segunda-feira, 14 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: Meteoros

 
Pavoski: amadurecimento pós-apocalipse. 

Filmes sobre a passagem da adolescência para a vida adulta são bastante comuns e já se tornaram até um gênero cinematográfico ("coming of age") e, na grande maioria das vezes, o desafio de seus realizadores é conjugar o interesse sexual de seus personagens com desventuras um tanto inusitadas. Quando mais imprevisíveis são as desventuras, mais original o filme parece. Se em diversas outras sociedade existiam ritos que marcavam a passagem para a vida adulta, a nossa sociedade carece deste momento, o que confere ainda mais importância para a finalização do Ensino Médio, a ida para a faculdade e o primeiro emprego. O final do Ensino Médio é o período vivenciado pelos amigos Fralda (Matheus Pavoski) e Tito (Vinícius Beu). Os dois se conhecem há muito tempo e estão ansiosos para iniciarem suas vidas sexuais  - o que rende alguns problemas junto às meninas da escola. Em sua parte inicial, o filme não difere muito do que vemos em filmes adolescentes já realizados centenas de vezes, a diferença fica por conta do momento em que os dois bolam um plano de levar algumas garotas para um sítio afastado da cidade no carro que Tito acaba de comprar e... tudo sai errado. Na companhia de algumas drogas, a dupla irá para uma cidade deserta e passará por alguns apuros que podem custar até a vida deles. Meteoros é o filme de estreia de Luis Carone, que possui experiência em séries como Pico da Neblina (HBO) e Cidade Invisível (Netflix), o rapaz sabe contar sua história e aqui o faz num filme adolescente dividido em três atos: no primeiro é a típica comédia adolescente sobre namoro, no segundo é sobre a ideia de insegurança e isolamento de quem se perdeu no mundo e acha não vai encontrar de novo o caminho de casa (uma simbologia interessante perante as angústias dos amigos que mudam de foco conforme colocam a vida em risco), já a terceira é aquela em que precisam assumir responsabilidade e agir por conta própria para sair da enrascada em que se meteram, nesta parte, ainda precisem notar que precisam da ajuda de adultos, colocar a amizade sob nova perspectiva e, principalmente, deixar algumas ilusões de lado. Entre os atos que possui, meteoros subverte tudo o que achamos dele, até que o inevitável acontece com Fralda (Pavoski não convence como um rapaz de dezoito anos, mas a forma como o interpreta em desajeitada presença física até que funciona) que passa a ser chamado pelo seu nome e não mais pelo apelido infantilizante. No entanto, o destaque do elenco vai para a participação de Cyria Coentro que rouba a cena dos dois aventureiros sem fazer muito esforço. Meteoros é um bom filme sobre assumir responsabilidades e crescer além do tamanho e pelos pubianos. 

Meteoros (Brasil-2022) de Luis Carone com Matheus Pavoski, Vinícius Beu, Cyria Coentro e Carol Medeiros. ☻☻☻

domingo, 13 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: Os Primeiros Soldados

 
Reanata e Johnny: ótimas atuações em meio à chegada do HIV. 

