domingo, 17 de dezembro de 2023

PL►Y: Asteroid City

Scarlett e Jason: flerte na cidade perdida no meio do deserto. 

Sou fã do Wes Anderson faz tempo e entendo completamente sua irritação quando as pessoas criam paródias com Inteligência Artificial clonando seu estilo, afinal, parece ser algo algo somente imagético. Muito do estilo do diretor está nas atuações contidas, nas piadas cheias de ironias cortantes e aquele jeito de lidar com personagens e cenários como se estivesse brincando com bonequinhos (algo que fica mais explícito quando faz sua animações em stop-motion como Fantástico Sr. Raposo (2009) e Ilha de Cachorros (2018) e trata os bonecos como se fossem pessoas de carne e osso). Mesmo quando erra a mão, o cinema de Wes é interessante.  O problema é que desde o seu filme anterior, Crônica Francesa (2009), o diretor acha que só contar suas histórias com o visual deslumbrante é pouco, ele acha necessário dar uma incrementada no roteiro, colocar diferentes "camadas" e com isso, tornar a narrativa mais rica. O problema é que ao invés da riqueza, a coisa está ficando confusa. No filme anterior, as histórias tomavam contornos de crônicas de uma revista, agora, a trama é contada como se fosse uma peça de teatro sendo executada ao mesmo tempo em que assistimos ao filme. Na tela, a ideia não funciona muito bem já que quebra o ritmo do filme toda hora  para uma digressão que não o torna mais engraçado, dramático ou interessante. É como se você estivesse vendo um filme e toda hora é interrompido por um pedaço de making of que você não quer ver. Quando Asteroid City se concentra na cidadezinha famosa pela queda de um meteorito e que assumiu uma verve científica nos anos 1950 como estilo de vida, o filme é bem agradável de assistir. Lá acontece uma feira de ciência com crianças de diversos lugares do país que apresentam seus inventos em busca de reconhecimento e talvez algum investimento. É por conta disso que vão para lá um homem que acaba de ficar viúvo (Jason Schwartzman) com seu filho nerd (Jake Ryan) e suas três filhas adoráveis 9e hilariantes), uma atriz (Scarlett Johansson) que está mergulhando na personagem de seu novo filme, o militar (Jeffrey Wright) que apresenta o evento, o vovô zeloso (Tom Hanks), tem Hope Davis e Liev Scchreiber como os pais de um geniozinho criador raios laser, uma cientista (Tilda Swinton), um cowboy cantor de música country (Rupert Friend), uma professora dedicada (Maya Hawke) e tem espaço até para o brasileiro Seu Jorge numa pontinha. Wes juntou boa parte da sua patota favorita de atores no que poderia ser um filme despretensioso e divertido - especialmente quando todos precisam encontrar formas de passar o tempo diante da visita de uma quarentena imposta após a visita de um alienígena (Jeff Goldblum?) . Obviamente que com tantos personagens nem todos recebem o desenvolvimento pleno que merecem, mas se Wes se concentrasse mais na cidadezinha esquecendo todos os penduricalhos que coloca ao redor dela, a coisa poderia render muito mais. Afinal, o que me interessa saber que Edward Norton é o autor da peça que inspirou o filme, que Adrien Brody é o diretor da peça e que Willem Dafoe aparece do nada para fazer esquisitices. Essa parte dos bastidores é totalmente dispensável para o andamento do filme e deixa o filme chato toda hora que invade a paleta de cores pastéis desbotada da cidadezinha. Será que Wes quer dizer que a vida no mundo de fantasias é mais interessante e colorido, enquanto os bastidores é cinzento e chato como qualquer trabalho? Se essa era a ideia ele foi bem sucedido, embora a tese não seja novidade alguma. Seja como for, alguns cortes deixariam Asteroid City tinindo entre os melhores filmes do ano. 

Asteroid City (EUA-2023) de Wes Anderson com Jason Schwartzman, Scarlett Johanssson, Jake Ryan, Hope Davis, Tilda Swinton, Bryan Cranston, Edward Norton, Maya Hawke, Rupert Friend, Steve Carrell, Tom Hanks, Adrien Brody, Margot Robbie, Jeff Goldblum e Matt Dillon. ☻☻☻

PL►Y: O Mundo Atrás de Nós

 
Ali, Myha, Roberts e Hawke: apocalipse tecnológico.
 

