sexta-feira, 4 de junho de 2021

PL►Y: O Discípulo

Modak: perseguindo um sonho que vive fugindo. 

Apesar da assinatura ilustre de Alfonso Cuarón na produção e dos prêmios conquistados no Festival de Veneza (mehor roteiro, prêmio da crítica e o Golden Osella), o filme O Discípulo é um longa tão discreto que passa até despercebido no catálogo da Netflix. O filme é tão discreto que até destoa do colorido e do ritmo que costumamos ver nas produções indianas. Falado totalmente em Marathi e dirigido por Chaitanya Tamhane, o filme conta a história de Sharad (Aditya Modak), um rapaz que dedica-se desde pequeno a se tornar um cantor de música clássica indiana. No entanto, apesar de toda dedicação ao treinamento, ele começa a perceber que talvez lhe falte os dotes vocais necessários para alcançar o patamar de seu mestre (Aru Dravid) - a quem serve com devoção absoluta. No entanto, o filme opta a não verbalizar as limitações do protagonista num massacre constante, mas deixar que a plateia perceba as dificuldades dele para se equiparar aos grandes cantores da modalidade em seu país. Basta ficar atento aos tropeços quando ele solta a voz, nas correções e comentários que surgem aqui e ali quando ele se apresenta. No entanto, Sharad é obstinado e acredita que um dia ele terá seu talento plenamente lapidado e reconhecido, até que um  certo cansaço comece a cair sobre seus ombros. O Discípulo é um filme que prima pela forma sutil com que aborda a perseguição de algo que se quer tanto, mas que por vezes devemos reconhecer ser algo impossível, o que contraria muito aquele velho mandamento cinematográfico de "lutar pelos sonhos que é querer, poder e conseguir até  final feliz". Em certo momento Sharad percebe que talvez não consiga a perfeição vocal que deseja, mas o que deve ser feito diante disso? Persistir? Desistir? Revoltar-se? Cabe a ele, e somente a ele, perceber o momento em que atinge seu limite na convivência com algo que lhe é tão caro e, ao mesmo tempo, cada vez mais distante. O ritmo do filme deve atrapalhar a apreciação de grande parte da plateia, mas quem perceber como o drama e o humor se misturam ao longo da narrativa não irá se arrepender. O filme (que também foi indicação ao Independent Spirit de melhor filme internacional) não esquece de mostrar como aquele canto tão cultuado e apreciado quase como uma experiência religiosa, esconda tantas histórias pouco nobres e tenha que conviver com o apelo da música pop e  os programas de televisão que buscam novos talentos. É fácil simpatizar com Sharad e torcer por ele (o que atrapalha são aquelas longas tomadas com narrativa em off dele passeando pela cidade), mas apesar do constante flerte com a derrota ao longo da história, a última cena deixa aquela sensação de esperança de que outros talentos também são importantes e outros podem ser encontrados onde menos se espera. 

O Discípulo (The Disciple/India - 2020) de Chaitanya Tamhane com Aditya Modak, Arun Dravid, Sumitra Bhave e Kristy Banerjee. 
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quinta-feira, 3 de junho de 2021

FESTIVAL DE CANNES 2021

Cannes 2021: filmes para ficar de olho. 