Começando o Ciclo Verde e Amarelo de 2022, escolhi um filme que assisti meio que por acaso numa noite dessas. Trata-se de "Os Primeiros Soldados", que aborda um tema ainda pouco explorado no cinema brasileiro. Aqui temos a história de Suzano (Johnny Massaro) que passou um tempo na Europa antes de voltar para sua cidade natal para visitar a irmã (Clara Choveaux) e o sobrinho no Espírito Santo. O ano é 1983, mas durante o período em que esteve fora nada parece ter mudado com relação à vida de homossexuais em suas cidade, afinal, eles continuam se encontrando de forma clandestina e sofrendo preconceitos de formas variadas. Se para ele a realidade já é complicada, imagine para Rose (Renata Carvalho), uma travesti discriminada no transporte público ou no hospital em que grita por atendimento. A coisa só complica com uma doença diferente que ninguém sabe como é transmitida ou como tratar. Estamos nos anos 1980. O HIV começava a surgir no Brasil e contaminar principalmente um grupo já discriminado, adepto do sexo livre (presente da contracultura das décadas anteriores) e que era visto de forma marginalizada pela sociedade, especialmente quando a chamada "peste gay" apresentava seus primeiros sintomas. Dirigido por Rodrigo de Oliveira, Os Primeiros Soldados faz alusão aos primeiros que foram para a frente de batalha do enfrentamento da AIDS em meio a todos os mecanismos sociais que os discriminavam e não faziam a mínima ideia de como lidar com um vírus que liquidava a imunidade do organismo humano. A ideia do título fica ainda mais forte quando Suzano e Rose se juntam a Humberto (Vitor Camilo) numa casa de campo utilizando recursos enviados pelo parceiro estrangeiro de Suzano, no que seria a busca de um tratamento que ainda era experimental. O diário de bordo realizado pelo trio torna o filme ainda mais angustiante, seja pelo isolamento, seja pela falta de perspectivas e a ideia de que a morte está cada vez mais perto. A atmosfera de festas e conquistas sexuais logo é substituída por uma mais fúnebre e desesperançada, construindo um retrato bastante eloquente do período em que a trama se passa. Johnny Massaro apresenta aqui mais um belo trabalho, no início com um tom afetado que aos poucos se diluí em olhos marejados. Ele está muito bem acompanhado de Renata Carvalho (que também aparece no forte Vento Seco/2020, excelente na pele de uma mulher trans artista que ainda é rotulada de transformista. Os Primeiros Soldados é tão contundente que parece até ser uma dolorosa história verídica. Talvez seja. 

Os Primeiros Soldados (Brasil-2021) de Rodrigo de Oliveira com Johhny Massaro, Renata Carvalho, Clara Choveaux, Vitor Camilo e Alex Bonini. ☻☻☻☻

sábado, 12 de novembro de 2022

10+ Cotados para o Oscar 2023

 As conversas sobre o Oscar já estão bem avançadas e alguns filmes cotados já até estrearam por aqui. Top Gun: Maverick tem chances crescentes após fazer o dever de casa direitinho e pode até trazer Tom Cruise de volta ao gosto da Academia após longo jejum. Outro que pode ser lembrado é Elvis de Baz Luhrman, que pode deixar para trás outras biopics para trás - incluindo Blonde (Ana de Armas bem que merecia uma indicação) e I Wanna Dance With Somebody que conta a carreira da diva Whitney Houston. Quem parece ter lugar garantido é Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, que deve abocanhar várias indicações com sua história doida e cheia de sentimento. Alguns com assinaturas de prestígio já floparam pelo caminho, caso de The Son de Florian Zeller (podem chorar por Hugh Jackman, parece que a indicação não sai), White Noise de Noah Baumbach deve ficar pelo meio do caminho assim como Bardo de Alejandro Gonzalez Iñárritu (ambos da Netflix). Porém, a gigante do streaming tem um grande trunfo com todos os elogios de Nada de Novo no Front, o impressionante filme alemão que deve marcar presença em várias categorias enquanto desponta como favorito ao prêmio de filme internacional. A seguir outros filmes que possuem chances ampliadas nesta temporada de ouro: 

#01 "Aftersun" de Charlotte Wells 
Ao que tudo indica este filme banhando de doçura e melancolia sobre o encontro de pai e filha é o queridinho indie da temporada. Aclamado em suas exibições, o filme é contado a partir das memórias de uma mulher sobre suas férias no verão da Turquia ao lado do pai quando ainda era criança. Paul Mescal (que ficou conhecido por Normal People/2020) pode ser indicado pela primeira vez ao Oscar enquanto o filme tem chances em demais categorias, como roteiro original e até Melhor Filme pelo seu tom singelo. 

