terça-feira, 20 de novembro de 2018

10+ Dia da Consciência Negra

Neste vinte de novembro resolvi fazer uma lista com dez filmes (premiados e comentados aqui no blog) que contam com personagens negros em tramas que considero bastante relevantes - sejam verídicas ou ficcionais sobre racismo, tolerância, luta pela igualdade e respeito.
A lista  ficou assim (em ordem alfabética):

Antes de virar série da Netflix, conheci este filme ao ganhar o prêmio de melhor roteiro de estreia no Independent Spirit Awards. A ideia não poderia ser mais contemporânea: um grupo de alunos negros numa conservadora universidade americana. A ideia é puro pretexto para uma bem articulada (e bem humorada) discussão sobre os disfarces que os preconceitos podem ter. De namoros interraciais, brigas por poder e uma festa blackface, o roteiro é esperto o suficiente para triturar tudo de forma bastante articulada. 

Ganhador do Oscar de roteiro orginal, este filme ainda foi indicado em outras três categorias (filme, diretor e ator para Daniel Kaluuya) e surpreendeu muita gente quando estreou. No início parecia só uma revisita à surrada história do rapaz negro que vai visitar a família da namorada branca. O que a plateia não esperava é que o filme envereda pelo terror (desde a primeira cena) e o surrealismo para abordar temas bastante atuais. O comediante Jordan Peele fez uma ótima estreia na direção. 

Enquanto a escravidão é tema de inúmeras novelas das seis no Brasil, nos EUA nunca houve uma tradição de produções sobre o tema. Assim, podemos perceber a importância deste filme que foi indicado a nove Oscars e levou três (Filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante - para  a matadora atuação de Lupita Nyong'o). O filme é sobre a história real de Solomon Northup (o ótimo Chiwetel Ejiofor), um homem livre que é escravizado nos EUA pré-Guerra Civil. Um filme obrigatório. 

O novaiorquino Melfi já deixou claro que é o tipo de diretor que tem grande carinho pelos personagens - mesmo quando insere humor em situações dramáticas. O resultado é uma simpatia imediata com seus protagonistas. Aqui, a junção da história bem amarrada com o elenco brilhante lhe rendeu sucesso de público, crítica e três indicações ao Oscar (incluindo melhor filme). Ao contar a história de três cientistas negras importantes na NASA o filme fez história - e levou para casa o prêmio máximo do Sindicato de Atores: melhor elenco. 

Este filme está na lista de filmes dos mais arrepiantes que já assisti. Deve ter se tornado o documentário mais premiado em seu ano de lançamento (levou para casa vários prêmios, incluindo o BAFTA, mas perdeu o Oscar), talvez seu maior mérito é a sintonia perfeita entre imagens e narrativa baseada nos textos do escritor James Baldwin (com voz de Samuel L. Jackson). O resultado realmente impressiona! Eu Não Sou seu Negro é uma profunda reflexão sobre a situação dos afro-americanos no mundo contemporâneo. 

Nos Estados Unidos dos anos 1960, a luta pelos direitos civis estava fervilhando e este filme conta histórias de pessoas comuns que sofriam na pele  segregação na Terra do Tio Sam, no caso, se tratava de um grupo de empregadas domésticas negras que tinham muito a contar sobre o que acontecia dentro das confortáveis casas do subúrbio sulista americano. O filme alçou a brilhante Viola Davis a outro patamar em sua carreira e oscarizou Octavia Spencer como coadjuvante, além de ter comovido muita gente ao redor do mundo. 

Dá para acreditar que o casamento interracial era crime no estado da Vírginia? Esta é pergunta que serve de ponto de partida para a história do casal  Mildred (a magistral Ruth Negga, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e ao Globo de Ouro) e Richard Loving (Joel Edgerton) que mantem um relacionamento fora da lei no ano de 1958. Perseguidos, presos e afastados do convívio de suas famílias num verdadeiro exílio, a história de Loving parece inacreditável, mas aconteceu de verdade e merece ser conhecida. 

O Mississipi deve ser o estado que mais serviu de cenário para histórias sobre segregação racial em todos os tempos (e não por acaso é até citado em Corra!). Mesmo indicado a três Oscars, poucas pessoas deram o devido valor a este filme que foi comprado pela Netflix e foi lançado nos cinemas antes de ir para o streaming. A história de uma família branca que cruza seus caminhos com uma família negra tem um dos desenvolvimentos mais contundentes do cinema recente - e o trabalho da cineasta Dee Rees é de uma maturidade impressionante em cada cena. 

