| Os Fumari: comercial de margarina disfuncional. |
Uma Família Feliz (Brasil - 2024) de José Eduardo Belmonte com Grazi Massafera, Reynaldo Giannechini, Luiza Antunes, Juliana Bim, Guenia Lemos e Maureen Miranda. ☻☻☻
| Os Fumari: comercial de margarina disfuncional. |
Uma Família Feliz (Brasil - 2024) de José Eduardo Belmonte com Grazi Massafera, Reynaldo Giannechini, Luiza Antunes, Juliana Bim, Guenia Lemos e Maureen Miranda. ☻☻☻
![]() | |||
| "Nickel Boys" de RaMell Ross |
![]() |
| Hartnett: atuação esperta em filme nem tanto. |
A esta altura todo mundo já sabe que M. Night Shyamalan está longe de ser o gênio alardeado com O Sexto Sentido (1999). O longa que concorreu a seis Oscars (incluindo melhor filme e duas indicações para Shyamalan, uma em roteiro original e outra em direção) sempre fica na cabeça dos fãs como prova do talento do cineasta, mas que ao longo dos anos rendeu longas bastante irregulares. Nos últimos anos ele teve alguns acertos (Fragmentado/2017 e Batem à Porta/2013) mas também errou feio (alguém curtiu Tempo/2021?), fica então aquela vontade de ver um lançamento com assinatura dele para ver se ele acerta novamente. Armadilha conta a história de um pai (Josh Hartnett) que leva sua filha (Ariel Donoghue) para o show de uma estrela da música pop, a Lady Raven (Saleka Shyamalan, filha do diretor), entre uma música e outra, ele percebe que existe muitos policiais no local e tenta entender do que se trata. Eis que ele descobre que aquele concerto é na verdade uma emboscada para um assassino conhecido como O Açougueiro. Acontece que o pai zeloso é o próprio serial killer. Ele passa então a planejar como escapará daquela armadilha. Durante sua primeira parte, Shyamalan não demonstra muito esforço para articular as ideias do personagem que entre uma brecha aqui e ali, dribla a atenção da filha e de quem mais cruzar o seu caminho para colocar em prática o plano de fuga. Se durante o show o filme se desenvolve sem sobressaltos dentro de uma zona de conforto, curiosamente o filme se torna cada vez menos interessante em sua segunda parte. Na busca por reviravoltas para surpreender o espectador, o filme se torna cada vez mais cansativo em suas saídas nada convincentes para que o protagonista se torne um criminoso genial. O filme se torna cada vez mais arrastado e perde diversas chances de terminar com alguma dignidade e deixa a impressão que seria mais interessante se fosse ambientado somente durante o show, já que tudo o que vem depois soa bastante forçado. A sorte é que Armadilha conta com uma boa atuação de Josh Hartnett (que está cada vez mais agradecido por deixar de ser um galã adolescente). O ator desenvolve tranquilamente as duas personas totalmente opostas que o filme lhe oferece. Ele convence tanto como pai atencioso como doido sanguinário, o problema é que na tentativa de demonstrar como ele é esperto, subestima a inteligência de todos os outros personagens e do próprio espectador. O pior de tudo é aquela última cena que deixa margem para uma continuação - que serviria para alguma coisa somente se fosse para torna-lo um supervilão daquele universo que parece terminado de forma frustrante em Vidro (2019). Não abuse de nossa paciência, Shyamalan.