#02 "Babylon" de Demian Chazelle
Todos os filmes de Chazelle foram indicados ao Oscar, embora tenha chamado atenção com Whiplash (2014), ganho o prêmio de melhor direção por La La Land (2016), seu filme seguinte O Primeiro Homem (2018) foi lembrado somente em categorias técnicas, mas parece que com Babylon a coisa será diferente. O filme sobre a transição do cinema mudo para o falado promete fazer barulho na temporada de ouro. O filme é estrelado por Margot Robbie, Brad Pitt, Tobey Maguire, Jean Smart e Olivia Wilde e promete ser um daqueles de encher os olhos. 

#03 "Empire of Light" de Sam Mendes
Acham que Sam Mendes olha para sua estante e vê o Oscar recebido por sua brilhante estreia como diretor em Beleza Americana (1999) e imagina que já passou da hora de ganhar outro. Ele chegou perto com 1917 (2020), mas agora ele aposta em um filme que costuma cair no gosto da Academia: um filme sobre cinema. A trama mistura as lembranças de uma dona de sala de cinema e os problemas que possui para manter o empreendimento aberto, rendendo paralelos entre a vida e a arte. No elenco estão Colin Firth, Tobey Jones, Micheal Ward, mas quem tem chance mesmo de conquistar indicação é Olivia Colman (mais uma vez). 

#04 "She Said" de Maria Schrader
A Academia costuma curtir filmes sobre matérias jornalísticas, agora imagina um longa sobre um dos escândalos mais recentes da indústria do cinema. O longa recria a investigação das duas repórteres do New York Times (Carey Mulligan e Zoe Kazan) que ajudou a deflagrar o movimento #MeToo após diversas denúncias de abuso sexual nos bastidores de Hollywood. O filme pode ser lembrado nas categorias de filme, roteiro adaptado, atriz (Zoe Kazan) e atriz coadjuvante (Carey Mulligan). 

#05 "TÁR" de Todd Field
Todd Field não dirige um filme desde o excelente Pecados Íntimos/2006 (que o indicou ao Oscar de roteiro adaptado). Em 20 anos de carreira, este é apenas o terceiro filme dirigido pelo cineasta (o que é uma pena) e, ao que parece, seu talento para conduzir atores permanece intacto. Cate Blanchett interpreta a aclamada maestra Lydia Tár (personagem que é tão bem escrito que parece existir de verdade), mas que está prestes a cair em desgraça. Cate já é a favorita ao prêmio de melhor atriz da temporada, mas o filme também deve ser lembrado em categorias como filme, direção, roteiro original, montagem, fotografia e som. 

#06 "Till" de Chinonye Chukwu 
Enquanto muitas favoritas ao Oscar vão ficando pelo caminho,  o nome de Danielle Deadwyller cresce entre as apostas para cravar uma indicação. A Academia adora reconhecer o talento de novas estrelas entre suas indicações e a atriz está perfeita como a mãe com sede de justiça após seu filho ser assassinado brutalmente. Outro nome importante no elenco é Whoopi Goldberg que retorna às telas após um bom tempo sem papéis de destaque. O filme ainda pode concorrer em categorias como figurino e fotografia. 

#07 "The Banshees of Inisherin" de Martin McDonagh
Se podemos apontar um favorito ao prêmio de coadjuvante da temporada ele é Brendan Gleeson. Gleeson nunca foi indicado ao Oscar, mas está colhendo grandes elogios por sua performance em sua nova parceria com o diretor. Ao seu lado está Colin Farrell (outro querido do cineasta). Eles vivem dois amigos que depois de muito tempo rompem a amizade sem maiores explicações. Enquanto o personagem de Farrell fica devastado em busca de uma explicação o roteiro se desenvolve de forma surpreendente. O filme está cotado para as categorias principais (incluindo as de atuação). 

