quarta-feira, 8 de março de 2023

Na Tela: A Baleia

 
Brendan: duzentos quilos de maquiagem. 

Charlie (Brendan Fraser) é um professor de redação que após a morte de seu parceiro encontrou na comida uma forma lidar com a solidão. Antes do relacionamento homoafetivo, ele era casado com Mary (Samantha Morton) e tinha uma filha de oito anos que, agora, tornou-se uma adolescente revoltada, a Ellie (Sadie Sink), com quem ele tenta uma reaproximação. Acontece que Charlie tem problemas com a sua auto imagem após ganhar mais de duzentos quilos, sem sair de casa há tempos, ele opta por dar aulas online sempre com a câmera desligada. Com cada vez mais problemas de saúde, ele conta com a ajuda da amiga enfermeira, Liz (Hong Chau) para lidar com algumas de suas dificuldades. Vez por outra ele também recebe a visita de um jovem missionário da Igreja Nova Vida, Thomas (Ty Simpkins), que tenta não apenas convertê-lo como também salvar aquela alma desesperada. Esta é a sinopse de A Baleia, novo filme do diretor Darren Aronofsky que divide opiniões desde que estreou no Festival de Veneza (e ainda assim rendeu seis minutos de aplauso pela atuação de Brendan Fraser). Baseado na peça de Samuel D. Hunter (que também assina o roteiro) o filme nem tenta escapar de sua origem teatral, se apropriando sem pudores a ideia de um único cenário em que personagens entram e saem após interagir com o protagonista. Este ponto é bastante curioso se levarmos em consideração a carreira de Aronofsky, que costuma escrever suas próprias histórias e lidar com muitas invencionices visuais. Talvez depois de toda a elaboração de Mãe! (2017), Darren quis simplificar as coisas (e o efeito é muito parecido com a dicotomia do incompreendido Fonte da Vida/2006 com o aclamado O Lutador/2008, incluindo as referências religiosas de um com a redenção do relacionamento de pai e filha do outro), mas, como de hábito, seu novo projeto está longe de agradar a todos. Nem vou dizer o que acho da ideia de tirar Brendan Fraser do papel principal e colocar um ator com mais de duzentos quilos diante da câmera (quantos assim você conhece que geraria interesse nas bilheterias?), o maior problema do filme não é nada disso, mas a forma como o roteiro parece tocar uma nota só por quase duas horas. Não existe aqui movimento nos personagens, a filha é sempre desagradável com o pai, o missionário sempre cego em sua fé (ainda que o filme se embole mais do que deveria quando revela o segredo dele), Liz sempre puxando a orelha do amigo e o próprio Charlie faz pouco mais do que aguentar as pancadas da vida enquanto pede desculpas. Ajuda a ter a ideia de inércia a ambientação monocromática dos cenários e da fotografia. O que faz o filme parecer um tantinho melhor com o material que oferece são as atuações de Hong Chau, indicada ao Oscar de coadjuvante (como uma atriz consegue demonstrar afeto e aspereza de forma tão contundente?) e especialmente de Brendan Fraser com seus enormes olhos azuis emoldurados por uma maquiagem impressionante (também indicada ao Oscar). Fraser foi um grande astro nos anos 1990, passando de filmes adolescentes para projetos sérios, mas teve problemas físicos (por conta de um acidente nas filmagens de A Múmia que o condenou a tomar remédios fortíssimos) e emocionais (pelo caso de assédio sexual de um produtor de Hollywood) que fez sua carreira perder fôlego de forma repentina. Agora, ele retorna com um comeback factor irresistível perante a Academia que lhe indicou ao prêmio de melhor ator por sua performance (e com fortes chances de ser premiado), ele só merecia um filme mais robusto para fazer jus ao seu desempenho. A Baleia (título provocativo em "alusão" ao livro Moby Dick que é quase uma obsessão para Charlie) não é ruim, mas também não é tão bom quanto poderia ser. 

A Baleia (The Whale/ EUA -2022) de Darren Aronofksy com Brendan Fraser, Hong Chau, Sadie Sink, Ty Simpkins, Samantha Morton e Jacey Sink. ☻☻☻

domingo, 5 de março de 2023

#FDS Terror: Até os Ossos

 
Taylor e Chalamet: de amor e restos humanos. 