Acho que neste final de ano nenhum filme ganhou mais espaço nas conversas do que que O Mundo Atrás de Nós, que está no topo da Netflix nas últimas semanas. A empresa estava tão confiante sobre o filme, que lhe garantiu espaço no final de ano quando os críticos e votantes das premiações estão com os radares atentos para suas indicações de melhores de ano. Obviamente que o elenco ilustre (Julia Roberts ao lado de seu cunhado Kevin Bacon, Ethan Hawke e o duplamente oscarizado Mahershala Ali) chama atenção e os cinéfilos mais antenados também ficaram atentos reconhecem a assinatura ilustre do diretor Sam Esmail, o nome por trás da cultuada série Mr. Robot (2015) e da elogiada Homecoming (2018), que estabeleceu sua proximidade com a influente Pretty Woman. Tão logo os primeiros comentários começaram a sair, percebi que o filme estava longe de ser uma unanimidade. Muita gente reclamando que perdeu duas horas da vida vendo o filme e outros foram bastante elogiosos com as analogias alegóricas que o filme oferece sobre o mundo atual. Se você me perguntar qual tipo de espectador está certo em sua percepção do filme... a coisa complica. Ver um filme não significa ter uma opinião certa ou errada sobre ele, afinal, isso é bastante subjetivo e envolve tantos fatores que nem cabe descrever por aqui, afinal, cada um teria a sua opinião respaldada em seu gosto pessoal e experiências do mesmo jeito. No entanto, me atrevo a dizer que os dois estão bastante corretos. O filme de fato possui uma analogia interessante sobre uma espécie de fim de mundo que é percebido quando a tecnologia começa a deixar a nos servir. Os satélites pararam de funcionar. A TV não diz nada do que precisam saber, os carros elétricos ficaram desgovernados, a internet bugou e ninguém sabe direito o que está acontecendo, ou, quem descobre alguma pista fica com ainda mais dúvidas sobre o que está  havendo. Sam Esmail é craque ao inserir o espectador neste mundo de incertezas e paranoias (essa é uma marca dos eu estilo), para isso, capricha nos ângulos inusitados de sua narrativa, nos movimentos incomuns de câmera, mas deixa o roteiro com o freio de mão puxado, ao ponto ao final termos a ideia de que vimos não um filme, mas um longo episódio piloto de uma minissérie. Em sua adaptação do aclamado livro de Rumaan Alam, que em aborda nossa dependência crescente da tecnologia e o nosso distanciamento das demais pessoas. Esses dois pontos estão bastante presentes no filme, sendo bastante ressaltado na garota que quer apenas ver o último episódio de sua série favorita e na total inabilidade de Amanda (Julia Roberts) em lidar com a visita do proprietário (Mahershala Ali) da casa que alugou para passar uns dias de descanso. Isso tensiona os dias das duas famílias que precisam conviver enquanto petroleiros se chocam praias, aviões parecem pilotados por kamikazes, barulhos afetam nosso sistema imunológico e cervos aparecem para dizer que o mundo não é só dos humanos. Todos os elementos para fazer um filme interessante estão na receita, mas na metade o filme se revela emperrado e no final, mostra-se largado no meio do caminho com aquela cena final irônica. Eu, que já me escaldei com aquela segunda temporada desgovernada de Mr. Robot e com o final decepcionante da primeira temporada de Homecoming, já fui com o pé atrás. Esmail é talentoso, mas aqui ficou parecendo um primo do M. Night Shyamalan, que para não ficar idêntico, resolveu não fazer um final "surpresa" e preferiu deixar sem final mesmo. E não me venha com aquele papo de que eu "quero tudo explicadinho", afinal, não há muito o que explicar aqui (hackearam tudo meu povo, já era... sobreviva!) mas que houvesse uma história a contar. Aqui não há. Apenas uma colagem de ideias aguardando a continuidade em novos episódios que nunca existirão. É Sam Esmail agregado ao de um elenco eficiente para pregar uma peça no espectador, o resto, é você que escolhe agregar ao filme ou não.