#08 "The Fabelmans" de Steven Spielberg
Fosse organizada por ordem de favoritismo, a nova empreitada de Steven Spielberg apareceria no algo desta lista. Recentemente exibido nos cinemas dos Estados Unidos, o filme coleciona elogios e soube transformar toda a expectativa em torno dele em favoritismo. Aqui, Spielberg revisita sua vida familiar e o nascimento de seu gosto pelo cinema de forma bastante emocionada. No elenco estão Michelle Williams no papel da mãe (e cotada como favorita na categoria de atriz coadjuvante), Paul Dano como o pai que vai embora e o prodígio Gabriel Labelle como protagonista. 

#09 "The Whale" de Darren Aronofsky 
Depois da aclamada estreia no Festival de Veneza, o novo filme de Aronofsky volta a ser mais intimista e conta a história de um professor com mais de duzentos quilos que deseja se reconciliar com a filha. Poderia ser só mais um filme dramático, não fosse pela assinatura valiosa de seu diretor e o marco do ressurgimento de um ator que há muito merecia retomar seu destaque em Hollywood: Brendan Fraser. Ele deve ser indicado ao Oscar de melhor ator e, se tudo der certo, deve sair premiado da noite. Com destaque também para as atuações de Sadie Sink e Samantha Morton, ambas podem ser indicadas também.  

#10 "Women Talking" de Sarah Polley
Falando de temas bastante atuais com sensibilidade, Sarah Polley pode finalmente ser indicada ao Oscar de direção pela primeira vez. Faz tempo que a atriz canadense dedica mais seu tempo à carreira de cineasta e aqui conta a história de um grupo de mulheres que vivem em uma comunidade religiosa isolada no ano de 2010. Com texto marcante e atuações inspiradas de Claire Foy, Frances McDormand, Rooney Mara, Jessie Buckley e Ben Whishaw, o filme deve ser um dos mais lembrados pela Academia. 

PL►Y: Passei por Aqui

McKay: grafiteiro em apuros. 

Passei por Aqui estreou na Netflix mês passado e chamou atenção de público e crítica pela sua atmosfera com tonalidades políticas (o que sempre dá um sabor especial a este tipo de filme). A produção é o novo projeto do diretor que fez bonito em sua estreia com Sob a Sombra (2016) e depois realizou o estranho Contato Visceral (2019). Em todos os seus projetos, nota-se que Anvari tem uma preocupação com temas atuais e criatividade suficiente para abordá-los com pitadas de fantasia e terror. Aqui ele deixa de lado o que seus filmes podem ter de mais fabuloso e finca os dois pés no chão para contar uma história que passa o foco da narrativa a cada um dos seus personagens, algo como uma troca de bastão. O filme começa com o rebelde grafiteiro Toby (George MacKay) que costuma invadir casas de endinheirados com o amigo Jameel (Percelle Ascott), a dupla deixa a frase do título escrita nas paredes e começa a ganhar atenção dos jornais. A mãe de Toby, Lizzie (Kelly MacDonald) não faz a mínima ideia do que o filho anda fazendo nas ruas (já que em casa ele não lava sequer a louça). O discurso rebelde contra o sistema é o que motiva o rapaz a continuar em suas desventuras, mas a coisa complica quando ele vai parar na casa de um figurão público da advocacia, Hector Blake (Hugh Bonneville), e descobre um chocante segredo escondido no porão daquele homem. Blake é cultuado como uma figura importante na defesa de refugiados, mas Toby descobre que sua persona é bem mais sinistra do que aparece nos telejornais. Conforme Blake ganha contornos de vilão, o filme começa a sepultar seu elenco de forma um tanto cansativa e perde alguns pontos quando começa a buscar uma causa estapafúrdia para as atitudes do ricaço (mas não dá para esperar muita lógica na mente de gente doida). Embora perca o ritmo aqui e ali enquanto firma o personagem de Hugh Bonneville como personagem principal, Passei por Aqui é um bom suspense sobre o que se esconde por trás do discurso sedutor de alguns cidadãos de bem, pena que as vidas que ficam pelo caminho não retornam para um final feliz.