Maren (Taylor Russell) sempre foi criada por muito cuidado pelo pai (André Holland), mas bastou um incidente para que ele deixasse a filha à própria sorte. Ele sabia desde o início que a menina não era igual às outras crianças, provavelmente por uma herança genética herdada da mãe que a torna atraída pela carne humana. Ciente das consequências que este gosto peculiar traz para suas vidas, ele parte e deixa a menina seguir seu próprio caminho. Sem ter para onde ir, Maren conhece o estranho Sully (Mark Rylance) que a faz entender um pouco mais sobre si, mas que lhe provoca tanta repulsa que ela prefere ficar na companhia de Lee (Timothée Chalamet) um adolescente, tão perdido quanto ela, com quem poderá entender mais sobre si mesma e, de quebra, ainda viver uma história de amor. Talvez eu tenha escrito mais do que devia, mas o fato é que Até os Ossos é um filme complicado demais para comentar. A começar pela forma como o canibalismo é abordado na trama imaginada pela escritora Camila de Angelis quase como uma metáfora para o sentimento de inadequação vivido pelos seus jovens protagonistas. Agora, acrescente o gosto de Luca Guadagnino em estilizar cenas grotescas e você terá só uma ideia do que o filme tem a oferecer. O filme foi envolto em polêmicas desde que foi anunciado, especialmente por Luca e Timothée terem trabalhado juntos com Armie Hammer em Me Chame Pelo  Seu Nome (2017) e tempos depois a carreira de Armie implodiu com seus gostos semelhantes ao de Maren e Lee (e para saber um pouco mais sobre toda está polêmica vale assistir a minissérie documental House of Hammer disponível na HBOMax). Talvez, a tentativa de compreender o ex-colega de trabalho tenha ajudado os dois a mergulharem neste projeto. O fato é que Até os Ossos mistura o lirismo de Me Chame Pelo seu Nome com o horror da refilmagem de Suspiria (2018) feita pelo cineasta logo depois. Nas andanças do jovem casal existem cenas de revirar o estômago e, entre elas está o frio na barriga que se estabelece por conta própria. Na jornada de ambos existem personagens tão esquisitos que tudo parece uma grande ameaça aos dois que, em si, são ameaças para quem possa cruzar seu caminho. O fato é que enquanto filme de terror, o filme se constrói de forma original, como se fosse a adolescência de um jovem Hannibal Lecter, mas termina com o gosto amargo de um jantar que não acaba como o planejado. Muito do apelo do filme se deve à estética impressa por Guadagnino e as atuações de seu elenco, sobretudo de Taylor Russell que impressiona (tanto que foi eleita a artista revelação do Festival de Veneza e foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Independent Spirit) e nem vou citar o Mark Rylance (indicado ao Independent Spirit e Gotham Awards por seu trabalho de coadjuvante) por achar que ele está tão estranho, mas tão estranho que só de lembrar da cara dele, eu já tenho arrepios. Definitivamente não é para todos os gostos, mas quem assistir poderá se surpreender com as camadas impressas na trama e como o amor pode brotar das situações mais bizarras. 

Até os Ossos (Bones and All / Itália - EUA / 2022) de Luca Guadagnino com Taylor Russell, Timothée Chalamet, Mark Rylance, André Holland, Kendle Coffey, Ellie Parker, Michael Stuhlbarg e David Gordon Green. ☻☻☻☻

sábado, 4 de março de 2023

#FDS Terror: Morte Morte Morte

 
Amanda, Bakalova, Chase e Sennott: brincadeira levada a sério. 