Armadilha (Trap / EUA - 2024) de M. Night Shyamalan com Josh Hartnett, Ariel Donoghue, Saleka Shyamalan, Alison Pill, Hayley Mills e Jonathan Langdon. ☻
![]() |
| 03 de maio de 1938 ✰ 04 de novembro de 2024 |
![]() |
| 14 de março de 1933 ✰ 03 de novembro de 2024 |
![]() |
| Asta e Herbert: efeito colateral de uma hipnoterapia. |
André (Herbert Nordrum) e Vera (Asta Kamma August) são namorados e parceiros na construção de um aplicativo para saúde feminina. Diante da invenção, os dois agora procuram por investidores para bancar o projeto e precisam saber vender a ideia. Ambos podem ser craques em tecnologia, mas desde a primeira cena fica evidente o quanto Vera é tímida e André é formal demais para conquistar a simpatia de possíveis investidores. No meio de tudo isso, Vera tem hora marcada com uma hipnoterapeuta para que consiga parar de fumar. No primeiro encontro do casal após o procedimento, fica evidente que algo mudou na personalidade da moça (e não se trata do uso dos cigarros). Vera está completamente desinibida (será que o alívio da tensão proporcionado pelo cigarro evitava que demonstrasse tal comportamento?). Capaz de soltar gritos de alegria em público, dançar com a música alta antes de dormir, brincar em momentos indevidos e contar histórias totalmente descabidas. No início o novo comportamento até ajuda a vender a ideia, o problema é que ela parece cada vez mais destrambelhada. A Hipnose é um filme dirigido pelo sueco Ernst de Geer e parte de uma brincadeira bem humorada com a lógica das startups, mas investe cada vez mais na forma como lidamos com os códigos das relações sociais e do valor de uma falsa autenticidade como moeda social. Existe um tanto de como era mais cômodo para o casal que Vera ficasse à sombra do sócio namorado e como o fato dela chamar mais atenção que ele começa a incomodá-lo, mas a ideia de ter alguém de comportamento imprevisível em uma reunião de negócios ou um jantar com investidores pode ser bastante complicada - assim como toda a formalidade de André por vezes também gera encontros desconfortáveis para ele e o grupo (como naquela cena em que ele aparece em uma reunião para qual não foi convidado e não consegue se encaixar). Obviamente que o importante é alcançar um meio termo nessas relações, do que se é e o outro espera que você faça, mas enquanto o tal equilíbrio não vem, André realiza uma atitude bastante questionável que pode comprometer não apenas o seu namoro como os negócios também. A Hipnose é uma comédia romântica europeia, o que funciona sempre bem quando não tenta seguir a cartilha hollywoodiana do gênero. Investindo no humor pela via do desconforto e da vergonha alheia, o filme consegue ser divertido com toda sua casca formal em contraste com os absurdos de algumas cenas (e talvez seja a de André as mais absurdas em cena). Herbert Nordrum (que vimos em A Pior Pessoa do Mundo/2022) está convincente no papel do nerd que quer se aventurar pelo mundo dos negócios, mas é Asta Kamma August que rouba a cena com a guinada surpreendente de sua personagem. Quando o filme terminou eu fiquei imaginando que não ficaria surpreso se num futuro próximo gerasse uma remake em inglês com Emma Stone e Adam Driver nos papéis principais (e claro que aquele último ato seria alterado para ficar menos, digamos, ousada...).
A Hipnose (The Hypnosis / Noruega - Suécia / 2023) de Ernst de Geer com Herbert Nordrum, Asta Kamma August, David Fukamachi Regnfors, Moa Niklasson, Andrea Edwards e Simon Rajala. ☻☻☻
Neste Halloween, em homenagem à campanha de Demi Morre para o Oscar por A Substância, resolvi tirar da tumba o Combo no blog, só para lembrar cinco atrizes que mereciam o reconhecimento da Academia e acabaram de fora do páreo de melhor atriz. Quatro são de obras recentes e a primeira colocada é a prova irrefutável de que o Oscar tem problemas com ótimas performances em filmes de terror.