Não ficarei surpreso se o filme se tornar a primeiro produção de super-herói a ser indicado a Melhor Filme no Oscar do ano que vem. Sucesso nas bilheterias, o filme estrelado pelo herói da Marvel quebrou paradigmas ao oferecer uma visão moderna, ao mesmo tempo cheia de tradições sobre o continente africano e a cultura pop. Um super-herói negro em conflitos com o seu papel no mundo atual rende um filme marcante - além de ter um elenco impressionante. No MTV Movie Awards foi lembrado em sete categorias e levou quatro: filme, herói, vilão e performance em um filme. 

Embora tenha algumas licenças históricas, este filme prende a atenção sobre a histórica marcha da cidade de Selma para Montgomery em nome dos direitos civis em 1965. Também ajuda muito a atuação de David Oyelowo absolutamente magnética como Martin Luther King (com uma autenticidade impressionante mesmo nas complicadas cenas de discurso). Indicado ao Oscar de Melhor Filme e ganhador do prêmio de Melhor Canção (para Glory de John Legend e Common), o filme merecia muito mais. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

PL►Y: Legítimo Rei

Pine e seus aliados: Coração Valente parte 2?

Até a Netflix guarda seus filmes de maior prestígio para o final do ano (e parece que neste ano a empresa investiu pesado para conseguir espaço nas premiações que se aproximam). Um caso interessante aconteceu com Legítimo Rei de David Mackenzie (A Qualquer Custo/2017), que foi exibido no Festival de Cinema de Toronto e depois de sofrer críticas recebeu um novo corte - mais enxuto com vinte minutos a menos (e o diretor ainda afirmou que tinha ideias para um filme de quase quatro horas). Curiosamente a ideia de ter um novo corte gerou comentários inusitados por conta da tal cena de nudez frontal do astro Chris Pine (é verdade, fãs ficaram com medo da cena ser cortada),  mas ciente de que a cena renderia maior audiência para o filme, ela permanece intacta (eu acho). O filme é uma espécie de sequência do que vimos no filme Coração Valente (1995) de (e com) Mel Gibson. Legítimo Rei é sobre o que aconteceu posteriormente ao final daquele filme, vale ressaltar que não se trata de uma continuação direta, mas um prosseguimento da História bista anteriormente. Embora o roteiro não traga muitas novidades para o gênero épico, Mackenzie é um bom diretor e consegue dar uma atmosfera bastante crua para o filme. Existem cenas de batalhas que impressionam e personagens vilanescos que provocam realmente ojeriza. No meio disso tudo, temos um herói bastante sereno perante o mundo que o cerca, ele é o Robert The Bruce (Pine), personagem fundamental para a independência da Escócia no século XIV para fora dos domínios ingleses. Entre as batalhas o filme conta um pouco da vida pessoal de Robert, destaca sua vida familiar (esposa falecida no parto, filha pequena e um novo enlace que demora para se consumar), além da sua pendenga com o Rei Edward (Stephen Dillane, um ótimo ator que recebe pouco espaço aqui) e seu sanguinário filho (Billy Howle). Não sei se foi impressão minha, mas por mais que Mackenzie se esforce (o plano sequência inicial é sensacional), a narrativa parece estar com a roda presa, encontrando dificuldades para se desenvolver plenamente. É visível o esforço de Pine para viver um rei bem intencionado, mas não sei se ele convenceria as pessoas de que é um bom líder guerreiro, talvez uma abordagem mais bruta do personagem ajudasse nestes momentos. Pine já demonstrou ser um ator interessante A Qualquer Custo, mas aqui ele parece tocar uma nota só a maior parte do tempo - acho que seu olhar pesaroso combina muito mais no clima romântico com Florence Pugh (a atriz revelação de Lady Macbeth/2017). Legítimo Rei não atinge todas as notas que deseja, mas pode cair no gosto de quem é fã do gênero e se tornar um sucesso no serviço de streaming. Quanto a ter destaque nas premiações, o parentesco com o clássico oscarizado de Mel Gibson não ajuda muito com as comparações que possa gerar. 