Passei por Aqui (I Came By/Reino Unido - 2022) de Babak Anvari com George MacKay, Hugh Bonneville, Percelle Ascott, Kelly BacDonald, Antonio Aakeel, Franc Ashman e Tarik Badwan. ☻☻☻

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

4EVER: Gal Costa

 
26 de setembro de 1945 ✰09 de novembro de 2022

Maria da Graça Penna Burgos Costa nasceu na cidade de Salvador, Bahia, e estava destinada a se tornar uma das maiores vozes da música brasileira e do mundo. Sua maior influência como cantora foi João Gilberto e esta admiração a aproximou do sempre parceiro Caetano Veloso. Os dois ao lado de Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé fizeram parcerias e shows históricos se tornando um dos grande nomes do movimento que ficou conhecido como Tropicália. A cantora lançou álbuns históricos como Gal Costa (1969), Índia (1973), Tropical (1979) e Plural (1990). Desde seu trabalho em Recanto (2011), a cantora retomou sua pegada mais experimental e se aproximou ainda mais do público jovem. Considerado uma Diva de voz cristalina, Gal também ficou famosa por suas entrevistas, como aquela em que afirmava ter aprendido a cantar com uma panela na cabeça. Indicada seis vezes ao Grammy Latino, a cantora foi premiada em 2011 pelo conjunto de sua obra. A artista participou de dois projetos cinematográficos, o documentário Os Doces Bárbaros (1977) de Tom Bob Azulay e o longa O Mandarim (1995) em que viveu Carmen Miranda.  Sempre discreta com sua vida pessoal, Gal manteve relacionamentos duradouros em sua vida, mas nunca foi casada oficialmente. A artista faleceu por conta de um infarto fulminante em sua residência em São Paulo.  

terça-feira, 8 de novembro de 2022

PL►Y: Operação Cerveja

Efron e os soldados: maluca história real. 

É sempre interessante como um filme gera grande expectativa para a temporada de prêmios e depois observamos que sua força dilui até que seja esquecido no meio das apostas. Por vezes a expectativa é gerada pelo próprio filme que confia demais no que tem para apresentar ao público, outras vezes toda a expectativa fica por conta dos nomes envolvidos na produção. Operação Cerveja está no segundo grupo. O longa foi por um tempo aguardado como um dos favoritos para galgar categorias robustas no Oscar, no entanto, quando li a sinopse achei que seria difícil convencer os votantes da Academia de que um filme sobre um rapaz que resolve levar cerveja para seus amigos na Guerra do Vietnã era algo a ser levado a sério (embora seja baseado em uma história real bastante, digamos, pitoresca), porém, no alto dos créditos está Zac Efron em uma daquelas performances em que ele sempre almeja ser reconhecido não como colírio, mas como ator de verdade. Só que não é nome dele que alimenta todo o buzz premiável em torno do filme, mas o do diretor Peter Farrelly - que junto ao irmão Bobby Farrelly fez uma penca de comédias politicamente incorretas como Debi & Loid (1994), Quem Vai Ficar com Mary (1998), O Amor é Cego (2001) e por aí vai... até redefinir a carreira com um dos filmes mais controversos a levar o Oscar de melhor filme (e roteiro) para casa: Green Book (2018). Peter sempre teve interesse por abordar temas delicados de uma forma debochada em seus filmes, com seu longa oscarizado ele tentou demonstrar maior seriedade e aqui ele tenta fazer o mesmo. Tirando toda a expectativa em torno do filme, Operação Cerveja se mostra um filme bastante despretensioso perante o tema delicado que aborda. O longa é tecnicamente bem realizado em sua adaptação do livro biográfico de John "Chickie" Donohue que narra uma experiência inusitada em sua vida. Chikie tinha alguma experiência na Marinha Mercante, mas vivia acomodado com a família em Nova York em 1967, período da Guerra do Vietnã. Enquanto recebe a notícia de um amigo morto na Guerra, ele presencia protestos contra o confronto e decide levar um incentivo aos seus amigos no campo de batalha: cerveja. A ideia absurda acaba tendo desdobramentos ainda mais surreais quando ele é confundido com um agente da CIA e se mete no meio do fugo cruzado (sempre com aquela expressão de que não fazia a mínima ideia do que era uma guerra de verdade). Misturando drama e comédia, Zac Efron carrega o filme nas costas com desenvoltura (e poderia até concorrer ao Globo de Ouro de ator de comédia se o prêmio existir no ano que vem) e embora o filme tropece ao deixar várias ideias pelo meio do caminho, existem momentos em que a ideia absurda do protagonista casa perfeitamente com o absurdo da guerra em si - e  choca pelo contraste entre a comédia e o drama de uma cena para outra. Vale registrar que Russell Crowe tem uma boa participação como um correspondente de guerra calejado e Bill Murray também aparece com a cara de sempre como o dono do bar que Chickie se reúne com os amigos. No fim das contas Operação Cerveja é mais um filme sobre a amizade do que sobre a guerra em si. 