O Mundo  Depois de Nós (Leave The World Behind/ EUA - 2023) de Sam Esmail com Julia Roberts, Mahershala Ali, Ethan Hawke, Myha'la, Kevin Bacon, Farra Mackenzie e Charlie Evans. ☻☻

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

INDICADOS AO GLOBO DE OURO 2024

Margot e Ryan: campeões de indicações.

 Hoje foram divulgadas as indicações ao Globo de Ouro, o prêmio da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood que passa por uma reformulação nos últimos anos. Com a entrada de mais votantes de outras partes do mundo, o resultado foi que os indicados encontraram um equilíbrio que há muito não se via no prêmio. Além disso, instauraram duas novidades: "Melhor Blockbuster" e seis indicados em cada categoria. O posto de filme mais indicado do ano foi para Barbie, que recebeu nove indicações (três somente na categoria de melhor canção, o limite permitido no Oscar - será que emplaca as três perante a Academia?). A seguir todos os indicados ao prêmio que acontecerá dia 07 de janeiro novamente televisionado, desta vez disponível pela Paramount+ no Brasil. 

Melhor Filme — Drama
    “Oppenheimer”
    “Assassinos da lua das flores”
    “Maestro”
    “Vidas passadas”
    “Zona de interesse”
    “Anatomia de uma queda”

Melhor Filme — Comédia ou Musical
    “Barbie”
    “Pobres criaturas”
    “American Fiction”
    “Os rejeitados”
    “Segredos de um escândalo”
    “Air"

Melhor Direção
    Bradley Cooper, “Maestro”
    Greta Gerwig, “Barbie”
    Yorgos Lanthimos, “Poor Things”
    Christopher Nolan, “Oppenheimer”
    Martin Scorsese, “Assassinos da lua das flores”
    Celine Song, “Vidas passadas”

Melhor Roteiro - Filme
"Pobres Criaturas"
"Vidas Passadas"
"Anatomia de uma Queda"

Melhor Ator — Drama
    Bradley Cooper, “Maestro”
    Leonardo DiCaprio, “Assassinos da lua das flores”
    Colman Domingo, “Rustin”
    Barry Keoghan, “Saltburn”
    Cillian Murphy, “Oppenheimer”
    Andrew Scott, “All of Us Strangers”

Melhor Atriz — Drama
    Lily Gladstone, “Assassinos da lua das flores”
    Carey Mulligan, “Maestro”
    Sandra Hüller, “Anatomia de uma queda”
    Annette Bening, “Nyad”
    Greta Lee, “Vidas passadas”
    Cailee Spaeny, “Priscilla”

Melhor Atriz — Comédia ou Musical
    Fantasia Barrino, “A cor púrpura”
    Jennifer Lawrence, “Que Horas eu Te Pego?”
    Natalie Portman, “Segredos de um escândalo”
    Alma Pöysti, “Folhas de outono”
    Margot Robbie, “Barbie”
    Emma Stone, “Pobres criaturas”

Melhor Ator — Comédia ou Musical
    Nicolas Cage, “Dream Scenario”
    Timothée Chalamet, “Wonka”
    Matt Damon, “Air”
    Paul Giamatti, “Os rejeitados”
    Joaquin Phoenix, “Beau tem medo”
    Jeffrey Wright, “American Fiction”

Melhor Ator Coadjuvante
    Willem Dafoe — “Pobres criaturas”
    Robert DeNiro — “Assassinos da lua das flores”
    Robert Downey Jr. — “Oppenheimer”
    Ryan Gosling — “Barbie”
    Charles Melton — “Segredos de um escândalo”
    Mark Ruffalo — “Pobres criaturas”

Melhor Atriz Coadjuvante
    Emily Blunt, “Oppenheimer”
    Danielle Brooks, “A cor púrpura”
    Jodie Foster, “Nyad”
    Julianne Moore, “Segredos de um escândalo”
    Rosamund Pike, “Saltburn”
    Da’Vine Joy Randolph, “Os rejeitados”

