhos juntos parecem compor uma longa metragem de duas horas que se assiste tranquilamente. Carismático e bem-humorado, O'Connell já provou anteriormente não ter medo de tocar em suas feridas quando lançou o livro "Eu Sou Especial e Outras Mentiras que Contamos a Nós Mesmos" que foi lançado em 2015, ano em que começou a construir uma bem sucedida carreira de roteirista de séries de TV (escreveu para Awkwards, Daytimne Divas e Will & Grace). O tom da série é bastante pessoal, o que torna a interpretação de Ryan um verdadeiro achado e vale ressaltar que ele está muito bem acompanhado. Jessica Hecht está ótima como a mãe que precisa deixar o filho crescer e viver a própria vida - e percebe que ela terá que fazer o mesmo, especialmente quando aparece um vizinho bombeiro aposentado (Patrick Fabian). Punam Patel também transborda carisma como a colega de trabalho do protagonista que aos poucos se torna sua melhor amiga. Devagar os personagens rompem padrões e estereótipos, seja da pessoa com deficiência, a mãe devotada, a mulher acima do peso se tornam personagens mais complexos e com novas nuances nesta série bastante divertida e humanista. Um verdadeiro acerto da Netflix.  

Special (EUA-2019) de Ryan O'Connell com Ryan O'Connell, Jessica Hecht, Punam Patel, Patrick Fabian, Marla Mindelle e Augustus Prew.  ☻☻☻

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Na Tela: Um Banho de Vida

Anglade, Almaric, Canet, Benoît: atletas, mas nem tanto. 

Quem já passou dos trinta deve lembrar da comédia inglesa Ou Tudo ou Nada (1997) que conseguiu até indicações ao Oscar ao contar a história de um grupo de desempregados que resolviam ganhar dinheiro fazendo strip-tease para a vizinhança, com humor parecido o filme francês Um Banho de Vida conta a história de homens pouco atléticos que compõem um curioso grupo de nado sincronizado. No entanto, o maior problema dos personagens está longe de ser a barriguinha avantajada ou as articulações menos flexíveis com o peso anos, afinal, sobram problemas pessoais  e familiares que os deixam cada vez mais desanimados. Bertrand (Mathieu Almaric) está afastado do trabalho há algum tempo e só recebe o desprezo do filho mais velho. O explosivo Laurent (Guillaume Canet) não consegue dialogar com a esposa ou o filho que está cada vez mais afetado pela gagueira. Marcus (Benoît Poelvoorde) tem cada vez mais problemas com o trabalho prestes a falir. Simon (Jean-Hugues Anglade) tenta seguir carreira na música há décadas, mas não consegue empolgar nem a filha. Thierry (Phillipe Katerine) parece ter perdido um parafuso nas inúmeras vezes que o time de pólo aquático o jogou na piscina... embora os outros personagens do nado sincronizado não recebam igual destaque na história, nota-se que a vida deles também está longe de ser um sucesso. Em meio aos rumos que a vida lhes reservou, este grupo de homens se encontra por acaso em torno do esporte bem menos difundido que sua versão feminina. As mulheres até dão a cara neste time como treinadoras determinadas: uma está à beira do abismo (Virginie Efra) e outra (Leïla Bekhti) não faria feio diante dos generais mais durões que o cinema já apresentou. Embora seja um passatempo no início, a coisa muda de figura quando o grupo se inscreve numa competição oficial em que irão representar a França. Dirigido por Gilles Lellouche o filme segue um tanto frouxo com seu senso de humor inofensivo e os dramas de seus personagens, mas tem a sorte de contar com uma verdadeira coleção de bons atores franceses para impulsionar o interesse... e funciona! Embora nenhum ator tenha um grande momento em cena, o desfecho do grupo é apoteótico e compensa qualquer tropeço na cadência da narrativa. Ao assistir o filme tive a impressão que em breve ele ganhará uma versão hollywoodiana, mas pesquisando sobre ele na internet descobri que se trata da versão de um filme sueco que já se tornou até matéria-prima para um documentário britânico. Curiosamente, no mesmo ano que este filme francês se tornou sucesso na Europa, uma versão inglesa, chamada Nadando com Homens, naufragou nas bilheterias na terra da Rainha (também, com um nome destes... aff!). Enfim, nada impede que Hollywood recicle a ideia e coloque Steve Carrell como o deprimido Bernard e o sumido Tobey Maguire como um temperamental Larry em breve. 