Legítimo Rei (Outlaw King / EUA - Reino Unido / 2018) de David Mackenzie com Chris Pine, Stephen Dillane, Billy Howe, Florence Pugh e Aaron Taylor-Johnson. ☻☻☻

PL►Y: The Ballad of Buster Scruggs

Seis histórias: o faroeste segundo os manos Coen. 

Produzindo cada vez mais material próprio, a Netflix percebeu que ter material feito por pessoas renomadas lhe rende prestígio e assinantes. Foi assim que os irmãos Ethan e Joel Coen foram parar no serviço de streaming para produzir uma série de antologia de seis episódios sobre o velho oeste. Até imagino quando os envolvidos assistiram os episódios e imaginaram que se todos fossem montados no formato de um filme a Netflix teria chance de aparecer nas grandes premiações. Por conta desta estratégia, The Ballad of Buster Scruggs saiu do Festival de Veneza com o prêmio de melhor roteiro -  muito merecido, já que os irmãos mais descolados de Hollywood oferecem, em pouco mais de duas horas, um olhar bastante particular para aquele universo um tanto saturado por clássicos e obras de gosto duvidoso. Não é novidade que os Coen amam o cinemão clássico e que já faz algum tempo que o faroeste tem sido o gênero da vez nas mãos deles, aqui eles dão sua voz a seis histórias que só poderiam ter sido imaginadas por eles, seja em suas ironias, dramas ou sutilezas e o resultado é interessantíssimo. O filme se apresenta como se fosse um livro de contos, o primeiro deles é o que dá nome ao filme e conta a história de um violeiro que cavalga pelo deserto, mas que se revela um pistoleiro bastante habilidoso entre uma canção e outra. É uma boa escolha para introduzir o espectador ao universo do filme, já que existe humor, violência, elementos absurdos e clichês revirados como só os dois são capazes de fazer. Ao final da história nos deparamos com um elemento que perpassa todas as histórias: a morte. Talvez ela seja o elemento principal da história do ladrão vivido por James Franco, que em uma sucessão de trapalhadas (de um colete a prova de balas improvisado inacreditável,  um cavalo que insiste em comer capim quando você está com a corda no pescoço e o "é sua primeira vez" com um sentido nunca ouvido antes). O humor negro dá o tom desta história que apresenta Franco em um dos seus melhores momentos, pena que dura pouco. Depois é a vez de Liam Neeson aparecer na história mais melancólica do filme, especialmente pela excelente atuação de Harry Melling, como um artista sem os membros que atravessa o país como atração de circo. Com poucos diálogos e um senso se tragédia anunciada, talvez seja uma das melhores narrativas já construída pelos dois irmãos, principalmente pelas inúmeras analogias que é capaz de proporcionar (e o final é de partir o coração). Neeson tira de letra o tom intimista da história que tem em mãos, mas é Melling que realmente impressiona - curiosamente é um ator que fez pouco cinema, tirando a saga Harry Potter (em que - pasmem - interpretava o primo insuportável do bruxinho) ele fez Z: A Cidade Perdida/2017 e... só! Um ator para se ficar de olho. Os Coen ainda nos dão a honra de assistir Tom Waits voltando ao cinema como um garimpeiro na história mais contemplativa de todo o filme. Mais uma vez o roteiro tem poucos diálogos, afinal, Waits carrega o episódio sozinho quase o tempo inteiro (embora acompanhado por um grupo de animais, com destaque para uma expressiva coruja). O episódio só destaca ainda mais o cuidado técnico da produção com a edição, a fotografia e o ritmo preciso impresso pelos irmãos. No penúltimo episódio Zoe Kazan se junta à uma diligência para encontrar o marido arranjado pelo irmão um tanto... confuso. Esta é a história romântica do filme, embora o romance apareça de forma inusitada - desde que Bill Heck aparece descabelado, barbudo, sujo, suado e com olhos brilhantes ao lado da donzela indefesa você já imagina o que irá acontecer entre os dois... ou quase. Talvez seja a história mais convencional que compõe o filme, mas ainda é um verdadeiro deleite a sensação de que algo imprevisível está à espreita. Para terminar, os Coen investem numa atmosfera surrealista, que parece um despretensioso conflito entre passageiros de uma carruagem - e eles nem fazem ideia para onde estão indo (e todos os atores estão impecáveis brincando com o texto) -, mas este arremate só poderia sair da mente  de uma das duplas mais criativas de Hollywood. Algumas pessoas podem considerar que o formato episódico (que revela-se um passeio por diversos gêneros cinematográficos, algo que o faroeste serve muito bem) seja um problema para o filme, mas faz tempo que não vejo um trabalho tão coerente neste modelo de estrutura narrativa. Além disso, a Netflix foi bastante esperta, já que o espectador pode ver o filme por episódios ou inteiro que em nada prejudica o programa. Só espero que os Coen continuem com o desejo de contar novas histórias em uma nova temporada - ou novo filme. 