Hoje os organizadores do Festival de Cannes divulgaram os filmes que participarão da edição 2021.  Vele lembrar que devido a pandemia de Covid-19 a edição do ano passado foi constantemente adiada até ser cancelada de vez. Alguns cineastas que tinham seus filmes selecionados para exibição no Festival decidiram esperar a edição seguinte para lançar e dar maior visibilidade às suas obras - e até desejando a cobiçada Palma de Ouro. Outros se beneficiaram e conseguiram terminar seus filmes para exibi-los em na croisette. Quem presidirá o júri neste ano será  cineasta americano Spike Lee, que fora escolhido no ano passado para liderar as votações da mostra competitiva. Com abertura do musical de Leos Carax (prêmio da juventude por Holy Motors na edição de 2012) estrelado por Adam Driver, a mostra competitiva conta com novas produções de  Paul Verhoeven, Asghar Farhadi, Jacques Audiard, Nani Moretti, Sean Baker, François Ozon, Wes Anderson, Joachim Trier e outros queridos do festival francês. Existem também as mostras paralelas com assinaturas do porte de Todd Haynes, Karim Ainouz, Kogonada, Kornél Mundruczo, Oliver Stone e Andrea Arnold. A 74ª edição do Festival acontecerá entre 6 e 17 de julho e homenageará a atriz Jodie Foster (que estreou no Festival com seu trabalho no clássico Taxi Driver/1976) aos 13 anos. 

Filme de Abertura
 "Annette" de Leos Carax

Competição - Palma de Ouro
"Tout S’est Bien Passé" de  François Ozon
"A Hero" de Asghar Farhadi
"Tre Piani" de Nanni Moretti
"Titane" de Julia Ducournau
"The French Dispatch" de Wes Anderson
"Red Rocket" de Sean Baker
"Petrov’s Flu" de Kirill Serebrennikov
"France" de Bruno Dumont
"Nitram" de Justin Kurzel
"Memoria" de Apichatpong Weerasethakul
"Les Olympiades" de Jacques Audiard
"Benedetta" de Paul Verhoeven
"La Fracture" de Catherine Corsini
"The Restless" Joachim Lafosse
"Lingui" de Mahamat-Saleh Haroun
"The Worst Person In The World" de Joachim Trier
"Bergman Island" Mia Hansen-Love
"Drive My Car" de Ryusuke Hamaguchi
"Ahed’s Knee" de Nadav Lapid
"Casablanca Beats" de Nabil Ayouch
"Compartment Nº6" de Juho Kuosmanen
"The Story Of My Wife"de Ildiko Enyedi
"Flag Day" de Sean Penn

Mostra "Un Certain Regard"
"Moneyboys" de C.b Yi
"Blue Bayou" de Justin Chon
"Freda" de Gessica Généus
"Delo (House Arrest)" de Alexey German Jr.
"Bonne Mère" de Hafsia Herzi
"Noche De Fuego" de Tatiana Huezo
"Lamb" de Valdimar Jóhansson
"Commitment Hasan" de Hasan Semih Kaplanoglu
"After Yang" de Kogonada
"Let There Be Morning" de Eran Kolirin
"Unclenching The Fists" de Kira Kovalenko
"Women Do Cry" de Mina Mileva e Vesela Kazakova
"Rehana Maryam Noor" de  Abdullah Mohammad Saad
"Great Freedom" Sebastian Meise
"La Civil" de Teodora Ana Mihai
"Gaey Wa’r" de Na Jiazuo
"The Innocents" de Eskil Vogt
"Un Monde" de Laura Wandel

Sessões Especiais
"H6" de Yi Yi
"Black Notebooks" de Shlomi Elkabetz
"Mariner Of The Mountains" de Karim Ainouz
"JFK Revisited: Through The Looking Glass" de Oliver Stone

Cannes Premiére
"Hold Me Tight" de Mathieu Amalric
"Cow" de Andrea Arnold
"Love Songs For Tough Guys" de Samuel Benchetrit
"Deception" de Arnaud Desplechin
"Jane Par Charlotte" de Charlotte Gainsbourg
"In Front Of Your Face" de Hong Sang-soo
"Mothering Sunday" de Eva Husson
"Evolution" de Kornél Mundruczo
"Val" de Ting Poo e Leo Scott
"JFK Revisited: Through The Looking Glass" de Oliver Stone

Sessões da Meia-Noite
"Bloody Oranges" de Jean-Christophe Meurisse

Fora de Competição
"De Son Vivant" de Emmanuelle Bercot
"Stillwater" de Tom McCarthy
"The Velvet Underground" de Todd Haynes
"Bac Nord" de  Cédric Jiminez
"Aline" de Valérie Lemercier
"Emergency Declaration" de Han Jae-Rim

Na Tela: Cruella

Emma Cruella: releitura esperta de clássica vilã da Disney. 