Um grupo de jovens ricos entediados e sem muito o que fazer resolvem se encontrar na mansão de um deles antes de uma tempestade para uma festinha. Este é o ponto de partida para Morte, Morte, Morte  que parece um filme de terror, mas é na verdade um suspense psicológico em tom de galhofa. Quando o filme começa com o longo beijo de Sophie (Amanda Stleinberg) e Bee (Maria Bakalova), você não imagina o que irá acontecer quando Sophie encontrar seus velhos conhecidos. Estarão lá a sua melhor amiga (e influencer) Alice (Rachel Sennott), o melhor amigo dela (Pete Davison), a namorada atriz dele, Emma (Chase Sui Wonders), e a ex-namorada de Sophie, Jordan (Myha'la Herrold), além de uma espécie de penetra do grupo, Greg (Lee Pace) - o atual ficante mais velho de Alice. Sem perder muito tempo com as apresentações, o filme logo estabelece um clima pesado entre os personagens, muito por conta das situações que já passaram juntos e os ressentimentos que ainda não foram plenamente cicatrizados (além de uma certa antipatia por Bee e Greg, que estão longe de pertencer aquele mundinho). Conforme a festinha avança, o álcool começa a subir à cabeça, assim como o uso das drogas e a ideia de criar brincadeiras estúpidas ajuda a aumentar ainda mais a tensão do grupo. Eis que resolvem brincar do jogo que dá nome ao filme (em que um participante assume o papel de assassino e os demais são vítimas em potencial enquanto não descobrem a identidade do vilão) e a coisa não demora a sair ainda mais do controle. Quando o primeiro corpo é encontrado não demora para um a um ser eliminado. A ameaça iminente só aumenta o clima de paranoia que se instaura entre os personagens. Tudo se torna motivo para acusações e ações que, em nome da legítima defesa, começam a colocar em risco todos eles. Dirigido pela cineasta Halina Reijn (responsável por Instinto/2019 o pré-candidato da Holanda ao Oscar 2020), o longa surpreende pela desenvoltura com que vira do avesso a fórmula dos slasher movies e chega a um final tão irônico que poderia soar ridículo se não fizesse todo o sentido. Reijn segue os fatos com uma câmera nervosa, trêmula na medida certa (sempre em closes claustrofóbicos) e sabe tirar proveito do mínimo de iluminação que utiliza na maioria das cenas. Se existe um problema no filme é o desenvolvimento um tanto pobre das personagens, que fica lá pelo meio do caminho da histeria coletiva. Em certos momentos o filme me lembrou Clímax (2018) do Caspar Noé em seu tom de bad trip, mas consegue ser muito mais bem humorado, o que lhe confere até um certo charme especial. Para surpresa de muita gente o filme foi lembrado nas categorias de melhor roteiro de estreia e melhor direção na última edição do Independent Spirit Awards e está disponível atualmente na HBOMax

Morte, Morte, Morte (Bodies, Bodies, Bodies/ EUA - 2022) de Halina Reijn com Amanda Stleinberg, Maria Bakalova,  Rachel Sennott, Lee Pace, Pete Davison, Myha'la Herrold e Chase Sui Wonders. ☻☻☻

INDICADOS AO OSCAR 2023: ATRIZ

Ana de Armas (Blonde) a biopic de Andrew Dominik entrou fácil para o grupo de produções mais polêmicas do ano desde que foi exibido no Festival de Veneza. Sua opção por mostrar o lado mais sórdido da vida de Marilyn Monroe (baseado no livro homônimo de Joyce Carol Oates) causou uma certa revolta na indústria. A sorte é que a atuação de Ana de Armas passou ilesa perante todas as críticas que o filme recebeu e lhe rendeu indicações ao BAFTA, SAG e Globo de Ouro. Essa é a primeira indicação ao Oscar da atriz cubana de 34 anos e que ganhou destaque em várias produções nos últimos anos (como Blade Runner 2049, Entre Facas e Segredos e 007 - Sem Tempo para Morrer). 

Andrea Riseborough (To Leslie) com certeza você já viu a atriz inglesa em algum filme (W/E, Oblivion, Guerra dos Sexos, Mandy, A Morte de Stalin, Possessor...), mas não deve lembrar dela por sua aparência camaleônica. Sua primeira indicação ao Oscar acabou gerando polêmica pela forma revolucionária como foi feita a partir de seus pares em redes sociais. Seu trabalho como a ganhadora da loteria que perde tudo por conta de seus vícios foi aclamada por Cate Blanchett, Kate Winslet e Mia Farrow. Nada mal para uma produção de orçamento minúsculo e sem grana para campanhas de marketing! Pelo trabalho, Andrea foi também indicada ao Independent Spirit. 

Cate Blanchett (TÁR) Única oscarizada entre as indicadas, a atriz australiana está disposta a levar para casa seu terceiro prêmio da Academia. Se Cate sempre foi elogiada por seus trabalhos, pelo papel da maestrina celebrada, mas que tem sua carreira colocada em risco por conta de seu passado nebuloso, ela se tornou um unanimidade da temporada (levou para casa o Globo de Ouro de atriz dramática, o BAFTA e o Critic's Choice) e divide o favoritismo com Michelle Yeoh na categoria. Essa é a sétima indicação da atriz ao Oscar, a quinta na categoria de melhor atriz (pelo qual já foi premiada por Blue Jasmine/2013). Ela também possui o prêmio de coadjuvante por Aviador/2004. 