The Ballad of Buster Scruggs (EUA-2018) de Joel e Ethan Coen com Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson, Harry Melling, Zoe Kazan, Bill Heck, Jonjo O'Neill, Brendan Gleeson, Saul Rubinek e Tyne Daly.
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sábado, 17 de novembro de 2018

APOSTAS PARA O OSCAR 2019: Capítulo I

Sim meus amigos, a temporada de ouro já chegou e as especulações para as premiações já estão a todo vapor! Com algumas listas e premiações aparecendo por aí, a dúvida é quem tem fôlego para encarar a temporada de pesos pesados e manter o fôlego até a divulgação dos indicados ao maior prêmio do cinema americano. Alguns filmes que já estrearam por aqui tem chances de serem lembrados - sobretudo os recentes Nasce uma Estrela e Bohemian Rhapsody, dois filmes de quatro palpites que tem a música correndo nas veias nesta temporada. A animação Os Incríveis 2 tem como maior oponente o genial Ilha dos Cachorros que poderá dar a Wes Anderson seu primeiro Oscar! Também não podemos esquecer de Charlize Theron (e o roteiro) de Tully, o sucesso Pantera Negra e os arrepiantes Um Lugar Silencioso e Hereditário (é verdade que a Academia não é muito chegada a filme de super-herói ou terror, mas vai que...). A partir de hoje destacarei aqui no blog os filmes que despontam como favoritos ao careca dourado mais cobiçado do mundo:

Roma 
O oscarizado Alfonso Cuarón (Gravidade) corre sério risco de ser novamente premiado por ter feito o filme mais elogiado do ano. Premiado no Festival de Veneza e produzido pela Netflix, Roma é um verdadeiro passeio pelas memórias de infância do diretor e o resultado é dotado de uma atmosfera que tem encantado espectadores por todo o mundo. Ambientado na Cidade do México em 1970, não sei se a Academia premiaria um filme falado em espanhol na categoria principal, mas o Oscar de filme estrangeiro já tem mãos certas. 

 As Viúvas
Fosse dirigido por um cineasta mais convencional, este filme faria boas bilheterias colheria alguns elogios e ficaria por isto mesmo. Sorte que o estúdio teve o bom senso de querer fazer algo mais e convidou o autoral Steve McQueen para fazer bonito. No elenco,  Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki e Cynthia Erivo são as personagens do título que juntam forças para superar as dificuldades financeiras deixadas pelos maridos criminosos. Misturando drama, suspense e ação, o filme é um dos mais elogiados do ano. 

A Favorita
Este é outro filme aclamado no Festival de Veneza deste ano - saiu com os prêmios de melhor atriz (a ótima Olivia Colman) e grande prêmio do júri. O filme conta um inusitado triângulo amoroso no século XVIII que acontece em paralelo à guerra entre Inglaterra e França. Existe uma batalha muito particular entre duas mulheres (Rachel Weisz e Emma Stone) que disputam o posto de pessoa mais influente na corte da rainha (Colman). O mais curioso desta comédia que capricha no humor negro é que se trata do primeiro filme do grego (e denso) Yorgos Lanthimos sem um roteiro feito por ele. 

Vox Lux
Parece que Natalie Portman está de volta ao páreo. Depois de ser indicada ao Oscar por viver uma stripper, ganhar um Oscar por sua performance como bailarina transtornada e concorrer novamente como uma icônica primeira-dama americana, Natalie agora vive uma estrela do mundo pop que tem uma boa cota de fantasmas para exorcizar. Dirigido por Brady Corbet, o filme oferece um olhar bastante ácido para o mundo pop - que é capaz de transformar até a experiência mais traumatizante em algo capaz de produzir fama e dinheiro.