Sou daqueles que sempre olha com desconfiança quando  a Disney anuncia uma nova versão dos seus clássicos. Se levar em conta os últimos lançamentos do gênero feitos pelo estúdio, a desconfiança cresce ainda mais. Eis que quando anunciaram uma versão jovial sobre a origem de Cruella DeVil, a vilã que queria transformar filhotes de cachorro em um casaco de pele no clássico 101 Dálmatas (1961) e já fora encarnada com desenvoltura plena por Glenn Close em sua versão live action de 1996... então a coisa piorou ainda mais. No entanto, conforme eram revelados os nomes envolvidos no projeto a desconfiança começava a diminuir e se transformar em expectativa. A começar pelo roteirista Tony McNamara que aqui trabalha ao lado de Dana Fox (que pelo currículo deve ter ajudado a amenizar as maiores sandices da mente do parceiro). Depois veio Emma Stone, que já tem um Oscar na estante por La La Land (2016) e esteve memorável em sua parceria com McNamara na indicação de ambos ao Oscar por A Favorita (2018). Na direção está um moço que eu curto bastante, mas que ainda não ganhou o devido reconhecimento, o australiano Craig Gillespie, responsável pelos ótimos A Garota Ideal (2007) e Eu, Tonya (2017). Gillespie não tem medo de assumir riscos em sua narrativa, alcança ótimos resultados quando o personagem principal testa a compreensão da plateia, filma bem e tem uma energia que falta em muitos diretores de Hollywood. Aqui sua energia beira a elétrica ao contar a história de Stella, a menina que nasce com a anomalia de ter metade do cabelo preto e outra metade branca. Diante da perseguição dos colegas a vida na escola nunca foi fácil (e a pequena Tipper Seifert-Cleveland a interpreta deliciosamente). Coube à mãe segurar às rédeas de uma menina destinada à rebeldia. Eis que um dia uma tragédia separa mãe e filha e a menina precisa se virar. Se juntando a dois jovens delinquentes, o trio passa a realizar assaltos e golpes variados enquanto o sonho de Estela (agora vivida por Stone) de enveredar pelo mundo da moda só cresce. Eis que o caminho para tornar seu sonho realidade é trabalhar com a famosa Baronesa (Emma Thompson), dona de uma grife cultuada e que em já cruzou o caminho da menina em outros tempos. Se por um lado faz um tempo que Estela quer ser a menina que sua mãe sempre quis, por outro, seu relacionamento tempestuoso com a intragável Baronesa liberta seu lado mais sombrio e a faz enveredar por uma verdadeira guerra no mundo fashion. Nada melhor para isso do que inserir a personagem na rebeldia dos anos 1960 e no estilo punk dos anos 1970. O resultado é um filme que foge do formato quadradinho das recentes live actions da Disney ao som de música boa e figurinos impressionantes. É verdade que os dálmatas estão por lá (na verdade são três) e podem até fazer a plateia imaginar sua relação com a ideia que a estilista terá no futuro, no entanto, a Cruella aqui está em início de carreira e antes de ser vista como uma vilã desalmada, ela nos é apresentada como uma anti-heroína que tem lá suas razões de se rebelar. Emma Stone está ótima em cena e torna até compreensível a postura de nada ser sagrado para sua personagem (e atriz visivelmente diverte-se muito com esta releitura da personagem), ela é seguida de perto por Emma Thompson, que assim como sua parceira distancia-se ao máximo do tipo bonzinho que vimos em tantas outras produções estreladas por elas. O elenco de apoio também merece destaque, seja pela dupla já conhecida de comparsas Jasper (Joel Fry) e Horace (Paul Walter Hauser), ou o fashionista calcado em David Bowie chamado Artie (John McCrea). Divertido, esperto e com atuações inspiradas, Cruella tem tudo para se tornar um hit e, se os Deuses do Cinema permitirem, também pode mudar a fórmula insossa que a Disney utilizava em suas releituras até então. 