Melhor Trilha Sonora
  “Pobres criaturas”
    “Oppenheimer”
    “The Boy and the Heron”
    “Zona de interesse”
    “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”
    “Assassinos da lua das flores”

Melhor Canção Original

    “Addicted to Romance” (She Came to Me)
    “Dance the Night” (Barbie)
    “I'm Just Ken” (Barbie)

    “Peaches” (Super Mario Bros. — O filme)
    “Road to Freedom” (Rustin)
    “What Was I Made For?” (Barbie)

Melhor Filme em Língua Estrangeira
    “Anatomia de uma queda”
    “Folhas de outono”
    “Io Capitano”
    “Vidas passadas”
    “A sociedade da neve”
    “Zona de interesse”

    Melhor Filme de Animação
    “The Boy and the Heron”
    “Elementos”
    “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”
    "Super Mario Bros. — O filme”
    “Suzume”
    “Wish: O poder dos desejos”

     Blockbuster do Ano
    “Barbie”
    “Guardiões da Galáxia Vol. 3”
    “John Wick4: Baba Yaga”
    “Missão: Impossível – Acerto de contas parte 1”
    “Oppenheimer”
    “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”
    “Super Mario Bros. — O filme”
    “Taylor Swift: The Eras Tour”

Melhor série de TV – Drama
    “1923”
    “The Crown”
    “The Diplomat”
    “The Last of Us”
    “The Morning Show”
    “Succession”

Melhor Série de TV – Comédia
    “The Bear”
    “Ted Lasso”
    “Abbott Elementary”
    “Jury Duty”
    “Only Murders in the Building”
    “Barry”

Melhor Ator – Série de Drama
    Brian Cox, “Succession”
    Kieran Culkin, “Succession”
    Gary Oldman “Slow Horses”
    Pedro Pascal, “The Last of Us”
    Jeremy Strong, “Succession”
    Dominic West “The Crown”

Melhor Minissérie, Antologia ou Filme para TV
    “Beef”
    “Lessons in Chemistry”
    “Daisy Jones & the Six”
    “All the Light We Cannot See”
    “Fellow Travelers”
    “Fargo”

Melhor Atriz – Série de Drama
    Helen Mirren, “1932”
    Bella Ramsay, “The Last of Us”
    Keri Russell, “The Diplomat”
    Sarah Snook, “Succession”
    Imelda Staunton, “The Crown”
    Emma Stone, “The Curse”

Melhor Atriz Série de Comédia ou musical
    Ayo Edebiri, “The Bear”
    Natasha Lyonne, “Poker Face”
    Quinta Brunson, “Abbott Elementary”
    Rachel Brosnahan, “The Marvelous Mrs. Maisel”
    Selena Gomez, “Only Murders in the Building”
    Elle Fanning, “The Great”

Melhor Ator – Série de Comédia ou Musical
    Bill Hader, “Barry”
    Steve Martin, “Only Murders in the Building”
    Jason Segel, “Shrinking”
    Martin Short, “Only Murders in the Building”
    Jason Sudeikis, “Ted Lasso”
    Jeremy Allen White, “The Bear”

Melhor Ator Coadjuvante — TV
    Billy Crudup — “The Morning Show”
    Matthew Macfadyen — “Succession”
    James Marsden — “Jury Duty”
    Ebon Moss-Bachrach — “The Bear”
    Alan Ruck — “Succession”
    Alexander Skarsgård — “Succession”

Melhor Atriz Coadjuvante — TV
    Elizabeth Debicki, “The Crown”
    Abby Elliott, “The Bear”
    Christina Ricci, “Yellowjackets”
    J. Smith-Cameron, “Succession”
    Meryl Streep, “Only Murders in the Building”

Melhor Ator Coadjuvante — TV
    Riley Keough — “Daisy Jones & the Six”
    Brie Larson — “Lessons in Chemistry”
    Elizabeth Olsen — “Love and Death”
    Juno Temple — “Fargo”
    Rachel Weisz — “Dead Ringers”
    Ali Wong — “Beef”