A Esposa 
Falando em voltar ao páreo, não seria ótimo ver uma atriz tão magnífica como Glenn Close ganhando seu merecido Oscar pela primeira vez. A atriz veterana já foi indicada seis vezes à estatueta e nunca foi premiada! Ao que parece sua elogiada atuação neste filme do sueco Björn Runge pode lhe fazer justiça. Ela vive a discreta Joan Castleman que acompanha o esposo, Joe Castleman (Jonathan Pryce) para receber o Nobel de Literatura. Em quarenta anos de casamento muitos dos seus sonhos e ambições ficaram para trás e... as frustrações ganham força durante o filme. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Na Tela: Nasce uma Estrela

Bradley e Lady: nasce um cineasta. 

Bradley Cooper era visto com desconfiança por muita gente até conseguir a proeza de ser indicado ao Oscar por três anos seguidos. Com os elogios recebidos por O Lado Bom da Vida (2012), Trapaça (2013)  e Sniper Americano (2014), Bradley deixou de ser apenas um cobiçado galã para ser reconhecido como um ator versátil. Nos últimos anos ele não apareceu muito na telona (embora sua voz continuasse presente na voz do guaxinim mais descolado do universo, o Rocket de  Guardiões da Galáxia) por conta do preparo de sua estreia como cineasta. Quando eu descobri que ele faria uma nova versão de Nasce uma Estrela eu só me perguntei se ele tinha enlouquecido. Nasce uma Estrela estreou no cinema em preto e branco no ano de 1937 com Janet Gaynor na pele de uma jovem que se apaixona por um cantor decadente - enquanto ela se torna mais famosa. Depois foi a vez de Judy Garland fazer o mesmo em 1954 e a versão mais famosa do filme deve ser a de 1976, onde Barbra Streisand obteve um de seus melhores momentos na telona - e ainda levou para casa o Oscar de melhor canção pela belíssima Evergreen. Será que o mundo merecia mais uma versão desta história? Cooper não apenas considerava que merecia, como achava que com Lady Gaga seria muito melhor. Gaga ficou famosa como a cantora de roupas insanas e música pop cheia de arranjos eletrônicos, mas no meio do caminho ganhou um controverso Globo de Ouro por seu trabalho na série American Horror Story: Hotel (2010) - e ao julgar pelo entusiasmo da crítica, parece que ela terá outro em breve. Tão logo o filme foi exibido, os críticos caíram de amores pela nova versão, especialmente pela habilidade com que Bradley Cooper conduz as cenas. Nas cenas de palco temos a sensação de estar vendo de fato um filme sobre a turnê de um artista, com uma energia impressionante sobre o palco. Por outro lado, quando vemos as cenas do relacionamento entre os protagonistas, o sabor é de uma crônica amarga sobre o estrelato. Gaga interpreta Ally, jovem que tem uma voz poderosa e gosta de compor, mas que não considera que seu talento compense a aparência. Além de dirigir, Cooper atua como Jack, o cantor decadente que bebe mais do que devia, mas que percebe em Ally a chance de ter novo fôlego em sua carreira e vida pessoal. Embora a trama seja a mesma das outras versões, Cooper consegue dar novas camadas ao seu personagem ao ponto de roubar a cena com um trabalho realmente impressionante, do olhar, passando pelo sotaque (que parece inspirado em Jeff Bridges) e a postura no palco, o ator simplesmente desaparece no personagem. Já Lady Gaga está... bem, mas ajudaria bastante se a overdose de botox não atrapalhasse suas expressões faciais. Sorte que a química entre os dois funciona bem e a montagem bastante dinâmica ajuda bastante neste dramático musical. Não lembro do final das outras versões haver um tratamento tão obscuro, mas o fato é que em Nasce uma Estrela, nasceu um bom diretor que não tem medo de desafios.

Nasce Uma Estrela (A Star is Born / EUA - 2018) de Bradley Cooper com Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot e Rafi Gavron. ☻☻☻☻

Indicados Inependent Spirit Awards - 2019


Os cinco indicados a melhor filme: celebração indie. 