Michelle Williams (Os Fabelmans) ficou lisonjeada quando Steven Spielberg a convidou para viver o papel inspirado em sua mãe no filme que bebe diretamente nas memórias do diretor. Presente em um terço do filme, se estivesse na categoria de atriz coadjuvante a atriz teria mais chances de ser reconhecida pelo seu bom trabalho, mas com pesos pesados no páreo a coisa complica. Essa é a quinta indicação ao Oscar da atriz que ficou famosa por seu trabalho na série Dawson's Creek, depois ela entrou para lista de queridas da Academia, concorrendo anteriormente como coadjuvante por Manchester à Beira Mar (2016) e Brokeback Mountain (2005), além de melhor atriz por 7 Dias com Marilyn (2011) e Blue Valentine (2010). 

Michelle Yeoh (Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo) fazia tempo que o Oscar devia uma indicação para ela. Ela estudou balé desde os quatro anos, foi para Londres estudar atuação e ganhou o título de Miss Malásia nos anos 1980. Ela fez vários filmes com Jackie Chan e muitos outros em Hollywood. Seu papel no alucinante filme dos Daniels parece uma espécie de homenagem por todos os papéis que encarnou em sua carreira, sem perder o glamour de sua persona pública. No filme, Yeoh vive uma dona de lavanderia que se aventura pelo multiverso para salvar o mundo e sua família. Pelo papel, já levou para casa o Globo de Ouro de atriz de comédia,  o SAG e o Independent Spirit de melhor atriz. É a atual favorita da categoria. 

A ESQUECIDA: Danielle Deadwyler (TILL) Quando o filme estreou, muita gente decretou que Danielle seria pela primeira vez indicada ao Oscar pelo papel da mãe com sede de justiça por conta de um crime envolvendo a morte de seu filho. A luta de sua personagem real contra o racismo e a indiferença das autoridades chegava a despontar até com mais chances de conseguir uma indicação do que a de Viola Davis em A Mulher Rei, no entanto, quando a votação da Academia se aproximou, nenhuma das duas cravaram suas indicações. Danielle promete fazer muitos trabalhos interessantes nos próximos anos e cabe à Academia se redimir de ter deixado seu trabalho memorável passar em branco nas indicações. 

sexta-feira, 3 de março de 2023

#FDS Terror: Pearl

 
Pearl: Mia Goth digna de Oscar. 

Ao assistir o filme X de Ti West (disponível no Prime Video) era fácil perceber que havia algo de diferente por ali. A ideia de uma trupe da indústria pornô dos anos 1970 que padece nas mãos de um casal de velhinhos aparentemente inofensivos trazia camadas interessantes sobre o conservadorismo, o medo de envelhecer e a própria história dos slasher movies. Além disso, trazia uma grata surpresa ao colocar Mia Goth na pele de duas personagens, a ambiciosa pornstar Maxine e a idosa dona do local, Pearl. Mia já brilhava ao dar conta das duas mullheres que se refletiam feito um espelho distorcido e West percebeu que explorar um pouco mais aquela enigmática senhora poderia ser muito interessante. Dizem que Pearl nasceu das conversas de Goth com o diretor sobre a história da personagem que fez com que ela se comportasse da forma como vimos anteriormente, escrito pela atriz e o cineasta, o filme recebeu elogios assim que foi lançado (incluindo do mestre Martin Scorsese) e algumas comparações com Coringa/2019 de Todd Phillips. Pearl (Mia Goth) é uma jovem que sonha em ser artista de cinema, mas vive quase isolada na fazenda de sua família, o pai (Matthew Sunderland) precisa de cuidados especiais por conta de um AVC e a mãe (a ótima Tandi Wright) é pura rigidez para conter os impulsos que sua filha é capaz de ter. Pearl também é casada, mas seu esposo está na guerra e se antes já a decepcionou por optar por morar longe da cidade, a ideia de que ele a deixou para morrer nos campos de batalha a torna ainda mais decepcionada. Se não há nada demais nas ambições da protagonista, os problemas aparecem logo nas cenas iniciais quando ela desconta sua raiva de um mundo que parece ignorá-la nos animais da fazenda e, mais tarde, com outros personagens que atravessam seu caminho. Neste trajeto, além de seus pais, dois personagens merecem destaque, a cunhada (Emma Jenkins-Purro) e o projecionista do cinema local (David Corenswet) que alimentam as ambições da garota sem se darem conta do que está por vir. West bebe nos clássicos do terror mais uma vez para construir uma narrativa ainda mais tensa do que em X, além disso mistura tudo com o tempero de O Mágico de Oz (1939) na construção de uma estrutura de fantasia que está prestes a ruir. Assim, ele cria cenas tão estranhas como memoráveis (como a do espantalho ou o jantar mórbido com a família), mas nada que se compare ao monólogo de Pearl com a cunhada em que confessa todos os seus pecados. Vale destacar que Mia Goth está magnífica em cada cena criando uma personagem complexa, tão triste quanto insana e não era exagero dos fãs que aguardavam uma indicação ao Oscar para a moça (mas o Oscar tem lá sua resistência com os filmes de terror). Mia teve que se contentar com indicações a prêmios da crítica e ao Independent Spirit, mas, de fato, merecia mais. O filme carimbou de vez na carreira de Goth (que é neta da atriz brasileira Maria Gladys) o selo de musa do terror cult atual, além de criar ainda mais expectativas para MaXXXine a terceira parte da trilogia imaginada por Ti West e sua musa. 