Operação Cerveja (The Great Beer Run/EUA-2022) de Peter Farrelly com Zac Efron, Russell Crowe, Kyle Allen, Jake Picking, Archie Renaux, Will Roppe e Bill Murray. ☻☻☻

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

FILMED+: Nada de Novo no Front

 
Kammerer: estreia magistral no cinema. 

Assim que começou a ser visto, a produção alemã Nada de Novo no Front em cartaz na Netflix começou a ser apontada como favorita na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar do ano que vem. Não bastasse isso, os mais empolgados dizem que o filme pode aparecer em outras categorias, tanto nas técnicas (fotografia, montagem, maquiagem, som, efeitos especiais e também aposto na trilha sonora magnífica) como também nas mais cobiçadas (roteiro adaptado, direção e melhor filme), se acontecer não será mais do que merecido. É verdade que paira sobre a produção a versão de 1930 intitulada Sem Novidade no Front e dirigida por Lewis Milestone, que foi indicada a quatro Oscars e levou para casa os prêmios de filme e direção (concorreu também à fotografia e roteiro adaptado), mas se tratava de uma produção dos Estados Unidos sobre jovens alemães que testemunham uma verdadeira carnificina na Primeira Guerra Mundial. Sem querer falar mal da clássica produção, os recursos disponíveis na época eram bem diferentes dos que temos hoje e este é um dos motivos para ver esta nova versão do livro de Eric Maria Remarque. O diretor e roteirista Edward Berger faz um filme assustador pela forma como recria as cenas de guerra, mostra tanto sangue, terra e lama jorrando na câmera que parece atingir o espectador durante toda a sessão. O filme segue uma linha mais crítica em seu olhar sobre a guerra e, embora gere cenas espetaculares para atrair o público, conduz sua história com muita desilusão, tristeza e melancolia, afinal, estamos falando de um grupo de jovens que ficam eufóricos quando são mandados para a guerra, mas ao chegarem lá percebem que os dias de glória e heroísmo na verdade compõem um verdadeiro pesadelo. Basta o primeiro dia nas trincheiras para perceberem que se manterem vivos é o maior desafio no campo de batalha. Sabe-se que na Primeira Guerra Mundial o exército alemão avançou pouquíssimo nas trincheiras e que a maior parte do tempo sofria em meio à tensão e a expectativa que tudo aquilo acabasse, mas enquanto o fim da Guerra não acabava, restava o massacre. Aqui, toda a guerra é mostrada sob a perspectiva do recruta Paul Bäumer (o ótimo estreante Felix Kammerer), um jovem enviado para guerra junto de seu trio de amigos. Enquanto conhece outros personagens, que o ajudam a sobreviver ali, suas ambições mudam, assim como seu olhar, sua aparência e esperança e, paralelo a tudo isso, existe um jogo burocrático instaurado entre os governantes.  Nada de Novo no Front é de um realismo impressionante (especialmente como mostra a rotina da guerra de forma cíclica e implacável), mas consegue alcançar suas notas mais altas por conta da sabedoria com que sabe lidar com os silêncios entre as cenas mais escabrosas, mesclando  especialmente os horrores da guerra com o fim da inocência de seus jovens personagens. O último ato do filme é arrasador e deixa um grande nó na garganta. Doloroso, mas necessário. 