Com a temporada dourada se aproximando, o Independent Spirit Awards já apontou os seus favoritos do ano que vai chegando ao fim. Embora deixe de fora os filmes de grandes estúdios e celebre filmes de pequeno orçamento, a premiação já teve muita coincidência com o Oscar e o Globo de Ouro ao longo do tempo. Realizado desde 1984, muitos diretores aclamados no prêmio indie já foram posteriormente reconhecidos pela Academia de Hollywood - entre eles estão os Irmãos Coen, Quentin Tarantino, Christopher Nolan, Alexander Payne e a lista segue. Neste ano alguns concorrentes já foram exibidos no Brasil e a grane maioria nem tem previsão de estreia, mas  isso não diminui as chances deles aparecerem no Oscar. A surpresa da vez foi We The Animals, que foi o mais indicado ao ser lembrado em cinco categorias (incluindo melhor filme de estreia), também não posso esquecer do brasileiro Sócrates (inédito por aqui) que concorre em três categorias, incluindo melhor ator para o paulista Christian Malheiros. A lista dos indicados está logo abaixo - lembrando que os premiados do Film Independent Spirit Awards 2019 serão anunciados no próximo dia 23 de fevereiro de 2019. 

MELHOR FILME
First Reformed
Se a Rua Beale Falasse
Leave No Trace

MELHOR FILME DE ESTREIA
Sorry to Bother You
We the Animals
Vida Selvagem

PRÊMIO JOHN CASSAVETES 
(ao melhor filme produzido por menos de US$ 500.000)
A Bread Factory
En el Séptimo Día
Never Goin’ Back
Sócrates
Thunder Road

MELHOR DIRETOR
Debra Granik | Leave No Trace
Barry Jenkins | Se a Rua Beale Falasse
Paul Schrader | First Reformed

MELHOR ROTEIRO
Collette | Richard Glatzer, Rebecca Lenkiewicz & Wash Westmoreland
Você Pode Me Perdoar? | Nicole Holofcener e Jeff Whitty
Sorry to Bother You | Boots Riley
First Reformed | Paul Schrader

MELHOR ROTEIRO DE ESTREIA
Nancy | Christina Choe 
Blame | Quinn Shephard e Laurie Shephard

MELHOR FOTOGRAFIA
Madeline’s Madeline
Vida Selvagem
Mandy
Suspiria
We the Animals

MELHOR MONTAGEM
We the Animals
American Animals
Mid90s

MELHOR ATRIZ
Glenn Close | The Wife
Regina Hall | Support the Girls
Helena Howard | Madeline’s Madeline
Carey Mulligan | Vida Selvagem

MELHOR ATOR
John Cho | Buscando…
Daveed Diggs | Ponto Cego
Ethan Hawke | First Reformed
Christian Malheiros | Sócrates

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Tyne Daly | A Bread Factory
Regina King | Se a Rua Beale Falasse
Thomasin Harcourt McKenzie | Leave No Trace
J. Smith-Cameron | Nancy

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Raúl Castillo | We the Animals
Adam Driver | Infiltrado na Klan
Richard E. Grant | Você Pode Me Perdoar?
John David Washington | Monsters and Men

PRÊMIO ROBERT ALTMAN 
(Ao Diretor, diretor de elenco e elenco)
“Suspiria”  de Luca Guadagnino
Diretores de Elenco: Avy Kaufman, Stella Savino
Elenco: Malgosia Bela, Ingrid Caven, Lutz Ebersdorf, Elena Fokina, Mia Goth, Jessica Harper, Dakota Johnson, Gala Moody, Chloë Grace Moretz, Renée Soutendijk, Tilda Swinton, Sylvie Testud, Angela Winkler

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Hale County This Morning, This Evening
Minding the Gap
Of Fathers and Sons
On Her Shoulders
Shirkers
Won’t You Be My Neighbor?

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Em Chamas
A Favorita
Happy as Lazzaro
Italy
Roma
Negócio de Família

PRÊMIO BONNIE
Debra Granik
Tamara Jenkins
Karyn Kusama

PRÊMIO DE PRODUTORES
Jonathan Duffy and Kelly Williams
Gabrielle Nadig
Shrihari Sathe

PRÊMIO ALGUÉM PARA SE FICAR DE OLHO
Alex Moratto |Diretor de Sócrates
Ioana Uricaru | Diretora de Lemonade
Jeremiah Zagar | Diretor de We the Animals

PRÊMIO MAIS REAL QUE A FICÇÃO
Alexandria Bombach | Diretora de On Her Shoulders
Bing Liu | Diretor de Minding the Gap
RaMell Ross | Diretor de Hale County This Morning, This Evening

Na Tela: Bohemian Rhapsody

Lee, Malek e Joseph:  Queen em ação. 