Cruella (EUA - Reino Unido / 2021) de Craig Gillespie com Emma Stone, Emma Thompson, Mark Strong, Joel Fry, Paul Walter Hauser, John McCrea e Tipper Seifert-Cleveland. ☻☻☻☻

segunda-feira, 31 de maio de 2021

domingo, 30 de maio de 2021

PL►Y: Relíquia Macabra

Avó, mãe e filha: o corpo é uma relíquia. 

Nos últimos anos um grupo de diretores estão procurando fazer filmes de terror na contramão do saturado mercado de serial-killers, monstrengos assassinos e lunáticos que vigoraram no gênero por tanto tempo. Em forma de narrativas mais contidas e atuações intimistas, o gênero passa por uma espécie de renovação que lhe cai muito bem e tem como expoentes Robert Eggers (A Bruxa/2015 e O Farol/2019) e Ari Aster (Hereditário/2018 e Midsommar/2019). Em 2020 duas diretoras entraram para o grupo, uma foi a inglesa Rose Glass (Saint Maud) e a outra foi a australiana Natalie Erika James deste Relic, que no Brasil ganhou o nome de Relíquia Macabra. Acho que o título brasileiro não cai muito bem às ideias do filme, já que de fato existe uma relíquia no filme (um vitral ligado a um  trauma presente na história), no entanto, o horror do filme se relaciona muito mais às relações das três mulheres e o medo do abandono, do envelhecimento e da morte  (algo que conforme a última cena deixa claro, deve se perpetuar no trio). Quem está acostumado à esta renovação do gênero já sabe que o horror é mais psicológico e se desenvolve aos poucos, especialmente pelo constante flerte com a loucura de forma que o espectador não sabe ao certo o que está acontecendo até o desfecho. Aqui, mãe (Emily Mortimer) e filha (Bella Heathcote) vão para a casa da avó (Robyn Nevin), que está desaparecida e ninguém sabe ao certo o que aconteceu com ela. A casa está visivelmente deteriorada, com madeiras envelhecidas, podres e bolores subindo pelas paredes e, para completar, até os poucos vizinhos percebem que aquela senhora andou com um comportamento estranho nos últimos tempos. A casa é arrepiante por si só, com seu potencial para ser mal assombrada em seu processo de deterioração e barulhos soturnos. Eis que a vovó aparece e o que poderia ser interpretado como traços de senilidade começa a se tornar algo muito mais complicado, especialmente pelo estranho hematoma que ela exibe no peito. Uma mancha escura que se assemelha a mesma que pode ser vista em diversas partes da casa. A coisa fica mais estranha quando a vovó é acolhedora em um instante e no outro é capaz de ser agressiva e impaciente, aguçando no espectador a curiosidade e uma certa perplexidade. Nos minutos finais o filme deixa a sugestão de lado e parte para o tipo de terror mais comum com ataques, sangues e monstros estranhos e deixa na cabeça do espectador uma interrogação ainda maior, no entanto, o que a diretora parece dizer é que não adianta tentar fugir: o futuro é inevitável. Relíquia Macabra deixa a impressão que demora muito para engrenar, mas na verdade se constrói nos laços entre as três personagens, evidenciando posturas que se reproduzem e elas parecem não perceber. Reside aqui uma estranheza que lhe rendeu comparações com Hereditário, mas não chega a ousar tanto. Visivelmente com orçamento mais modesto e menos radicalismo, Relic se comporta como um exercício interessante de suspense até que toda sua estranheza se revela. Ainda que soe pouco empolgante para a maioria dos espectadores, a diretora Natalie Erika James demonstra ser bastante promissora no gênero. Tendo aqui a sua carta de apresentação é o tipo de cineasta em que vale a pena ficar de olho nos projetos futuros. 