Nada de Novo no Front ( Im Westen nichts Neues / Alemanha - EUA - Reino Unido / 2022) de Edward Berger com Felix Kammerer, Albrecht Schuch, Aaron Hilmer, Moritz Klaus, Adrian Grünewald, Edin Hasanovic, Daniel Brühl, Adrian Grünewald, Andreas Döhler e Seabastian Hülk. ☻☻☻☻☻

PL►Y: Raymond & Ray

 
Ethan e Ewan: irmãos com o mesmo nome. 

Quando Raymond (Ewan McGregor) procura o meio-irmão Ray (Ethan Hawke) é para avisar que o pai deles acabou de falecer. Ray não liga muito para aquilo, mas cede ao pedido do irmão para que o acompanhe a realizar os procedimentos do funeral. No caminho percebemos que o pai estava longe de ser um exemplo e que existe mais história sobre esta família do que os dois irmãos são capazes de contar. No entanto, enquanto Raymond tenta manter a serenidade perante todos os percalços da vida, Ray está mais preocupado em lidar com os anos em que busca estar longe da heroína e superar o luto pela morte da esposa. Você está certo se percebeu a estranheza de ter dois meio-irmãos com o mesmo nome no centro da narrativa, este apenas é um dos detalhes entre os dois manos que receberão a notícia de que eles terão que cavar a cova do pai antes de enterrá-lo. Embora ninguém esteja dando muita bola para esta produção da AppleTV, eu a considero um verdadeiro deleite! A começar pelas atuações de McGregor e Hawke que estão perfeitos em papéis que já desempenharam várias vezes em suas carreiras, respectivamente o certinho e o rebelde - mas apesar das personalidades diferentes, ambos personagens não fazem a mínima ideia do que fazer com suas vidas. Escrito e dirigido por Rodrigo García, o filme também é uma grata surpresa na cinematografia de um cineasta que prima por centrar suas narrativas em personagens femininas. Desde a estreia em Coisas que Você Pode Dizer só de Olhar Para Ela (2000), a carreira de Rodrigo é marcado pelo protagonismo de mulheres na telona, sendo que a única exceção foi seu trabalho com Ewan McGregor no religioso Últimos Dias no Deserto (2015). Para além dos ótimos trabalhos de sua dupla de atores, temos também um roteiro que lembra muito o tom fantástico dos livros de seu pai (o genial escritor Gabriel García Marquez), não que aqui exista momentos mágicos na trajetória dos manos, mas a forma como a história é composta com cada momento acrescentando algum detalhe sobre a história, evoca um certo encantamento mesmo no realismo em que a história é apresentada. Entre pedidos estranhos, segredos escondidos e ressentimentos, Raymond e Ray enterram o pai, mas o problema é encontrar mesmo uma forma de se livrar do espectro deixado por ele ao longo da vida conturbada. Quando o filme termina (e se você ficar atento, percebe que se instaura um enigma, já que o pai costumava trocar o nome dos dois irmãos) eu só fiquei com vontade que o Oscar finalmente lembrasse de Rodrigo e lhe rendesse pelo menos uma indicação ao prêmio de roteiro original. 