Bohemian Rhapsody deve estar em alguma lista de filmes de produção mais complicada dos últimos anos. Ainda lembro quando o comediante Sacha Baron Cohen queria estrelar o filme sobre a vida de Freddie Mercury. Assim que começou a ser escrito os integrantes do Queen ficaram de cabelo em pé com a história que ele queria contar sobre o vocalista da banda. Como a ideia de ter um filme sobre um dos maiores ícones da história do rock era melhor do que a ideia de ter Sacha à frente do elenco, os produtores começaram a lapidar a ideia conforme os membros remanescentes da banda pediam. Eu já imaginava que o tom de biografia autorizada seria impresso e foi com estes olhos que fui assistir ao filme no feriado chuvoso de dois de novembro. Com a saída de Sacha Baron Cohen, quem assumiu o papel de Freddie foi Rami Malek, o interessante protagonista da série Mr. Robot e que depois de ganhar prêmios pelo seu trabalho na TV, recebe aqui a chance de aparecer nas premiações cinematográficas (pelo menos a indicação ao Globo de Ouro é tida como certa). Malek faz realmente um bom trabalho ao capturar o gestual, os olhares e trejeitos de Freddie, tentando se equilibrar entre as ambiguidades do personagem sem perder o coração. Vale registrar que embora aparecesse na mídia como o retrato de uma vida extravagante, Freddie era bem mais recluso do que se imagina. Não gostava de falar muito sobre a vida pessoal (provavelmente pelo conflito entre sua educação conservadora e a identidade sexual que construiu), o que dificultou ainda mais o trabalho de elaboração do roteiro. Não resta dúvida de que o ponto fraco do filme é do texto, que não traz novidades e constrói sua história de forma bastante convencional, demonstrando a origem da banda, o sucesso arrebatador e a crise que se instaura quando a personalidade de Freddie se torna mais egocêntrica. Quase não há aprofundamento dos personagens, sendo eles observados somente na superfície, especialmente pelo relacionamento que tinham dentro da banda. Das brigas sobre repertório, passando pela construção da sonoridade de cada álbum e de cultuados hits, o filme olha seus personagens com o carinho de um fã - e a caracterização do elenco ajuda bastante neste aspecto. Malek tira de letra a estranha dentadura que colocaram nele, sem ridicularizá-la e humanizando Freddie mesmo em seus momentos mais complicados. Gwilyn Lee está perfeito como o guitarrista Brian May, assim como Ben Hardy na pele do bateirista Roger Taylor. Joseph Mazello está bem como o discreto baixista Joe Deacon, mas eu curti mais rever o menino crescido de Jurassic Park (1993) do que apreciar a semelhança entre os dois. Outro destaque do elenco é Lucy Boynton, como o maior elo emocional de Freddie em todo o filme - o relacionamento entre os dois poderia ser um pouquinho mais elaborado, mas a química entre os dois funciona do mesmo jeito. Embora o filme trate a sexualidade de Freddie de forma discreta, houve polêmica nos cinemas brasileiros de alguns desavisados que ficaram indignados ao ver o retrato de um artista gay na tela grande, ainda bem que na sessão em que fui  plateia só dizia alguma coisa quando cantava baixinho as músicas da banda.  Bohemian Rhapsody pode não ser perfeito, mas foi realizado com esmero. A reconstituição de época, a maquiagem, figurinos e condução do elenco é  bastante dedicada. Além disso, a reconstituição da apresentação no Live Aid impressiona - o que é um ponto positivo, afinal, o festival abre e fecha o longa. Mesmo envolvendo sexo, drogas e o aparecimento da AIDS, a direção opta por uma leveza que por vezes destoa do que vemos na tela, talvez esta sensação tenha relação com a saída de Brian Singer (que assina a direção, embora tenha saído no meio da produção depois de uma briga feia com Rami) e a chegada de Dexter Fletcher (do divertido Voando Alto/2016). Por mais que o filme tenha esta costura invisível, a saída de um diretor e a entrada do outro costuma ser uma situação problemática para o resultado final (e Fletcher em breve lançará outra cinebio de um artista extravagante: Rocketman, sobre Elton John). Pode ser por evocar nossa nostalgia, mas eu sai satisfeito do cinema e emocionado em relembrar a trajetória de um dos cantores mais marcantes da história da música. 

Bohemian Rhapsody (Reino Unido - EUA / 2018) de Brian Singer com Rami Malek, Gwilyn Lee, Ben Hardy, Joseph Mazello, Lucy Boynton, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander e Mike Myers. ☻☻☻

NªTV: Demolidor - 3ª Temporada

Bethel: novo Demolidor na área.