Relíquia Macabra (Relic / Austrália - EUA / 2020) de Natalie Erika James com Emily Mortimer, Robyn Nevin, Bella Heatchcote, Chris Bonton e Steve Rodgers. ☻☻☻

#FDS Jodie Foster: O Mauritano

Rahim e Foster: ótimas atuações. 

Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) foi um dos casos reais de suspeitos presos após os atentados de onze de setembro que foram levados pelos Estados Unidos para a base em Guantánamo, em  Cuba, e comeu o pão que o Tio Sam amassou em torturas variadas sob as acusações de ter sido o responsável pelo recrutamento que gerou os ataques. Embora jurasse ser inocente, seu caso evidencia como um conjunto de direcionamentos tendenciosos era capaz de forjar uma rede de relações que faria qualquer um que se encaixasse em determinado perfil parecesse suspeito. Eis que seu livro (Diários de Guantánamo) foi lançado e se tornou um best-seller, tornando pública a sua história e a desumanidade dos procedimentos que serviram apenas para que os prisioneiros dissessem o que os agentes queriam que fosse dito. Após anos como prisioneiro, sem que houvesse sido feita qualquer acusação sobre ele,  sua situação chamou a atenção da renomada advogada Nancy Hollander (Jodie Foster), que percebia todos os equívocos que giravam em torno do caso construído na histeria coletiva que se abateu sob os EUA - e que parece ter feito boa parte da população ter perdido o senso crítico e a possibilidade de questionar suas próprias ações. No fundo, este é o ponto mais forte de O Mauritano, a capacidade que as autoridades possuem de gerar uma verdade e fazer toda a realidade ter que se curvar perante a construção dela. É o tipo de filme que cai como uma luva para a inquietação de Kevin MacDonald (que funciona muito melhor quando tem em mãos roteiros de carga política como O Último Rei da Escócia/2006 e Intrigas de Estado/2009) que sabe construir a tensão e a ambiguidade dos seus protagonistas com grande desenvoltura. O filme também se beneficia muito com o trabalho de seu elenco. É ótimo matar a saudade de Jodie Foster (que infelizmente filma pouco ultimamente) na pele de uma sagaz advogada que é mais esperta e possui uma clareza de ideias muito maior do que os outros personagens que cruzam seu caminho (fruto de vivências em tribunais desde a época do Vietnã), não é por acaso que Jodie levou o  Globo de Ouro de atriz coadjuvante para a casa, no entanto, não podemos esquecer do excelente desempenho de Tahar Rahim, que talvez tenha aqui o seu melhor papel desde o inacreditável O Profeta (2009) – e o acho cada vez mais a cara de Richard Gere.  Quando a narrativa se prende aos dois o filme funciona que é uma beleza, pena que ele desliza toda vez que aparece o outro lado da moeda centrado no advogado vivido por Benedict Cumberbatch, tudo em volta  dele soa tão clichê e previsível que parece postiço durante todo o filme, apesar de Benedict ser um ótimo ator, ele não consegue fazer milagres com a parte mais tediosa da história, sorte que esta parte é pequena. Na maior parte do longa, a narrativa é dinâmica e sabe utilizar os efeitos que brincam com a percepção da realidade aliada à ambiguidade do protagonista. Muita gente compara o filme à O Relatório (2019) lançado em 2019 e que foi esquecido das premiações, de fato, os dois filmes parecem complementares, mas O Mauritano ainda me parece mais interessante. 

O Mauritano (The Mauritanian / Reino Unido - EUA / 2020) de Kevin MacDonald com Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Zachary Levi e Clayton Boyd. ☻☻☻☻

sábado, 29 de maio de 2021

#FDS Jodie Foster: Mentes Que Brilham

Wiest, Adam e Jodie: estreia promissora como cineasta.  