Um Banho de Vida (Le Grand Bain / França - Bélgica / 2018) de Gilles Lellouche com Mathieu Almaric, Guillaume Canet, Jean Hughes Anglade, Benoît Poelvoorde, Phillipe Katerine, Virginie Efra, Leïla Bekhti e Jonathan Zaccaï. ☻☻☻

terça-feira, 23 de abril de 2019

Na Tela: O Retorno de Ben

Julia e Lucas: luta contra as drogas. 

É interessante perceber como Julia Roberts deixou de ser a namoradinha da América para interpretar papéis maternais sem maiores conflitos. Quando começou a se aventurar por esta seara ganhou até um Oscar de atriz (por Erin Brockovich/2000) e treze anos depois foi lembrada pela Adademia pelo papel da mãe amarga de Álbum de Família (2013) - só que desta vez na categoria de coadjuvante. Ela quase repetiu a dose com O Retorno de Ben, mas o fato de ninguém ter se empolgado muito com o filme prejudicou o longa nas premiações. Mas nem só de Julia Roberts vive o filme, Lucas Hedges também está ótimo em cena, embora seja jovem (22 anos), Lucas tem uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por Manchester à Beira-Mar (2016) e no ano passado procurou papéis mais desafiadores. Foi o jovem homossexual em sofrido tratamento em Boy Erased e aqui interpreta um rapaz que afundou no mundo das drogas. Responsável por ser o Ben do título, o ator consegue dar conta de várias nuances do protagonista. Convence como o jovem simpático de que é bastante fácil gostar nos momentos iniciais do filme, para aos poucos revelar o quão sombria foi sua descida ao inferno, descida que a mãe devotada, Holly (Roberts) descobrirá os detalhes mais sórdidos praticamente junto com o público. Lucas e Julia são responsáveis por tudo o que funciona no filme, os dois tem uma boa química em cena e estão bastante convincentes. Ela em seus exageros de mãe zelosa, ele no tom escorregadio de alguns diálogos e olhares sombrios. Graças aos dois que o filme engrena fácil em sua primeira hora, ao ponto de acharmos até injusta a forma como outros membros da família tratam o rapaz (especialmente o padrasto vivido por Courtney B. Vance). O roteiro cresce nos encontros reservados pela trama, um amigo que  continua nas drogas, uma mãe que perdeu a filha para a heroína, um antigo conhecido da família, uma casa específica, uma rua... só pela desconfiança constante da mãe sobre o filho o filme já valeria a pena ao instigar o espectador a confiar ou não no moço. No entanto, lá pelo meio do caminho, o roteiro faz uma guinada que por vezes ganha momentos absurdos, quase risíveis (a cena da menina rastreando os celulares é de lascar). O tom de suspense ganha espaço após um roubo na casa da família, fato que colocará mãe e filho numa longa jornada noite adentro em que as verdades mais dolorosas virão à tona. A partir deste ponto, o filme se afasta das sutilezas de outrora e tenta fabrica uma tensão desengonçada, que combina pouco com o que vimos anteriormente. A sorte é que Julia Roberts e Lucas Hedges imprimem tanta dignidade em suas interpretações que o público fica apreensivo pelo que acontecerá naquela dinâmica de mãe e filho. Curiosamente o filme tem outro laço familiar em sua produção: Lucas é filho do diretor Peter Hedges, que foi indicado ao Oscar de roteiro pelo excelente Um Grande Garoto (2002) e depois dirigiu filmes comédias tristes como Do Jeito que Ela é/2003 e Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada/2007. 

O Retorno de Ben (Ben is Back/EUA-2018) de Peter Hedges com Lucas Hedges, Julia Roberts, Courtney B. Vance, Kathryn Newton e Michael Esper. ☻☻☻