Infelizmente não pude postar por algumas semanas devido a compromissos para além da blogosfera. Faz um tempo que se tornou cada vez mais difícil encontrar espaço na agenda para ver filmes e escrever sobre eles aqui, mas nos últimos tempos se tornou ainda mais complicado, tanto que vi poucos filmes (e escreverei sobre os que assisti neste período por aqui em breve) e espero que as coisas se organizem de forma que possa aparecer por aqui mais vezes. No meio de tanta correria, acabei me rendendo a ver séries, afinal, elas exigem um tempo menor para assistir (geralmente antes de dormir  - não sei se já disse por aqui, mas não gosto de ver filmes em partes, considero que me faz perder o tom da narrativa como um  todo). Foi assim que assisti com grande satisfação a terceira temporada de Demolidor! Sei que a esta altura todo mundo deve ter exaltado as qualidades desta nova temporada que foi muito aguardada pelos fãs após termos que nos contentar com o encontro do herói de Hell Kitchen com seus colegas da parceria Marvel/Netflix em Defensores. Confesso que a segunda temporada do chifrudinho não me agradou muito, embora enriquecesse ainda mais o universo do herói com Elektra e o anti-herói Justiceiro (que ganhou uma série própria que ainda nem terminei de assisitir). Acho que estou ficando velho e considerei que havia informação demais para ser trabalhada. O fato é que no hiato entre as temporadas os boatos e as expectativas cresceram bastante e, o melhor: a série entregou a sua melhor temporada, superando até mesmo a primeira. Entre os trunfos estão o retorno do Rei do Crime (Vincent D'Onofrio que não entregava um trabalho tão impressionante desde Nascido para Matar/1987 do Kubrick) que desta vez constrói um plano que coloca o FBI aos seus pés - e abre caminho para um novo vilão bastante conhecido pelos fãs (defendido de forma impressionante por Wilson Bethel). A forma como a temporada apresenta e constrói este novo vilão é de se aplaudir (e embora tenha uma alteração aqui e outra ali, mostra-se bastante fiel aos quadrinhos).  Se Charlie Cox tem a dedicação de sempre numa fase complicada de seu protagonista, seus embates com Bethel se mostram igualmente impressionantes. A base desta temporada é a cultuada saga A Queda de Murdock, o que explica muita coisa do que se vê na telinha num roteiro bem amarrado que a cada episódio aprofunda personagens e os laços que se estabelecem entre eles. Embalado por cenas de luta impressionantes e uma precisão narrativa que aumenta a tensão gradativamente, a série termina elevando o padrão da parceria Marvel/Netflix a outro patamar. Depois das pouco empolgantes segundas temporadas de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro (estas últimas canceladas recentemente), Demolidor ainda continua sendo o programa mais bem resolvido da Marvel no serviço de streaming.

Cox: momento de crise. 

Demolidor - 3ª Temporada (Daredevil - 3rd season / EUA-2018) de Drew Goddard com Charlie Fox, Vincent D'Onofrio, Deborah Ann Woll, Elden Henson e Wilson Bethel. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

4EVER: Stan Lee

28 de dezembro de 1922 ✰12 de novembro de 2018

Stanley Martin Lieber nasceu na cidade de Nova York em uma família de imigrantes judeus vindo da Romênia. Seu pai era alfaiate e a mãe era dona de casa. A família vivia em um apartamento humilde no Bronx. Desde que pequeno Stanley curtia escrever e começou a carreira com obituários em jornais da cidade. Foi por conta de um tio que Lee começou a trabalhar em uma editora de quadrinhos e aos  dezenove anos já era nomeado editor das revistas em quadrinhos. Sob o nome artístico de Stan Lee, foi responsável pela criação de vários super-heróis famosos da Marvel Comics, ganhando prestígio até se tornar presidente da editora. Dotado de um carisma inabalável (que ajudou muito no trabalho com geniais colaboradores), Lee se tornou uma referência no mundo dos quadrinhos e se tornou ainda mais conhecido pelas participações especiais nos filmes de suas criações. Poucos lembram, mas a primeira participação num filme aconteceu em 1989 com o telefilme O Julgamento do Incrível Hulk  - e esta tradição fará falta nos filmes com selo Marvel. Stan Lee faleceu por  complicações decorrentes de um acidente vascular cerebral.