Pode se dizer que profissionalmente o ano de 1991 foi o mais transformador da carreira de Jodie Foster. Além de ser o ano em que ela estrelou o antológico O Silêncio dos Inocentes/1991 - que lhe rendeu  segundo Oscar de Melhor atriz da carreira - ela também estreou como cineasta com este Mentes que Brilham. O filme conta a história de uma mãe solteira que começa a lidar com o fato de seu filho ter altas habilidades. Tendo um vida comum a maioria dos mortais Dede Tate (Jodie Foster) vê a vida de seu filho transformada quando notam que ele não é apenas mais inteligente que as outras crianças da sua idade, como mais até do que a maioria dos adultos que estão por perto também. Neste ponto, Jodie faz a mãe atenciosa e amorosa, mas que começa a questionar se o que ela pode oferecer ao seu filho, Fred (Adam Hann Byrd), é o suficiente para que ele alcance plenamente seu potencial. Desde que ele era muito pequeno, Dede percebia que ele era diferente das outras crianças, mas não sabia exatamente o que fazer com ele.  É neste ponto que surge Jane Grierson (Dianne Wiest), espécie de mentora do pequeno Fred Tate, que será capaz de lapidar sua genialidade e fazer por ele o que a mãe não seria capaz de fazer sozinha. Neste ponto, surge um dos pontos mais interessantes o roteiro de Scott Frank (aqui em um dos seus primeiros trabalhos no cinema,  bem antes de ser indicado ao Oscar por Irresistível Paixão/1998 e Logan/2017, além da consagração com a minissérie O Gambito da Rainha/2020), já que apesar de todas as habilidades, Dede percebe Fred como uma criança a ser amada como filho e Jane o vê como um gênio a ser estimulado. Conforme a trajetória do menino "progride" longe da mãe, o filme mergulha numa melancolia que é ressaltada ainda mais pelo tom da narrativa sóbria e a fotografia de cores frias. Some isso ao desempenho de Adam Hann Byrd (que depois fez apenas outros sete filmes e dedica-se mais à carreira de roteirista, inclusive de jogos de video game) que constrói um personagem infantil interessantíssimo, com poucas palavras, grande seriedade e um olhar um tanto perplexo diante das pessoas que o cerca e o filme fica ainda mais interessante. Adam e Jodie constrói uma bela dinâmica durante todo o filme que funciona como uma espécie de crônica, sem pesar a mão e sabendo utilizar pontos cômicos para ganhar a simpatia da plateia. Jodie demonstra bastante segurança como diretora, não faz firulas ou invencionices e apresenta pleno controle do que deseja apresentar. No entanto, é um trabalho interessante e um tanto na contramão do que se esperava em sua estreia atrás das câmeras. No entanto, muito da trajetória do "homenzinho Tate" (numa tradução fiel do título em inglês), reflete bastante da trajetória da própria Jodie, que desde muito cedo foi considerada uma garota prodígio e precisou fazer sua própria jornada para encontrar sua identidade perante o que se esperava dela. Pena que no filme seguinte (Feriados em Família/)  ela enveredou por uma comédia que não funcionou como o esperado. No entanto, seus trabalhos em Um Novo Despertar (2011) e Jogo do Dinheiro (2016) provaram cada vez mais o interesse de Jodie em trabalhar atrás das câmeras nos últimos anos. Mentes Que Brilham pode ser considerado uma das melhores estreias do cinema americano. 

Mentes que Brilham (Little Man Tate / EUA - 1991) de Jodie Foster com Jodie Foster, Adam Hann Byrd, Dianne Wiest, Nathan Lee e Harry Connick Jr. ☻☻☻☻

sexta-feira, 28 de maio de 2021

#FDS Jodie Foster: Acusados

Jodie: desafiando a cultura do estupro. 