Melhor Performance de Comédia Stand-Up
    “Ricky Gervais: Armageddon”
    “Trevor Noah: Where Was I”
    “Chris Rock: Selective Outrage”
    “Amy Schumer: Emergency Contact”
    “Sarah Silverman: Someone You Love”
   “Wanda Sykes: I'm an Entertainer”

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

4EVER: Ryan O'Neal

 

20 de abril de 1941✰ 08 de dezembro de 2023

 Charles Patrick Ryan O'Neal nasceu em Los Angeles, filho da atriz Patricia Ruth Olga e do escritor Charles O'Neal. Antes de se tornar ator pretendia seguir a carreira como boxeador, chegando a realizar algumas lutas como boxeador amador. Tudo mudou quando começou a realizar trabalhos como figurante e dublê, o que o fez decidir ser ator. Em 1964 conseguiu um papel na novela Peyton Place da Rede ABC e cinco anos depois estreou no cinema, no filme The Big Bounce, depois ganhou algum reconhecimento pelo atleta de The Games (1970) que acabou rendendo sua indicação para viver o galã do clássico Love Story (1970). O filme fez um enorme sucesso e rendeu ao jovem desconhecido uma indicação ao Oscar de melhor ator. Depois ele fez outros sucessos como Lua de Papel (1973), que rendeu um Oscar de coadjuvante para sua filha, Tatum O'Neal aos 10 anos de idade! Naquele ano Ryan se tornou um dos artistas mais populares de Hollywood, estrelando em 1975 mais um clássico, Barry Lyndon (1975) de Stanley Kubrick. Nos anos 1980 ele enfrentou dificuldades para se manter no auge. Durante o período foi casado com a pantera Farrah Fawcett, de quem ficou viúvo em 2009. Seus últimos trabalhos mais importantes foram na televisão em séries de sucesso como em Bones (2006-2017) em que viveu o pai da protagonista. O ator faleceu em decorrência de sua luta contra o câncer.

KLÁSSIQO: Delicatessen

Pinon: a estreia impactante de Jean-Pierre Jeunet.

 Acho que trinta e dois anos após seu lançamento, o filme de estreia do francês Jean-Pierre Jeunet pode ser considerado um clássico! Na época de seu lançamento, se tornou um daqueles filmes que todo cinéfilo deveria assistir e comentar por aí. Tinha uma aura cult e todo mundo só falava dele, principalmente por sua estranheza com verniz cômico, afinal, a trama é sobre um rapaz de bom coração Louison (Dominique Pinon) que aluga um apartamento num prédio em que o proprietário de vez em quando prepara uma refeição... digamos, especial para seus inquilinos com base na carne de outro inquilino. A ideia indigesta ganha corpo numa atmosfera pós-apocalíptica com toques surrealistas cheia de piadinhas, rapidez e uma estética que se transformou a marca do diretor. Louison irá se apaixonar pela filha do proprietário e irá conhecer os seus estranhos vizinhos, no meio de tudo isso tem um grupo que vive nos esgotos que está prestes a invadir o prédio e acabar com as atrocidades que são cometidas ali. Depois de tantas décadas a ingenuidade do protagonista pode até irritar alguns espectadores, assim como o ritmo acelerado que hoje se mostra datado, naquele tempo dava um ar moderninho, mas hoje mereceria o rótulo de Geração TikTok (antes era "geração MTV", mas ao origem da carreira de Jeunet é nos clipes mesmo). Observando hoje, os maiores méritos do filme ficam por conta da direção de arte que constrói um mundo bastante particular com detalhes bastante anacrônicos e cenários vívidos que fazem toda a diferença em tempos de CGI em excesso. Acho que também vale elogiar Dominique Pinon, que é famoso por ter um dos rostos mais "exóticos" do cinema e que consegue se tornar atraente ao encarnar um personagem tão gente boa. Ele voltou a trabalhar com Jeunet diversas vezes, inclusive em seu filme seguinte (Ladrão de Sonhos/1995) em que muitos começaram a ressaltar que o cinema do francês tinha mais forma do que conteúdo. O curioso é que depois desses dois filme, Jeunet migrou para Hollywood e dirigiu o Alien: A Ressurreição (1997), considerado por muitos o pior da franquia. A ida para a Terra do Tio Sam lhe custou a parceria com o amigo Marc Caro - e parece que a o lado mais sombrio dos primeiros filmes de Jeunet se devia à influência do companheiro, já que seus longas seguintes seguiram por caminhos mais luminosos como o sucesso mundial O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), Eterno Amor (2004) e Uma Viagem Extraordinária (2013). Embora seu cinema tenha perdido o impacto na última década, Jeunet ainda é um sujeito que pensa seus filmes de forma bastante autoral, o que torna ainda mais curioso conferir o que ele foi capaz de fazer com todo o gás de seu início de carreira. 