![]() |
| Demi: musa desconstruída em filme controverso. |
Diante de toda a controvérsia podemos afirmar que A Substância é (de longe) um dos filmes mais interessantes de 2024. O longa foi exibido como quem não quer nada na última edição do Festival de Cannes e saiu de lá com o prêmio de melhor roteiro e a consagração de ser um dos mais falados do evento. A francesa Coralie Fargeat fez um filme de grande impacto e difícil de rotular (tanto que compreendo os motivos que o colocaram no páreo por uma vaga na categoria de melhor comédia no Globo de Ouro). Apesar dos exageros e dos risos nervosos da plateia, o que se esconde por trás de todo alardeado horror corporal da produção está uma crítica social que apresenta muito mais camadas do que parece. O roteiro de Fargeat é esperto ao ponto de retratar a ascensão da musa Elizabeth Sparkle (uma colossal Demi Moore) apresentando somente sua estrela na calçada na fama. A atriz consagrada que já ganhou até um Oscar (algo que nunca aconteceu com Demi) atravessou décadas à frente de um programa de ginástica na TV, mas agora que completa mais uma aniversário, a direção da emissora (personificado por Denis Quaid) considera que ela está mais do que ultrapassada. Diante dos insultos que escuta acidentalmente, Elizabeth fica transtornada. Sofre um acidente e recebe um convite para ser usuária de um produto revolucionário (e clandestino). A tal substância do título faz com que Elizabeth dê origem à Sue (Margareth Qualley), uma mulher algumas décadas mais jovem e que pretende ocupar a vaga de sua "matriz" na televisão. Acontece que existe uma série de regras para que o procedimento dê certo e, por mais que Elizabeth tenha consciência do que deve ser feito, o complicado é convencer sua versão jovem deslumbrada a fazer a mesma coisa. A relação de Elizabeth e Sue é bastante complexa, principalmente pelas analogias que podem ser feitas em todos os procedimentos que envolvem a substância. A forma como Elizabeth deseja tanto ser jovem novamente, mesmo que seja outra pessoa, ou a maneira como Sue despreza cada vez mais sua matriz podem gerar várias leituras sobre uma sociedade que é mais do que hetarista, mas obcecada pela juventude na mesma medida como despreza o envelhecimento. Em determinadas cenas, o embate entre as duas versões da protagonista passa a ser o conflito entre o velho e o novo, a experiência e a impaciência, entre reconhecer o espaço de quem veio antes e sua importância. Para Sue, não faz sentido ter que se preocupar com Elizabeth, à sua matriz caberia somente aguardar a morte. No entanto, existe certa realização em Elizabeth ao ver as conquistas de Sue, pelo menos até aquele momento em que ela percebe ser tarde demais para voltar atrás. Se parece filosófico demais, Fargeat faz tudo isso embrulhado em uma experiência sensorial hipnotizante, com cores, ruídos, closes absurdos e ângulos estranhos. Sim, existe muito exagero, muito sangue, muito gore, especialmente no desfecho que se rende totalmente ao absurdo de tudo aquilo, ou melhor ao exagero de uma sociedade que canibaliza a beleza e a juventude. Depois de uma ótima repercussão nos cinemas, A Substância está em cartaz na Mubi que, pela primeira vez, está investindo em uma campanha para o Oscar. Ficaria muito feliz de ver Demi Moore no páreo de melhor atriz. Seu trabalho corajoso nesta produção deixa claro que ela deve ter vivido maus bocados ao longo de sua carreira no cinema. Sempre com a beleza colocada em primeiro plano, poucas vezes ela coletou elogios tão calorosos à sua atuação. Ótima em cena, ela amplia ainda mais a potência do tapa na cara que o filme oferece, resta saber se a Academia irá engolir seus preconceitos e aceitar que filme de horror possuem performances arrebatadoras. Vale destacar que este é o segundo filme de Coralie (o primeiro foi o também controverso Vingança/2017 que está na Netflix), mas que de certa forma revisita algumas questões de um curta feito por ela, o Reality+, feito em 2014 e que está em cartaz na MUBI, mas também pode ser visto no Youtube. A cineasta é um nome que merece toda nossa atenção.
A Substância (The Substance / EUA - Reino Unido - França) de Coralie Fargeat com Demi Moore, Margareth Qualley, Dennis Quaid, Hugo Diego Garcia e Gore Adams. ☻☻☻☻