Tema deste #Fim de Semana, a carreira de Alicia Christian Foster começou muito cedo no mercado publicitário. Ainda criança foi ela que aparecia no famoso anúncio da Coppertone em que um cachorro puxava o traje de banho da menina para revelar o bronzeado. No seu primeiro trabalho como atriz na televisão ela tinha sete anos, foi no Doris Day Show (1969), depois veio a participação em Disneylandia (1970), Bonanza (1972), Família Dó Ré Mi (1973), Família Adams (1973)... além dos trabalhos como dubladora em desenhos como Scooby Doo (1972) - num início de carreira que se mistura com a história da TV americana. Apesar de ter feito papéis para o cinema durante este período, ela chamou atenção do diretor Martin Scorsese quando a escalou para o premiado Alice não Mora mais Aqui (1974) para depois lhe garantir respeito como a garota de programa em Taxi Driver (1976) quando a atriz tinha apenas quinze anos. O trabalho de gente grande lhe garantiu a primeira indicação ao Oscar e provou que ali existia uma estrela que desafiava padrões. Jodie cresceu com fama de garota difícil em Hollywood. Nada delicada e sendo considerada fria perante as outras atrizes adolescentes de sua geração que cresciam diante da câmera. Embora tivesse um sucesso aqui e outro ali, sua carreira não apresentava mais o mesmo lampejo de interesse da indústria até que ela ressurgiu em Acusados, num papel complicado e com um roteiro provocador que permanece atual até hoje. Em tempos de debates acerca da violência contra a mulher, a cultura do estupro e denúncias de abuso, o filme de Jonathan Kaplan ainda é capaz de chocar e chamar a plateia para refletir sobre os estigmas produzidos em nossa sociedade. Afinal, após Sarah Tobias (Jodie Foster) ser estuprada em um bar, o que parece estar em julgamento não é a postura dos homens que praticaram o ato e sim, a postura de Sarah, que usava roupas curtas, bebia, fumava e dançava num bar cheio de homens. O roteiro faz questão de não apresentar Sarah como uma donzela indefesa, ao mesmo tempo em que indaga à plateia "e daí?", nada do que ela fizesse justificaria o que aconteceu naquela que se tornou a pior noite de sua vida. Ao mesmo tempo, por vezes ter sua vida pessoal exposta pela mídia e tribunal parece mais uma colagem de humilhações. A sorte é que lutando pelo seu caso está uma outra mulher, Kathryn Murphy (Kelly McGillis que estava no auge e que anos depois disse que aceitou o papel por ter sobrevivido a um estupro e considerar que o tema merecia ser abordado com a devida seriedade no cinema), que é capaz de perceber todos os absurdos que se acumulam em torno do caso. Kathryn quer não apenas que os estupradores sejam condenados pelo que fizeram, ela quer provar que aqueles que testemunharam o ato e não tentaram impedi-lo de acontecer são cúmplices e portanto, culpados sobre o ocorrido. Acusados se constrói como um filme de tribunal diferente, afinal, já conhecemos os culpados e o que interessa é como aquele acontecimento revela uma série de posturas e situações que constroem uma verdadeira rede de mazelas, muito bem representado pela inversão total do caso que parece julgar a vítima e não os criminosos.  Embora o filme tenha sido somente indicado ao Oscar de Melhor Atriz, rendendo a primeira estatueta da carreira de Jodie, revisto hoje, o filme de Kaplan permanece relevante, especialmente pela marcante ousadia de Jodie desafiar os preconceitos na plateia na construção de sua personagem. Embora seja pouco lembrado, o filme merece ser redescoberto. 