Delicatessen (França - 1991) de Jean-Pierre Jeunet com Dominique Pinon, Marie-Laure Dognac, Pascal Benezech, Jean Claude-Dreyfus, Karin Viard, Ticky Holgado, Jacques Matou e Anne-Marie Pisani.☻☻☻

PL►Y: Indiana Jones e a Relíquia do Destino

Phoebe e Ford: dupla difícil de engatar.

A certa altura de Indiana Jones e a Relíquia do Destino, o vilão do filme volta-se para o herói e declara que no mundo não existe mais lugar para eles. Levando em consideração a bilheteria decepcionante que o filme conseguiu ao redor do mundo (336 milhões de dólares, pouco para um filme de 295 milhões de dólares mais os gastos com marketing que ultrapassaram os cem milhões), pode parecer que foi uma afirmativa premonitória, no entanto, o filme não se passa em 2023, mas em 1969, ano em que o professor Jones se aposenta da Universidade.  No entanto, quando o filme começa  durante a Segunda Guerra Mundial, o protagonista enfrenta mais uma vez o interesse de oficiais alemães em artefatos raros e com propriedades metafísicas capazes de fazer um grande estrago se caírem nas mãos erradas. Aqui o artefato é um mecanismo construído pelo genial Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.) que é capaz de identificar fissuras no eixo espaço-tempo e promover viagens temporais. Quem mantém o interesse por isso, seja na década de 1940 ou várias décadas depois é Jürgen Voller (Mads Mikkelsen), que deseja ir ao passado para reverter a derrota da Alemanha na Guerra. Voller é o vilão do filme, um oficial alemão que migrou para os Estados Unidos e se tornou um dos cérebros por trás da corrida espacial na Terra do Tio Sam. Quem também tem interesse no apetrecho é Helena Shaw (Phoebe Waller Bridge), afilhada de Indy, filha de um companheiro de aventuras (Tobey Jones) que acabou enlouquecendo por conta do artefato. Os três são as principais peças de um filme cheio de cenas de ação, mas que padece de um roteiro com dificuldades enormes de envolver a plateia na história que tem para contar. O problema maior nem é Indiana Jones calejado, sofrido com as armadilhas da vida pessoal e um tanto desanimado com um mundo que começava a se tornar obcecado por tecnologias, o que mais desagrada é o tom jocoso com que vários personagens se dirigem a ele, principalmente sua afilhada Helena. Não sei muito bem qual foi a intenção de colocarem a personagem no filme, mas a relação dela com o padrinho é uma das coisas mais estranhas que já vi. Demora para haver um entrosamento entre os dois e  a trama engatar. O fato de a colocarem como uma golpista espertalhona que se utiliza de seu apelo emocional perante um senhor aposentado é algo que torna quase impossível desenvolver alguma simpatia por ela. Daí, as tentativas de dar algum brilho à personagem também soaram inúteis para mim, enfim, não funcionou (e mais uma vez aquele papo de “a mocinha não precisa ser resgatada porque se vira sozinha” mostra já ter sido usado à exaustão. Bora elaborar analogias feministas mais caprichadas nos filmes, por favor!). Pode-se dizer que ela tampou o buraco deixado pelas ideias de dar uma família para o protagonista depois que Shia LaBeouf demonstrou ser uma péssima escolha para o papel de herdeiro do arqueólogo aventureiro no filme anterior (que já não era grandes coisas). Resta dizer que o carisma de Harrison Ford permanece intacto, mas o filme não sabe muito o que fazer com ele. Podem até colocar na conta da saída de Spielberg da direção e a entrada de James Mangold, em mais um exercício genérico de sua carreira. Ele faz o que pode, mas o roteiro é tão fraquinho que nem mesmo um milagre para dar jeito... ao menos aquela parte de viagem ao passado provoca algum deslumbramento, mas é pouco. O filme já está quase no fim após ter se arrastado por quase duas horas. Espero que ao menos deixem Indiana descansar dessa vez e não o incomodem novamente aguardando o rendimento de milhões de bilheteria. Mas voltando ao início, não sei se o mundo não tem mais lugar para um herói feito Indiana Jones, só acho que os estúdios não sabem mais o que fazer com nossos heróis favoritos.