Pearl (EUA-2022) de Ti West com Mia Goth, Tandi Wright, David Corenswet, Emma Jenkins-Purro, Matthew Sunderland e Amelia Reid. ☻☻☻☻

PL►Y: Triângulo da Tristeza

 
Charlbi e Harris: casal em crise no purgatório. 

Carl (Harris Dickinson o bom estreante de Beach Rats/2017) e Yaya (Charlbi Dean, infelizmente falecia por conta de uma virose) são namorados, e modelos. Ele já viveu dias melhores na carreira, ela está em ascensão. Não demora muito para perceber que o casal está em crise e, sempre que o dinheiro entra em pauta, as discussões se tornam ainda mais acaloradas. Devido ao grande número de seguidores em redes sociais, Yaya também é uma influenciadora e está acostumada a ganhar brindes pela publicidade que gera para determinadas marcas. É por conta disso que ela e Carl vão parar num cruzeiro habitado por pessoas muito ricas e viver por algumas situações que nunca imaginaram em suas vidas. O relacionamento entre o jovem casal é o fio condutor da nova provocação do sueco Ruben Östlund que recebeu sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes por este Triângulo da Tristeza (a primeira foi The Square, meu filme favorito lançado por aqui em 2018). Até Força Maior (2014), Östlund disfarçava suas sátiras com um tom tão seco que as pessoas não sabiam se era para rir ou levar a sério o que ele apresentava, desde então, ele resolveu deixar claro que suas obras são para sátiras equilibradas no que pode ser dito e o que é melhor ficar escondido. Por aqui ele resolve mirar na elite econômica, apresenta tipos que beiram a caricatura, como o  capitalista russo grosseirão, o casal de simpáticos velhinhos que fizeram fortuna na indústria bélica ou o homem milionário da tecnologia que não sabe muito bem como parecer atraente. Se esta é a elite do barco, existem ainda o capitão alcóolatra do navio (Woody Harrelson) e toda a tripulação que padece sob os devaneios de quem considera que pode fazer o que quer apenas por ter muita grana. No segundo ato, o diretor atira para todos os lados, sucumbindo à cena de jantar mais escatológicas da história do cinema (numa cena que já ficou famosa quando comentam sobre o filme). Esse tom de Titanic do século XXI ganha tons de purgatório quando todo aquele universo de privilégios é comprometido pela ameaça de naufrágio, com passageiros passando mal acompanhados por uma narrativa pesadelesca sobre capitalismo. No terceiro ato, quando alguns personagens se veem isolados em uma praia, as regras sociais estabelecidas anteriormente não valem de muita coisa e a camareira Abigail (Dolly de Leon indicada ao BAFTA e ao Globo de Ouro) percebe que pode estabelecer novas regras a seu favor, gerando consequências que conduzem a trama até o seu desfecho um tanto enigmático. Fazendo parte do clube da série White Lotus e filmes recentes como O Menu (2022) e Parasita (2019), a primeira experiência de Östlund totalmente em língua inglesa caiu nas graças do Oscar e concorre aos prêmios de roteiro e direção, além de melhor filme. Sei que muita gente torce o nariz para o filme e sua ausência de sutileza, mas ainda acho que o diretor continua acertando ao criar filmes provocadores instigantes, além de filmar cada vez melhor. A ideia do barco luxuoso que se torna um purgatório e uma ilha paradisíaca que marca um recomeço podem não ser inéditas, mas funcionam muito bem perante a proposta do diretor. 