Acusados (The Acused / EUA - Canadá / 1988) de Jonathan Kaplan com Jodie Foster, Kelly McGillis, Bernie Coulson, Leo Rossi, Tom O'Brien e Steve Antin. ☻☻☻☻

domingo, 23 de maio de 2021

FILMED+: O Mensageiro

 
Fyodor e Anastasiya: adolescentes na União Soviética de Gorbatchev. 

Não lembro se já comentei aqui no blog que a Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (CPC-UMES), responsável por distribuir e comercializar os filmes do Estúdio MosFilm no Brasil, realiza até  final deste semestre a mostra anual Cinema Soviético Russo em Cena no Youtube. A Iniciativa teve início no ano passado, muito inspirada pela pandemia, e prosseguiu neste ano sempre exibindo um filme por semana, das 19 horas de sexta até as 19 horas de domingo (por vezes fica até o final de domingo, ou seja, dá tempo de você assistir esta pérola do cinema soviético). Diante dos filmes exibidos este ano, O Mensageiro chama a atenção por ser um filme diferente da grande maioria que integra a mostra. Sua temática não gira em torno de histórias de guerra, mas numa trama ambientada no período em que a Guerra Fria começava a perder força. Trata-se do início do governo de Mikail Gorbatchev - que ficou famoso pelo uso dos termos glasnost (transparência ) e perestroika (reestruturação) e gerou consequências irreversíveis para a história da União Soviética (prestes a se quebrar em vários países independentes). É neste ambiente de maior abertura do país que conhecemos a história de Ivan Mirosnikov (Fyodor Dunayevsky), que caba de enfrentar o divórcio dos pais e passa a viver somente com a mãe, com quem não parece ter muito diálogo. Ivan é adolescente, gosta de música, tem ambições, mas não faz faculdade e o serviço militar (de dois anos) está à sua espera. Ele passa a maior parte do dia andando por aí com os amigos, curtindo músicas e sem saber muito bem que caminho seguir na vida. Ou seja, ainda que seja um jovem de 1986, Ivan é em sua essência um adolescente muito parecido com tantos outros no dia de hoje e este ponto é fundamental para que o filme continue funcionando tão bem. A vida de Ivan começa a ter um pouco mais de sentido quando a mãe arranja um emprego de mensageiro em uma editora e ele conhece a filha de um professor, a bela Katya (Anastasiya Nemolyaeva) por quem se apaixona e se inspira a contar algumas mentiras por aí (e ela ao invés de rejeita-lo por conta disso, se aproxima cada vez mais). Com diálogos bem construídos e geralmente divertidos, O Mensageiro se torna a versão soviética dos inúmeros filmes de "coming of age" que tanto gostam de fazer sobre adolescentes em sua transição para a fase adulta. Aqueles que estão acostumados com os clássicos do cinema russo irão estranhar muito, não apenas pela trilha sonora pop e a jovialidade impressa em cada cena, mas por ver os adolescentes usando casacos da Adidas ou dançando break na rua. Os meus momentos favoritos estão na cena do jantar, não apenas pelo momento em que Ivan se atreve a cantar, como também pela explosão de Katya pelo peso das insatisfações ou pelos diálogos dos personagens mais velhos que refletem o que esperam da geração que dominaria o país no futuro. Ivan, por exemplo quer um salário decente, um carro, um apartamento no centro, uma casa de veraneio e... trabalhar menos.  Parece dito nos dias de hoje? Na verdade era o diretor  Karen Shakhnazarov (autor do livro em que o filme se inspira) captando a mudança irreversível que estava por vir em seu país (que explorou novamente em cores mais surrealistas em seu filme seguinte, Cidade Zero/1988 que também foi exibido na mostra deste ano). O Mensageiro recebeu o prêmio especial do júri ao ser exibido no Festival de Moscou e merece ser redescoberto. 

O Mensageiro (Kuryer/União Soviética - 1986) de Karen Shakhnazarov com Fyodor Dunayevsky, Anastasiya Nemolyaeva, Oleg Basilashvili e Inna Churikova ☻☻☻☻☻