Indiana Jones e a Relíquia do Destino (Indiana Jones and The Dial of Destiny / EUA - 2023) de James Mangold com Harrison Ford, Mads Mikkelsen, Phoebe Waller Bridge, Antonio Banderas, Karen Allen, Thomas Kretschmann, Ethann Isidore, Olivier Richters e Shaunette Renée Wilson. ☻☻

domingo, 3 de dezembro de 2023

10+: Melh✪res Pôsteres de 2023

 Dando início às tradicionais listas de fim de ano com a coletânea dos meus pôsteres favoritos:

#10 "Anatomia de Uma Queda" de Justine Triet 
 

 
 
#08 "Dream Scenario" de Kristoffer Borgli
 
 
  
#07 "Saltburn" de Emerald Fennell
 
 
#06 "Missão Impossível: Acerto de Contas - P1" 
de Christopher McQuarrie

#05 "Zona de Interesse" de Jonathan Glazer 
 
 
 
  
 
 
#02 "Pobres Criaturas" de Yorgos Lanthimos
 
 

PL►Y: NINJABABY

Nader e Kristine: quase uma comédia romântica.

Sabe aquele dia que você começa a assistir vários filme e para no meio por não estar no clima para ver nenhum deles? Eu estive assim ontem e houve um sentimento de frustração que só crescia. Eis que encontrei na MUBI este aqui, um filme que nunca ouvi falar e nem tinha visto no streaming antes. Isso deve ter colaborado muito para que eu embarcasse no filme de peito aberto rumo ao desconhecido. O melhor de tudo é que NINJABABY é uma delícia de assistir, sua mistura de drama, comédia, romance e crise existencial é feita no capricho e, de bônus, temos o carinho com que a diretora  Yngvild Sve Flikke (eu sei, será difícil lembrar depois) trata seus personagens, especialmente a protagonista, Rakel (Kristine Kujath Thorp). Rakel não sabe muito bem que caminho seguir, mas é muito boa com ilustrações e por vezes cria alguns personagens - tanto que na vida real ela costuma apelidar quem cruza o seu caminho com nomes de personagens saídos de alguma HQ underground. Ela divide o apartamento com a amiga Ingrid (Tora Dietrichson) e quando as duas resolvem fazer aulas de defesa pessoal, Rakel tem a impressão que conhece o professor de algum lugar - ela o chama de AikidoMoss (Nader Khademi). Ela lembra que os dois tiveram um momento, digamos, prazeroso juntos e que se deram muito bem. No entanto, Rakel descobre que está grávida e não sabe muito bem o que fazer. De início imaginei que seria mais um filme indie pró-aborto, mas não é nada disso. Grávida de seis semanas, Rakel terá que encontrar outros caminhos para lidar com o bebê que está dentro dela (que ganha o nome do título e conversa com a personagem ao longo de toda a sessão sobre o destino que deverá ter, ou, na verdade, trata-se da consciência da própria Rakel que perceber que já está crescida demais para não levar a vida a sério). Ninjababy é bastante divertido, mas traz temas sérios como crescimento, responsabilidade, adoção e maternidade abordados com frescor e nenhum moralismo. Os personagens são de carne e osso, tem seus dilemas, dúvidas e contradições aparecendo a todo instante e a diretora mistura tudo com uma energia irresistível. Destaques para Kristine que vive Rakel como se não conseguisse separar o que é personagem e o que é atriz, além da fofura de Nader Khademi como o apaixonado professor. Ah, claro, não posso esquecer do (blasfêmico) Paujesus (Arthur Berning) o pai do bebê que mergulha em uma verdadeira crise de identidade quando descobre que terá um filho no mundo. Com ambientações nada glamourosas e o uso de animações para ilustrar as sensações da protagonista, Ninjababy é uma das gratas surpresas que assisti em 2023. O  filme me lembrou o pouco o astral do francês Playlist (2021), outra pérola indie europeia de voz deliciosamente feminina. 