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness / EUA - Suécia - Reino Unido / 2022) de Ruben Östlund com Harris Dickinson, Charlbi Dean, Dolly de Leon, Woody Harrelson, Vicki Berlin, Zlatko Buric, Henrik Dorsin, Alicia Eriksson e Sunnyi Melles. ☻☻☻☻ 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

HIGH FI✌E: Dezembro e Fevereiro

 Devido as várias listas de final de ano e a correria do início do ano novo, deixei para fazer a lista dos cinco destaques dos filmes de dezembro junto com as de fevereiro (lembrando que em janeiro o blog estava de férias). Segue a lista dos cinco filmes assistidos no período que merecem atenção, especialmente em tempos de Oscar:

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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Na Tela: TÁR

Cate: terceiro Oscar da carreira?

Em sua carreira como diretor, Todd Field possui apenas três filmes no currículo: Entre Quatro Paredes (2001) que concorreu a cinco Oscars (incluindo melhor filme), Pecados Íntimos (2006) que concorreu em três categorias no Oscar (pelos dois, Field colheu indicações a melhor roteiro adaptado) e TÁR, indicado em seis categorias ao Oscar desse ano (filme, direção, roteiro original, melhor atriz, fotografia e montagem).  Desde que foi exibido no Festival de Veneza, o filme colheu vários elogios, sobretudo pela performance de Cate Blanchett no papel da maestrina Lydia Tár que acaba de assumir a orquestra sinfônica de Berlim e cria para si a tarefa de gravar ao vivo a 5ª Sinfonia de Gustav Mahler. O início do filme deixa claro que Lydia é um dos maiores nomes da música clássica de seu tempo, sendo um dos poucos artistas a receber o EGOT, os cinco maiores prêmios artísticos (Emmy, Grammy, Oscar e Tommy), seus feitos são expostos numa longa entrevista que abre o filme e estabelece desde ali a personalidade forte de Tár, assim como seu humor astuto e a seriedade com que encara seu trabalho. Nas cenas seguintes descobrimos um pouco mais de sua personalidade, sua forma um tanto áspera de lidar com as pessoas, especialmente alunos e sua assistente (Mélanie Merlant). Ela mantém um casamento de algum tempo com a musicista Sharon (Nina Hoss), com quem adotou uma filha e tenta viver uma vida normal longe dos holofotes. No entanto, tudo pode ser destruído quando alguns fatos nada edificantes de sua vida profissional começam a vir à tona. Com a precisão com que Field e Blanchett constroem a personagem, muita gente imagina que Lydia Tár exista de verdade, mas trata-se de uma personagem de ficção escrita por Field (em seu primeiro roteiro original para o cinema) exclusivamente para Blanchett. A atriz (elogiadíssima pelo trabalho e premiada no Festival de Veneza) aprendeu alemão e como conduzir uma orquestra para dar ao papel a intensidade necessária. O resultado realmente assusta. Cate está mais do que acostumada em desaparecer em seus papéis, mas a forma como ela constrói Lydia de forma tão íntima nos longos planos realizados pelo diretor, a veracidade das cenas fica ainda maior, o que torna-se ainda mais importante com a pressão crescente perante as denúncias que começam a existir em torno dela e não apenas sua carreira é posta em risco, como sua vida pessoal também. Esta mistura parece ser o foco do filme, que parece beber na fonte da (im)possibilidade de separar a arte do artista em tempos de denúncias de abuso e cancelamentos. Field não toma partido e alguns podem até considerar que o cineasta perdoa os pecados de sua personagem, mas o desfecho irônico está longe de parecer isso. Muita gente reclama que o filme é lento,  que falta cenas ilustrando crueldades cometidas pela personagem e a forma elitista como a música clássica é apresentada no filme. Destaco que nada disso afetou minha relação com a produção. Field não dirigia há dezesseis anos e aqui parece ainda mais preciso  e um tanto mais cortante quando utiliza humor em seu filme, mas seus filmes nunca foram apressados, sua preocupação em todos os filmes são outras, envolvem dilemas morais complicados, seja para os protagonistas ou para a plateia que se vê diante deles. TÁR não faz diferente, mas se eu fosse reclamar de alguma coisa seria da cena em que Lydia perde as estribeiras, desejava que ela fosse um tanto mais longa e catártica, mas minha mente já se encarregou de alongar a cena até onde devia. Me atrevo a dizer que entre os dez concorrentes ao Oscar de Melhor Filme deste ano, TÁR fica entre os três melhores do páreo. 