Raymond & Ray (EUA - 2022) de Rodrigo García com Ewan McGregor, Ethan Hawke, Maribel Verdú, Sophie Okonedo, Todd Louiso, Maxim Swinton, Vondie Curtis Hall, Chris Silcox e Chris Grabher. ☻☻☻☻

PL►Y: Meu Policial

 
David Dawson e Harry Styles: romance proibido pela lei. 

Confesso que em determinado momento minha mente doentia misturou tudo e pensou que este filme e Não se preocupe, Querida (2022) eram a mesma produção. Logo que o filme dirigido por Olivia Wilde chegou aos cinemas, percebi que havia outro filme estrelado pelo astro pop Harry Styles a ser lançado também em 2022. Me atrevo a dizer que Harry é meu cantor pop favorito da atualidade e, obviamente, pela legião de fãs que possui ao redor do mundo, sua popularidade também chama atenção dos produtores que querem agregar uma parcela de audiência garantida para seus projetos. O moço apareceu pela primeira vez na telona com o indicado ao Oscar Dunkirk (2017) de Christopher Nolan. Conseguiu provocar gritinhos na sala de cinema com sua rápida aparição em Eternos (2021) da Marvel (num papel que deve repetir em breve) e recentemente teve destaque no já citado Não se Preocupe, Querida - filme que deu mais o que falar por suas fofocas de bastidores do que pelo filme em si. De certa forma o drama Meu Policial era o filme que Harry precisava para colocar sua carreira de ator sob nova perspectiva. O filme já está disponível no Prime Video e seu lugar entre produções mais assistidas do streaming comprova que o rapaz chama atenção do público. Ele interpreta o personagem do título que fica dividido entre o amor por outro homem e o disfarce de casar-se com uma mulher. Esta ideia já foi vista várias vezes no cinema e cabe ao diretor Michael Grandage fazer com que o filme prenda atenção do espectador perante as ideias recicladas que apresenta. A coisa complica quando ele resolve ir e voltar no tempo várias vezes durante a sessão (o que também é presente no livro de Bethan Roberts que deu origem ao filme), assim, mostra o casal Tom (Linus Roache) e Marion (Gina McKee) idosos às voltas com Patrick (Rupert Everett), um homem debilitado que é levado para a casa deles, para desgosto de Tom. O filme então volta no tempo para apresentar o dia que Marion (vivida jovem por Emma Corrin) conhece o belo Tom (Styles) e Patrick (vivido por David Dawson). Enquanto Tom e Marion se encantam um pelo outro, Patrick está sempre por perto até que descobrimos que os dois amigos mantinham uma relação muito mais íntima. Nestas idas e vindas o filme se enrola e pode deixa a sensação que o roteiro tem sua cota de furos (como toda a surpresa da esposa idosa perante todas as evidências que ela já teve a vida inteira do romance entre seu esposo e Patrick), no entanto, o que compromete mesmo é a direção gélida de Michael Grandage emoldurada por uma fotografia cinzenta que é praticamente um clichê manjado de um drama cinematográfico inglês. Pelo menos o elenco está bem. Na fase presente, o destaque vai para Gina McKee que tira leite de pedra com as emoções conflitantes de sua personagem. Já na fase jovem, o destaque é de Styles e Dawson que conseguem injetar alguma vivacidade à narrativa quando estão juntos em cena. O maior acerto do filme, no entanto é explorar as cenas de sexo mais animadinhas entre os dois moços e a formalidade obrigatória das cenas de alcova entre Tom e sua esposa - isso em um tempo em que homossexualidade era considerada crime. Meu Policial brinca com as fantasias dos fãs de Harry Styles, mas perde a chance de sair do lugar comum dos dramas de temática LGBTQIA+, ao menos fez o dever de casa com eficiência.

Meu Policial (My Policeman/Reino Unido - EUA /2022) de Michael Grandage com Harry Styles, Gina McKee, David Dawson, Linus Roache, Emma Corrin e Rupert Everett. ☻☻☻