NINJABABY (Noruega/2021) de  Yngvild Sve Flikke com Kristine Kujath Thorp, Nader Khademi, Arthur Berning, Tora Dietrichson, Silya Nimoen, Herman Tømmeraas, Evelyn Rasmussen Osazuwa e Morten Svartveit. ☻☻☻☻

PL►Y: Minha Irmã

Hoss: uma mulher em recomposição.

A alemã Nina Hoss é uma das atrizes mais interessantes em atividade no cinema. Se você curte cinema europeu, provavelmente a conheceu em um dos filmes de Christian Petzold (provavelmente em Fênix/2014 que ficou em cartaz por aqui durante semanas), mas se você curte mesmo filmes celebrados na temporada de prêmios, deve tê-la visto como a companheira de Cate Blanchett em TÁR (2022) que a deixou cotada para uma indicação ao Oscar de coadjuvante. Quem conhece Nina sabe que ela é capaz de inserir várias camadas nas personagens que encarna, geralmente as tornando mais complexas do que se imaginaria ao ler uma sinopse ou roteiro. Este gosto pelo ofício é o que podemos ver mais uma vez em Minha Irmã, filme que tentou uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro no ano de seu lançamento e acabou ficando de fora. À primeira olhada parece um melodrama manjado sobre pessoas com doença na família, mas as diretoras e roteiristas Stéphanie Chuat e Véronique Reymond seguem por outro caminho, acentuado ainda mais pelo trabalho de Hoss. O filme conta a história de Lisa (Hoss), uma dramaturga alemã que deixou sua carreira de lado para viver na Suíça com o esposo (Jens Albinus, craque em viver sujeitos odiáveis). Duas filhas depois, ela acaba retornando para Berlim por conta do seu irmão gêmeo, Sven (Lars Eidinger) que está passando por um tratamento contra o câncer. O que poderia ser apenas um conjunto de dias ao lado do irmão doente se torna uma verdadeira jornada de desconstrução para a personagem. Além de reencontrar o irmão que é ator, ela também tem novamente proximidade com a mãe (Marthe Keller), uma atriz aposentada que nunca entendeu muito bem o motivo da filha ter deixado tudo para trás, mas também não entende o motivo dela se afastar do esposo naquele momento. Fica evidente que a relação entre a família é tensa e ela só piora quando Lisa resolve trazer as filhas para visitar o tio. Aos poucos tudo parece entrar em colapso, a relação de Lisa com os conhecidos do teatro, a relação com a mãe, com o marido e, obviamente, consigo mesma. A sensação é que Lisa está prestes a perder sua metade conforme a situação de saúde o irmão piora. No desespero, resta se agarrar a qualquer esperança de que ele permaneça por perto. Apesar de alguns momentos de explosão, o filme é bastante sutil nas engrenagens que se escondem por baixo do que se vê e escuta. Achei um filme tão forte quanto sensível e Nina tem algun do melhores momentos de sua carreira, como aquele em que ela parece que vai explodir em lágrimas e respira fundo para continuar tentando prosseguir. No entanto, tem uma frase que me dói toda vez que ela é dita, aquele "eu sinto muito" mecânico que não quer dizer muita coisa e que só quem tem alguém amado à beira da morte é capaz de sentir e identificar.

Minha Irmã (My Little Sister/Suíça - 2020) de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond com Nina Hoss, Lars Eidinger, Jens Albinus e Marthe Keller. ☻☻☻☻