TÁR (EUA/2022) de Todd Field com Cate Blanchett, Nina Hoss, Noémie Merlant, Sophie Kauer, Mark Strong e Sylvia Flote.  ☻☻☻☻ 

Na Tela: Os Banshees de Inisherin

Colin e Brendan: amizade que chega ao fim. 

Na mitologia celta (irlandesa), Banshees são seres da família das fadas que são consideradas malignas por preverem a morte das pessoas. Não é por acaso que Martin McDonagh oferece destaque a esta palavra no título de seu novo filme. O longa não apenas é localizado na Irlanda (mais precisamente na fictícia ilha de Inisherin), como também narra uma história que traz algumas mortes. A maioria delas não acontece na ilha, mas a certa distância dela, já que na pacata ilha se escuta o som de bombas e tiros vindos do continente por conta da guerra civil que assolava a Irlanda no ano de 1923. Se de um lado irlandeses matavam irlandeses, na ilha dois amigos irlandeses deixam de ser amigos. Pádraic (Colin Farrell) tenta seguir a rotina de todos os seus dias até ali, mas se surpreende quando seu melhor amigo, Colm (Brendan Gleeson) não quer mais conversar com ele, sem apresentar um motivo para isso. Pádraic não aceita. Pensa que deve ter feito alguma coisa quando encheram a cara na véspera. Pensa que é alguma brincadeira de mal gosto e insiste para que continuem sendo amigos, afinal, ontem mesmo, eles eram inseparáveis. Acontece que Colm está irredutível e chegou à conclusão que ser amigo de Pádraic é uma grande perda de tempo. Este é o ponto de partida para um filme de rumos imprevisíveis, que mistura humor obscuro e drama em iguais medidas. Martin McDonagh encontra um equilíbrio entre estes dois pontos com maestria, deixando um tom cômico pairar sobre a história que mergulha cada vez mais no absurdo e incomoda o espectador por deixar  a impressão que aquele rompimento não precisava chegar ao extremo que caminha a passos largos até o desfecho. Se Colin e Brendan estão muito bem em cena (e repetem a outra parceria que tiveram com o diretor, o elogiado Na Mira do Chefe/2008), o primeiro como o homem um tanto ingênuo e o segundo como um homem mais velho e cada vez mais amargo, ambos estão muito bem amparados por atores secundários, sobretudo Kerry Condon na pele de Siobhán (a esclarecida irmã de Pádraic que está prestes a desistir de encontrar sentido nas coisas que acontecem naquela ilha)  e Barry Keoghan, que interpreta Dominic (um rapaz que sofre nas mãos do pai policial e que tenta se aproximar de Pádraic e Siobhán). De um ponto de partida simples, o texto de McDonagh dá voltas sobre si mesmo, intensificando cada vez mais as notas de sua história emoldurada por bela fotografia e uma trilha sonora que casa perfeitamente com cada cena. Embora seja temperado com certo humor, o filme é terno em sua melancolia e caiu no gosto da Academia que o indicou ao Oscar em nove categorias: filme, direção, ator (Colin Farrell), ator Coadjuvante (Brendan e Barry), atriz coadjuvante (Kerry Condon), roteiro original, trilha sonora e montagem.

Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin/Reino Unido - EUA - Irlanda / 2022) de Martin McDonagh com Colin Farrell, Brendan Gleeson, Kerry Condon, Barry Keoghan, Gary Lydon, Aaron Monaghan, Pat Shortt e David Pearse. ☻☻☻☻